Revista TriploV de Artes, Religiões & Ciências .
ns . nº 54 . outubro-novembro 2015 . índice


João Rasteiro (Coimbra, Portugal, 1965), poeta e ensaísta, traduziu para português vários poemas de Harold Alvarado Tenorio, Miro Villar, Juan Armando Rojas Joo, Juan Carlos García Hoyuelos, Enrique Villagrasa e Antonio Colinas. É Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra. Possui poemas publicados em várias revistas e antologias em Portugal, Brasil, Moçambique, Itália, Espanha, Finlândia, República Checa, Colômbia, México e Chile e vários poemas traduzidos para o Inglês, Francês, Espanhol, Italiano, Catalão, Checo e Japonês.  Em 2012 participou na exposição “Surrealism in 2012” do Goggleworks Center for the Arts, Reading, EUA, com trabalhos individuais e colectivos, executados com os membros do “Cabo Mondego Section of Portuguese Surrealism, que integra desde a sua fundação em 2008
JOÃO RASTEIRO
Três poemas inéditos
 

 “Eu sou deus”

                       a Aylan Kurdi

 Eu sou um deus nesta ampulheta,

    mais espesso que a clepsidra,

e escoo nela como um deus escoa.

*

 Deus, um deus na perfídia do poema,

 impreciso verso primordial,

 e como um deus escoando nele.

*

 Náufrago, o não deus de um oceano,

 depois de a garganta se encetar,

 e esmagando a oira que julgo minha.

*

  Um corpo como um esbulho

  incalculável, as impurezas da simonia:

  a fingida percepção do pranto.

*

 Um tigre de baldios, aquela insurgente

 cria, o centro de mim mesmo:

um céu que nos envaza a fiúza.


lafaek diak


a D. Ximenes Belo

Crocodilo, desabrocha

agora as tuas filiais crias

da ilha da gente em teu próprio ímpeto,

cerceia as tuas glândulas lacrimais

e desobriga de degraus

a insubmissa boca do extenso sol.

 

Vem fixar o claro clamor do mundo,

o teu desgastado corpo

ao queixume de um poema aceso pelo sangue

deste intenso sândalo: o que alvora

o vento sobre as águas claras

como fronte de razão errante.

 

Que os que te comem sejam o audível fruto.

 

Um primordial disco de ouro

que tremula nas ondas perto do sol,

a pura nascente da muntingia em intacta ferida.

 

Disseste ilha outrora como se dissesses a Ilha.

 

O coração tem mais uma artéria

onde se recolhe aquiescido em seu eco,

o sonho como um infrene dínamo.

 

Alvoreceu Timor o tempo sob a goiva!

 

Crocodilo, o corpo genuíno do amor

em teu substantivo que morreste,

em mim perplexo rapaz que me fiz verbo.

 

Crocodilo és agora por dentro do dorso, o Dorso!

 

IX – Lugar de desaguação

O mundo murmurou: Vede, o bardo desaguou, atulhou seu sangue e desaguou. Algumas lágrimas vermelhas tombaram sobre a anfitrite do fogo; as áspides surgiram e mataram a sede. Outras tombaram sobre o linho e não lograram entranhar-se no poema do mundo, e não desabrocharam a escama da ilusão. E outras tombaram em visões férteis (o horror da impiedade, isso, o horror da impiedade que sustém o verbo em sílabas-lágrimas); e desabrocharam sem compaixão e sem pudor; floresceram na multíplice divícia do vidro; no cereal leito que se exalta em sua opulenta ambiguidade: “Secos, negros, por fim, o sol nos criou, / A chuva nos desgastou. Foram cavados / Os olhos pelos corvos, com voracidade.”

 

[In, “Uma lágrima no limiar dos tempos (o evangelho do poeta”)]

 
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Maria Estela Guedes
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