REVISTA TRIPLOV
de Artes, Religiões e Ciências


nova série | número 51 | abril-maio | 2015

 
 

 

MARIA ESTELA GUEDES

 Sarmento Pimentel:

 propaganda, censura e palavra na

clandestinidade

 

Foto: Ed. Guimarães    

Maria Estela Guedes. Poeta, dramaturga, historiadora da História Natural e da Maçonaria Florestal Carbonária. Tem umas dezenas de títulos publicados.            

 

PROJETO SARMENTO PIMENTEL

Iniciámos um estudo do "Capitão" Sarmento Pimentel, líder de várias revoluções da Primeira República, participante em golpes contra o Estado Novo, fundador de vários jornais, revistas e "casas de Portugal".
É um dos fundadores do Partido Socialista. Bem conhecido no Brasil, onde foi Presidente do Centro Republicano Português. O seu nome ficou ligado a várias instituições, em Portugal e no Brasil, e sobretudo à sua tão conhecida obra biográfica, as Memórias do Capitão.
Se tem testemunho sobre ele, pode colaborar.
No TriploV:
http://www.triplov.com/hist_fil_ciencia/sarmento_pimentel/index.htm 
 
 

EDITOR | TRIPLOV

 
ISSN 2182-147X  
Contacto: revista@triplov.com  
Dir. Maria Estela Guedes  
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  PS a texto anterior: o assalto à capoeira do professor de Química foi obra de conspiração carbonária
   
  «E tambem os terriveis carbonarios
Que se entretinham bombas fabricando
Para na hora final dos sustos varios
As irem pelas ruas atirando;
E os caudilhos audazes, temerarios,
Que trataram de se ir mas foi raspando,
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar pachôrra e arte.»

Marco António, Republicaniadas (1913)
   
 
  Retrato de Sarmento Pimentel. Espólio de Armando Pinto.
In: http://arepublicano.blogspot.pt/2010/09/felgueiras-proposito-do-centenario-da.html
   
  Em artigo recente sobre o "Capitão" Sarmento Pimentel, duvidei que estivessem armados ele e os outros cadetes da Escola do Exército, durante as confrontações do 5 de Outubro de 1910, dia da implantação da República Portuguesa (1). Grato me é escrever-lhes os nomes agora: além de João Sarmento Pimentel, apresentaram-se a Machado Santos, líder da revolução, na Rotunda, os seguintes colegas: João Pinheiro Gomes, Humberto de Ataíde e Oliveira, João de Meneses Ferreira, Manuel Fernandes Beirão, Abel Sanz Zuniga, Viriato Correia de Lacerda, Ernesto Cabral de Quadros, António Furtado Montanha, Inácio Monteiro de Azevedo, António Pereira Saldanha, António Soares Durão, Romualdo Esteves Tavares, Filipe de Sousa Tribolet, António de Sousa Coelho e Francisco Xavier da Cunha Aragão.

Dezasseis jovens armados de patriotismo, com tão fácil assento nas páginas da História de Portugal, que se diria terem sido convidados (2). Assim sendo, pergunto a mim mesma se o assalto à capoeira do professor de Química não teria em vista a Rotunda, tal como pergunto a mim mesma se a dureza do castigo - reprovação e consequente proibição de férias - não teria também em vista o apoio a prestar à implantação da República, o que nos coloca no seio de uma conspiração académica, bem própria da época, com as suas barracas, choças e Venda Jovem Portugal, tudo assembleias carbonárias. Não esqueçamos que a Carbonária Portuguesa (deste período) nasce com um punhado de estudantes, a Maçonaria Académica, pela mão do bibliotecário Luz de Almeida. Aliás, muito depois de oficialmente extinta a Carbonária, já bem perto do Estado Novo, ainda há quem chame ao grupo seareiro, a cujo corpo diretivo pertenceu Sarmento Pimentel, "a barraca da Seara Nova" (3).

