REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências
nova Série . número 66 . agosto-setembro . 2017 . ÍNDICE

 


CLÁUDIA MADEIRA (Portugal, 1972). Docente e investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Realizou o pós-doutoramento intitulado Arte Social. Arte Performativa? (2009-2012) e o doutoramento em Sociologia sobre Hibridismo nas Artes Performativas em Portugal (2007) no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Na sua tese de doutoramento desenvolveu uma análise aprofundada sobre nova dança portuguesa e novo teatro tendo dedicado um capítulo à história da performance arte portuguesa. É autora dos livros Híbrido. Do Mito ao Paradigma Invasor? (Mundos Sociais, 2010) e Novos Notáveis: Os Programadores Culturais (Celta, 2002).
Escreveu vários artigos sobre novas formas de hibridismo e performatividade nas artes. Lecciona na licenciatura e mestrados de Artes Cénicas e Comunicação e Artes do Departamento de Ciências da Comunicação na FCSH/UNL. Organizou o Simpósio Internacional “Performance arte Portuguesa: 2 ciclos para 1 arquivo?” no Museu Colecção Berardo entre 20-22 de Julho de 2016 e é responsável pela linha Performance arte & performatividades nas artes no CAST-IHA/NOVA. V+: http://fcsh.unl.pt/faculdade/docentes/claudiamadeira

 CLÁUDIA MADEIRA

“Carta do Futuro” para Ernesto de Sousa

 

Em 1968, num texto a que deu o título de “Carta do Futuro”, Ernesto de Sousa posicionava-se ficticiamente algures num tempo futuro para melhor olhar e enquadrar o presente, que assim se constitua como passado. E fala desse tempo como a “era das mediações”: “o tempo, em que até o amor se fazia através de uma mediação: o psicanalista! Os Poetas diziam das mulheres, ‘elles coulent comme de l’eau’. Referindo-se ao futuro, talvez o nosso presente, ele dirá ainda: “hoje, nesta nossa civilização hermafrodita, não só dos dois sexos se pode dizer a mesma coisa. Mais ainda de todas as relações humanas que elles coulent comme de l’eau” (Sousa 1987: 18)[1]. 

Este pronúncio do híbrido, da mistura, do cruzamento e da indefinição daí derivados estava já evidenciada no ar dos tempos. A transdisciplinaridade, a transversalidade, a transculturalidade, a transhistória e mesmo a transexualidade ganhavam espaço nas fronteiras diluídas entre arte e vida e da vida como arte. O sociólogo Zygmunt Bauman, conhecido pelas suas análises teóricas em torno da Modernidade Líquida e do Amor Líquido escrevia 40 anos depois, num livro denominado The Art of Live, em 2008, que “somos todos artistas das nossas vidas — sabendo-o ou não, voluntariamente ou não, querendo-o ou não. Ser um artista significa dar forma e corpo ao que de outro modo não o teria. Manipular probabilidades. Impor uma ‘ordem’ no que de outra forma seria ‘caos’: ‘organizar’ uma outra forma caótica — casual, aleatória e não previsível” (2008:125).  

Esta perspetiva que recolocava as “relações humanas” produzidas, quer no campo artístico, quer no campo social, numa espécie de laboratório experimental onde se geravam encontros/ processos e coisas inesperadas e fluídas, como a água, precisa frequentemente de figuras de mediação, como foi Ernesto de Sousa.  

Quase 50 anos passados sobre a escrita deste texto devemos-lhe, através dos seus encontros, escritos e depoimentos[2], a visibilidade de uma história de relações da arte mais experimental em Portugal: desde o sublinhar das questões da história-sem-história das vanguardas portuguesas; à criação da Alternativa Zero; à preocupação constante em achar o conceito mais adequado para classificar as práticas artísticas emergentes à altura, como foi o caso da performance;  passando pelos encontros e relações com os criadores nacionais e internacionais dessas práticas, fossem eles do campo da arte dita de vanguarda, quer da arte popular. 

Ernesto de Sousa procurou a seu tempo criar futuros para a arte portuguesa e feita em Portugal, sem ele o nosso tempo não seria o mesmo.

Bibliografia

Bauman, Zygmunt (2008), The Art of Life, UK, Polity Press.

Madeira, Cláudia (2007), O Hibridismo nas Artes em Portugal, Tese de Doutoramento, Repositório da Universidade de Lisboa.

Sousa, Ernesto de (1987), “Carta do Futuro [1968]”, in Carlos Gentil-Homem e João Carlos Rocha (orgs.), Catálogo ItineráriosErnesto de Sousa, Casa de Serralves, Secretaria de Estado da Cultura, Porto.

[1] Este parágrafo a partir do qual desenvolvo aqui uma homenagem a Ernesto de Sousa e ao seu papel de criador/mediador/divulgador em Portugal é um excerto que apresentei na minha tese de doutoramento (Madeira 2007: 219).

[2] Encontra-se muito do seu trabalho disponível no seu arquivo digital, em http://www.ernestodesousa.com.

 
 
HOMENAGEM DO TRIPLOV A ERNESTO DE SOUSA
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