No 5 de Outubro, a maior quantidade de armas de que dispunham os carbonários, em especial civis, eram bombas, e vários se orgulharam de invenções e melhoramentos neste artesanado bélico. Caso de Felgueiras, vila onde Sarmento Pimentel fez a sua aprendizagem republicana e porventura carbonária. Ele no-lo confessara, nos Diálogos com Norberto Lopes: os republicanos de Felgueiras tinham-lhe entregado bombas para a revolução (4). Armando Pinto, um felgueirense que por sinal é depositário de objetos relativos a Sarmento Pimentel, entre eles um quadro e uma foto autografada,  escreve:

«Felgueiras também teve, enfim, ligação a esse movimento da implantação da República: No terreno, por meio da activa participação de João Sarmento Pimentel [ACIMA NA FOTO], então jovem que apesar de ser transmontano de nascimento era Felgueirense de residência, atendendo à sua estada mais regular em Felgueiras, habitante que foi na casa-mãe da sua família (solar da Torre, em Rande). E através de contribuição logística do Felgueirense Dr. António Pinto de Sampaio e Castro, político local de ideias republicanas».

«Nesses tempos, durante a última fase da Monarquia, o chefe político da região era o Conselheiro Dr. António Mendonça, respeitado Conselheiro de Estado, deputado nacional, antigo Presidente da Câmara de Felgueiras e líder do Partido Regenerador em Felgueiras, que era também proprietário e redactor do jornal Semana de Felgueiras, admirado entre a classe dos proprietários e homens cultos. Continuando depois sempre a ter o respeito das populações, após a mudança de política social. Já a juventude, entre a classe dos estudantes e fidalgos, tinha ideias republicanas avançadas, salientando-se o grupo liderado pelo Dr. João Brandão e, entre os quais, conforme relato no livro Memórias do Capitão (de João Sarmento Pimentel), se destacavam o Dr. Eduardo Freitas, da Lixa, José Xavier, do Outeiro de Rande, entre outros (...)».


«Com efeito, João Sarmento Pimentel, como Cadete da Escola do Exército, tomou parte activa incorporando-se com armas na decisiva batalha da Rotunda, em Lisboa, dando o corpo ao manifesto da revolta do 5 de Outubro que implantou a República em Portugal. O Dr. António Sampaio Castro, personagem muito respeitado, contribuiu no movimento a modos que anonimamente, actuando na clandestinidade durante o último período da Monarquia. Sendo assim o Dr. António Castro grande activista político e amigo de João Sarmento Pimentel, ficou no conhecimento popular que o Cadete Militar, João da Torre, levara para Lisboa artesanais bombas feitas na Longra, na Casa do Dr. Castro, na Leira, de Rande (onde residia, embora oriundo de família da Casa de Moinhos, do Unhão), pelo que se tornou lendário que algumas das primitivas cargas usadas na implantação da República foram originárias de Longra-Felgueiras..."» (5;6).

Como é que Sarmento Pimentel transportou as bombas para as confrontações? Temos uma hipótese para pôr na mesa, mas, antes, também temos mais uma prova de que a passagem da monarquia à república se fez mais com palavras do que com armas de fogo: o opúsculo de um contemporâneo, Celestino Stefanina, em que fala das "bombitas da Acácia" (ternurenta forma de referir a maçonaria) da inovação e melhoramentos no seu fabrico doméstico, bem como de outros assuntos, mas cujo maior peso reside no capítulo "Relação dos mortos e feridos durante a Revolução, segundo as notas fornecidas pelas administrações dos hospitais militares e civis, Misericórdia, Morgue e Cemitérios" (7). Os mortos e feridos estão devidamente identificados, tal como vem identificado o local do acidente (um pouco por toda a Lisboa) e o modo do ferimento. No total, houve 76 mortos, ou seja, quase nada, atendendo a que se tratou de uma revolução, com a "batalha da Rotunda", como acabámos de ler em Armando Pinto. Ora na Rotunda, em apenas doze baixas, só uma foi mortal. Vale a pena repetir: no coração das operações militares, sob o comando de Machado Santos, só morreu uma pessoa!

Segundo o "Resumo dos mortos", ainda no opúsculo de Stefanina, dessas 76 mortes, 4 deveram-se a assassínio; 9 mulheres morreram devido granada e arma de fogo, só uma delas em resultado de bomba; uma outra pessoa morreu de desastre; 47 civis morreram, na maior parte por acção de granada e arma de fogo, apenas um tendo sido mortalmente ferido por rebentamento de bomba; e finalmente morreram 15 militares com arma de fogo e granadas, nenhum deles por efeito das "bombitas da Acácia", ou "bombas de pataco", como se lê nas Memórias de Aquilino.

As bombas felgueirenses detonadas pelo jovem Sarmento Pimentel, na mais dramática das hipóteses, só podem ter causado dois mortos, visto que só uma mulher morreu dessa maneira, na rua Maria Pia, e um homem, em Alcântara. Mas como, na melhor das situações, a ação das bombas felgueirenses se limitou ao teatro principal das operações, a Rotunda e a Avenida, percorrida por Sarmento Pimentel a colher informações para Machado Santos, então dessas bombas não resultou a morte de ninguém. O que do caso das bombas pode ter resultado, e agora voltamos ao princípio da história, anterior mesmo à batalha da Rotunda, foi a prisão com incomunicabilidade para o jovem cadete João da Torre, como a Sarmento Pimentel chamavam os bons primos de Felgueiras.

Vejamos a sua Tábua biográfica
, no TriploV (8): nas circunvizinhanças do 5 de Outubro, Sarmento Pimentel é alvo de um auto disciplinar por suspeita de furto de duas garupas de bolsas de napa, daí resultando prisão com incomunicabilidade, o que nos parece absurdo de tão exagerado, a menos que seja teatro. Garupas são as mochilas que pendem de um lado e do outro dos cavalos. Ora bem: tais objetos não se perdem, podem é roubar-se para vender na Feira da Ladra; e mesmo assim, para passarem o portão da Escola, é preciso que a guarda feche os olhos. Acontece porém que a prisão com incomunicabilidade se verifica a
14 de junho de 1910 e os objetos suspeitos de furto são devolvidos por Sarmento Pimentel treze meses depois, em julho de 1911 (9). Que mistério rodeia o desaparecimento destas garupas durante quatro meses mais do que os devidos às esperanças? É lícito pensar que serviram ao transporte das bombas felgueirenses para a Revolução. E, sendo assim, se Sarmento Pimentel já viera com essa missão encomendada pelo dr. António Castro, de Felgueiras, tinha de assegurar a sua presença em Lisboa na data da Revolução, ocorrida em período de férias escolares. Nas férias, só ficavam na Escola do Exército os alunos que estavam de castigo. Então Sarmento Pimentel precisava de estar de castigo ou não participaria em nada, ausente da Escola. O que fez ele, com a boa cooperação de colegas republicanos e monárquicos, parece que já o sabemos: os meninos assaltaram a capoeira do professor de Química, banquetearam-se com coelho, frango e peru, o professor reprovou-os, de conluio ou não, sendo certo que chumbo é motivo para não sair da escola nas férias, ainda hoje! Daí que só os cadetes da Escola do Exército reprovados a Química tivessem participado nas confrontações da Rotunda, como ele mesmo insiste em declarar, nas suas Memórias (10) e nos Diálogos com Norberto Lopes.
   
 

Carta aberta ao Povo Português, a recusar a ditadura imposta pelo 28 de maio de 1926 e a incitar o povo a restaurar a pureza da República. Assinada pelos oficiais: General Gastão de Sousa Dias; Jaime de Morais, Chefe do Comité Militar Central; Jaime Cortesão, Capitão médico miliciano e delegado do C.M.C. no Norte; Capitão João Sarmento Pimentel, delegado do Comité Militar do Norte; e João Pereira de Carvalho. do Comité Militar do Norte. Arquivo Nacional da Torre do Tombo
   
 
  Carta aberta ao Exército Português, por João Sarmento Pimentel, a manifestar a sua oposição ao salazarismo e a sugerir a nomeação de um governo militar que marcasse eleições "livres e honestas". Arquivo Mário Soares.
   
  Cenas de Coliseu: lá vai o cadete com a cantora espanhola...
 
É da mudança de mentalidade pela palavra que trata o nosso projeto sobre Sarmento Pimentel, por isso há que prestar atenção ao seu mais forte veículo - a propaganda. A propaganda republicana vem já desde o liberalismo do século XIX, com revistas como a Propaganda Democrática, dirigida por Consiglieri Pedroso. O volume II, de 1886, por exemplo, tem por tema "O que é a República".  Ela fez-se e faz-se com os mais vários suportes, porém, dado o anticlericalismo republicano e a escassez ou total falta das atuais tecnologias da informação, temos de excluir ou considerar irrisória a propaganda republicana feita pela oratória sacra (o púlpito servia para propaganda monárquica) e pelas nascentes telegrafia e rádio. Sobra uma massa deveras impressionante de jornais, revistas, panfletos, cartas, livros de poemas e opúsculos, alguns clandestinos, num país de população quase toda analfabeta, a que necessário se torna acrescentar a oratória profana, levada aos quatro cantos do país por pessoas a quem Magalhães Lima não sente qualquer embaraço em chamar "apóstolos".

Também ele, bem como o seu correligionário Luz de Almeida, ambos grão-mestres maçons e carbonários, foram propagandistas incansáveis, falando da questão republicana em tertúlias, salas de associações, clubes, praças, etc., muitas vezes com risco de vida, pois momentos houve no esclarecimento do povo em que ser republicano era perigoso. Uma das mais acesas manobras de propaganda foi liderada por Magalhães Lima ao cemitério dos Prazeres, em homenagem a Manuel Fernandes Tomás, fundador do Sinédrio na revolução liberal do Porto de 1820. Muitos republicanos da Primeira República consideravam-se herdeiros diretos do vintismo. Esta deslocação em massa pelas ruas de Lisboa, até um local tão simbólico como o cemitério dos Prazeres (ali se fizeram iniciações carbonárias, de um lado; de outro, o Sinédrio é considerado uma pequena carbonária), despertou receio ao poder público, que mandou para a rua a polícia. Por ironia da História, em especial da de Sarmento Pimentel, o militar indigitado para conter a manifestação, arredar dela estandartes, etc., foi o tio, o general Morais Sarmento, na altura chefe da Polícia.

Magalhães Lima parece ter conhecido também o jovem Sarmento Pimentel. Refere-o algumas vezes nos Episódios da minha vida, de uma delas para em aparência o considerar responsável único pela restauração da República, no Porto, na sequência da Monarquia do Norte, golpe que em 1919 reinstalou por momentos a monarquia. Sarmento Pimentel era então comandante da Guarda Nacional Republicana naquela cidade. Uma citação longa, em que vemos Magalhães Lima usar um elemento de escrita maçónica, a abreviatura seguida de tripontuação, no caso para referir os carbonários, recorda-nos esse episódio também conhecido por Traulitânia (11):

«Quando foi do movimento de Monsanto, Luz Almeida foi dos primeiros que acorreram ao apelo feito aos cidadãos para se reunirem no Campo Pequeno e pegarem em armas para defender a República em perigo.»

«Rende-se Monsanto. No Porto tremulava ainda a bandeira monárquica. Luz Almeida, para dar o exemplo aos antigos car.'., alistou-se como soldado no batalhão de voluntários, organizado pela Inspecção de Infantaria, não chegando o batalhão a seguir para o Norte - apesar de devidamente adestrado e completo de instrução - porque, na véspera da partida, foi a República restaurada no Porto pelo capitão Sarmento da G. Real, e o batalhão dissolvido por já não ser necessário.»

A GNR foi criada em 1901 como Guarda Real da Polícia. Talvez por inércia linguística, Magalhães Lima ainda lhe atribui o antigo nome.

Voltemos à propaganda que, ontem como hoje, se fazia não só com livros de memórias como os Episódios da minha vida de Magalhães Lima e as Memórias do Capitão de Sarmento Pimentel, mas também através da caricatura em jornais e no teatro, especialmente teatro de revista. Um existia até chamado Teatro da República, e a dado passo Bernardino Machado, Presidente da República, homenageou esta arte considerando o teatro um dos mais fortes pilares do regime. Nesta senda, é interessante verificar que a obra de Pedro Caldeira Rodrigues, O teatro de revista e a I República - Ernesto Rodrigues e A Parceria, teve como um dos editores uma instituição fortemente republicana, amiga de Sarmento Pimentel, o Dr. Mário Soares, na figura da Fundação com o seu nome (12).

Em Lisboa, na Primeira República, havia mais de uma dezena de salas de teatro, entre elas a do Coliseu. Além da propaganda veiculável pelos espetáculos, no gabinete do diretor, Ricardo Covões, já nos anos 30 e 40, funcionou uma tertúlia (13). As tertúlias eram locais onde se exercia magistério e aprendizado. Por exemplo, em casa da mãe, no solar da Torre, em Rande, faziam-se tertúlias, nas quais João Sarmento Pimentel se familiarizou com a poesia. Já as tertúlias em Felgueiras deviam ser diferentes, e talvez se tratasse mais de sessão em barraca. Em todo o caso, os republicanos da primeira fase eram de facto apóstolos, de uma pureza exemplar, que levavam a sério o magistério a exercer junto de um povo analfabeto, por isso escravo que, sem saber ler nem escrever estava impedido de votar e, se emigrasse nessas condições, ficava sujeito à miséria. Este problema vai ocupar Sarmento Pimentel até ao exílio, no Brasil.

Tertúlias na Casa da Torre em que João Sarmento Pimentel declamava desde o cancioneiro medieval até Eugénio de Castro e António Nobre, se bem que a modernidade esteja paradoxalmente distante de um revolucionário e espírito subversivo como Sarmento Pimentel. Creio que havia um muro entre eles, politicamente intransponível, chamado António Ferro. António Ferro, editor da revista Orpheu, protetor das vanguardas do seu tempo, ele mesmo um criador modernista, era um suporte do regime. Sarmento Pimentel por diversas vezes se refere a ele com antipatia como sendo o homem do SNI - Secretariado da Propaganda Nacional. A propaganda em que se envolveu o "Capitão" situava-se no extremo oposto.

A récita, como o ritual e o teatro, ensina, transmite um magistério. Sarmento Pimentel frequentava, com os colegas da Escola do Exército, o Coliseu, onde decerto aprendeu muita coisa, não direi que relativa a revoluções políticas, mas talvez relativa ao sistema hormonal de um homem que, até ao fim da vida, se revela sensível aos encantos femininos. As brasileiras, como é manifesto em artigos da Seara Nova ou na segunda parte das Memórias do Capitão, estavam longe de o deixar indiferente. Aconteceu assim que uma temporada do Coliseu contou com a participação de uma cantora espanhola, rapidamente famosa entre os cadetes com o designativo de tonadillera. Deviam ir vê-la, mais do que ouvi-la, várias noites por semana, imagina-se. De tal forma que, acabada a tournée, a tonadillera toma o Sud Express para Paris e quem leva na bagagem? - Pois é, leva o jovem e galhardo cadete, o destemido herói da Rotunda e futuro militar aventurando-se sozinho na selva, na sequência do desastre de Naulila, na bacia do Cunene. Deve ter sido uma exploração mais amena que a da floresta angolana, aquela a que procedeu João da Torre na carruagem do Sud Express com a bela espanhola. Chegando a Vilar Formoso - nessa época não se usavam passaportes, mas outras barragens se levantavam à iminência de deserção - uma autoridade em sua imponente farda abriu a porta da carruagem e declarou: «- O senhor está preso!».

Seria gravíssima a situação, mas é para problemas assim que se tem um tio que é o comandante da Escola do Exército. Com efeito, o general Morais Sarmento, que já vimos há pouco a minorar os estragos da manifestação até ao cemitério dos Prazeres, em homenagem aos carbonários de 1820, abafou o caso.

Esplêndido caso o da espanhola contra o general Morais Sarmento, ou vice versa, pois dá imensa força a esta nossa caminhada pela História por estradas de papel: Morais Sarmento foi o fundador do Diário Popular, jornal em que durante anos colaborei, quando foi diretor Jacinto Baptista, um homem da escola da Seara Nova. Logo a seguir ao 25 de Abril, quando a censura foi abolida e por isso se publicaram as Memórias do Capitão em versão completa (o primeiro volume saiu no Brasil mas as autoridades não permitiram que entrasse em Portugal), logo nesses anos Jacinto Baptista publica, às quintas-feiras, dia do suplemento literário, documentação vária sobre Sarmento Pimentel, incluídas cartas de António Sérgio e de Bernardino Machado. Sarmento Pimentel viverá entre jornais, livros e cartas, jornais e revistas por ele fundados, no Brasil, toda a sua vida, muito mais do que entre bombitas da Acácia...

Propaganda, sim, muita, mas sobretudo na vertente pedagógica, com manuais para o povo, revistas, e a publicação talvez mais curiosa da época, a Cartilha do Cidadão (14), obra de Luz de Almeida, o líder carbonário, mas saída anonimamente. Essa cartilha, para militares e paisanos, como reza a capa, e cujos interlocutores são um magala e o médico militar, hoje uma raridade, que nem nas bibliotecas existe, e quando existe está nos reservados, foi largamente distribuída em centros operários e quartéis. Sarmento Pimentel, em Felgueiras, teve acesso de certeza ao conteúdo republicano, antimonárquico e anticlerical desse manual, em casa do Dr. Castro.

A propaganda tem inimigos. Uma vez Salazar sentado na cadeira ministerial, o pior deles surgiu-lhe pela frente sob a forma de censura. A censura prévia obrigava todo o papel escrito em Portugal e Ultramar a ser visado antes de impresso. Por vezes ficavam espaços vazios nos jornais, ou havia revistas com múltiplas fotos de flamingos, sem legendas e totalmente a despropósito, ou não sobrava mesmo nada para publicar, depois de ter passado a tesoura inquisitorial. João Sarmento Pimentel foi proibido de publicar em todo o território nacional. Uma carta de 1959 enviada pelo diretor do Jornal de Felgueiras põe-no ao corrente dos motivos pelos quais não é possível publicar-lhe os artigos (15). Escrevendo ao então embaixador Mário Neves, seu amigo, a agradecer o encaminhamento do seu espólio para Mirandela, Sarmento Pimentel conta esta história a incluir na da Imprensa clandestina:

«Os tempos mudam e as coisas da inteligência vão evoluindo. Em junho já terei tudo catalogado. Será boa altura para esta centena de pastas tomarem destino certo. O Estado Novo tinha medo à minha prosa. Aí vai uma amostra. Eu falava das nascentes do Rio Sousa, terra da minha Mulher. O tropa, façanhudo censor, obedecendo às ordens do fradalhão de Stª Comba, foi terminante. Passei-lhe a mão pelo pêlo, passando a assinar João Silva. Foi uma beleza!» (16).

E assina João Silva e por baixo João Sarmento Pimentel.

Pseudónimos, discurso cifrado e publicações clandestinas são o reverso da censura. Entre outros atentados contra a Nação, pois não há como considerar a proibição de ler e escrever, ou de falar e ouvir, de outra maneira, a censura acaba por atirar para o entulho do desconhecido um número incontável de obras que hoje não conseguimos decifrar, ou cujo autor tem de se esconder debaixo de máscaras como essa do João Silva, obras que nos podiam muito bem esclarecer e enriquecer o nosso património cultural. A repressão não é inteligente. No outro lado, esbarra em modos perversos de a contornar e destruir. Assim é que Sarmento Pimentel, após a visita feita a Portugal, durante uma amnistia, escreve a «Carta aberta ao Exército Português» (17), a manifestar o seu anti-salazarismo e a sugerir ao Exército a nomeação de um governo militar que marcasse eleições "livres e honestas". Carta importante, pertencendo evidentemente à Imprensa clandestina e à luta em prol da democracia, ela não é uma novidade na carreira propagandística de Sarmento Pimentel. Ùm documento idêntico precedeu-a quase trinta anos. A anunciar a revolta de 1927, ele subscreve a carta aberta «Ao Povo Português», a recusar a ditadura, a censura, a acusar de fraude o regime e a reclamar pelo regresso à pureza da República. "Chegamos pois  a esta situação paradoxal, de vivermos numa República quase exclusivamente apoiada pelos monárquicos, que nos seus jornais fazem a defesa sistemática da Ditadura, como se de facto no 28 de Maio  eles houvessem sido os triunfadores.". Assinada pelos oficiais do Exército e da Armada: General Gastão de Sousa Dias; Jaime de Morais, Chefe do Comité Militar Central; Jaime Cortesão, Capitão médico miliciano e delegado do C.M.C. no Norte; Capitão João Sarmento Pimentel, delegado do Comité do Norte; e João Pereira de Carvalho, do Comité Militar do Norte (18).

O 25 de Abril recebeu largo e longo magistério desde a implantação da República. Muita coisa lhe serviu de modelo: capitães, apelos a reuniões no Campo Pequeno, e às vezes, olhamos para as páginas de jornais da época e sentimos um sobressalto, porque até os cravos são iguais. Precisamos de retomar a tradição de luta ou ainda acabamos por subscrever com o silêncio uma caminhada da democracia até ao cemitério dos Prazeres.


Maria Estela Guedes . Odivelas . 22 de março de 2015
   
   
 
  Propaganda à edição portuguesa das Memórias do Capitão, com um fragmento do prefácio Jorge de Sena à edição brasileira. Diário de Lisboa, 28 de abril de 1974
Arquivo da Fundação Mário Soares . http://www.fmsoares.pt/
   
 
  O Século Cómico de 8 de Julho de 1918
   
  (1) Maria Estela Guedes, A República fez-se com raposa e morse. No TriploV, diretório do "Projeto Sarmento Pimentel", em:
http://www.triplov.com/hist_fil_ciencia/sarmento_pimentel/telegrafo/index.htm

(2) Joaquim Veríssimo Serrão (1989) - História de Portugal. Vol. XI - A Primeira República (1910-1926). História Política, Religiosa, Militar e Ultramarina. Lisboa, Editorial Verbo.

(3) João Medina (1978) - O Pelicano e a Seara - A revista Homens Livres. Lisboa, Edições António Ramos. Texto integral dos dois nºs da revista publicada em 1923.

(4) Norberto Lopes (1976) - Sarmento Pimentel ou uma geração traída. Diálogos com o autor das “Memórias do Capitão”. Lisboa, Editora Aster.

(5)
Armando Pinto (consultado em 2015) - "Felgueiras - A propósito do centenário da República". In:
http://arepublicano.blogspot.pt/2010/09/felgueiras-proposito-do-centenario-da.html


(6) Armando Pinto (2008) - A propósito do 25 de Abril... Longra e Felgueiras  em momentos históricos nacionais. Consultado em março de 2015. In:
http://viladalongra.blogspot.pt/2008/04/propsito-do-25-de-abril-longra-e.html

(7) Celestino Stefanina (1913) - Subsídios para a história da Revolução de 5 de Outubro de 1910. Lisboa, edição do Autor.

(8) Tábua biográfica de João Sarmento Pimentel. Triplov:
http://www.triplov.com/hist_fil_ciencia/sarmento_pimentel/tabua-biografica.htm

(9) O aluno 77, João Maria Ferreira Sarmento Pimentel, entrega os artigos de equipamento desaparecidos, duas garupas de bolsos de napa. Processo individual, Arquivo Geral do Exército, doc. 203 A-4. In:
http://www.triplov.com/hist_fil_ciencia/sarmento_pimentel/tabua-biografica.htm

(10) Sarmento Pimentel (1974) -Memórias do Capitão. Porto.

(11) Magalhães Lima [1928] - Episódios da minha vida.
Lisboa, Perspectivas & Realidades. Volume I. De acordo com a 1ª ed. de 1928 da Livraria Universal

(12) Pedro Caldeira Rodrigues (2011) - O teatro de revista e a I República - Ernesto Rodrigues e A Parceria (1912-1926). Lisboa, Fundação Mário Soares, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.

(13) Norberto Lopes (1975) – Visado pela Censura. A Imprensa . Figuras . Evocações . Da ditadura à democracia. Lisboa, Editorial Aster. 

(14) [Luz de Almeida] (1909) - Cartilha do Cidadão. Diálogos entre o Doutor Ribeiro (médico militar) e João Magala. Para Paisanos e Militares. Anónimo.

(15) Carta para Sarmento Pimentel, em papel do Jornal de Felgueiras, a dar conhecimento de que o "capitão" está proibido pela Censura de publicar em Portugal. Arquivo Mário Soares. 1959.


(16) J
o Sarmento  Pimentel (1980, São Paulo, 20 de dezembro) - Carta a Mário Neves  a agradecer diligências para que o seu espólio (100 pastas com documentos) fosse entregue à Biblioteca de Mirandela. Arquivo Mário Soares. http://www.fmsoares.pt/

(17) João Sarmento  Pimentel (1958, São Paulo, 20 de dezembro) - «Carta aberta ao Exército Português», manifestando a sua oposição ao salazarismo e sugerindo a nomeação de um governo militar que marque eleições "livres e honestas". Arquivo Mário Soares.

(18) [1927] «Ao Povo Português». Carta assinada pelos oficiais do Exército e da Armada: General Gastão de Sousa Dias, Jaime de Morais, Chefe do Comité Militar Central, Jaime Cortesão, Capitão médico miliciano e delegado do C.M.C. no Norte, Capitão João Sarmento Pimentel, delegado co Comité do Norte, João Pereira de Carvalho, do Comité Militar do Norte. Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
 

 

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