AFONSO RIBEIRO

Três histórias de moleques

Cozinheiro José teme branco. Branco é o senhor, o dono das espingardas dos militares e dos cassetetes dos cipaios; branco é o administrador que cobra imposto, obriga preto a fazer machamba de algodão, dá palmatoadas; branco é o dono de tudo: do dinheiro e das terras boas; da vontade do régulo, dos panos que as mulheres gostam de enrolar à cinta, do vinho que sobe na cabeça e lá deixa alegria; dos automóveis que roncam pelas estradas, dos comboios, das cantinas, das missões ... de tudo!

— Branco é como Deus, pode o que quer ... — confessa, numa incontida admiração; e, às vezes, diz:

— Branco é como leão no mato, ele é que manda.

Prudente, ensina Relógio, seu filho que tanto ama, a respeitar, temer mulungo:

— Se você não anda direitinho mesmo, branco atira com tu na cadeia, percebe? Se branco dá porrada, tu cala mesmo, senão branco dá mais em você. E se tu caminha por rua adiante e vem branco, tu dá lugar pra ele passar, que rua é de branco. Negro faz rua, negro faz casa, mas casa é de branco, rua é de branco, tudo é de branco, percebe?

Uma vez que outra cozinheiro José traz seu filho Relógio de visita aos senhores. E cozinheiro José (foi militar, aprendeu continência) manda que seu filho Relógio (tem uns doces olhos ingénuos) se ponha em sentido e assim cumprimente os patrões. Depois, vaidoso, obriga o filho a mostrar os seus progressos escolares e molequinho Relógio, rígido como soldado em parada, conta de 1 até 40, sem um erro.

Patroa velha acaba sempre por oferecer uma peça de roupa já fora de uso para que a mulher de cozinheiro José a adapte ao corpo do menino. Então cozinheiro José ensina ao seu filho Relógio as palavras de agradecimento que a altura requer, o negrinho repete tudo sem um engano; é quando Bibi, a patroinha, estende uma tablete de chocolate às mãos que se não recusam de molequinho Relógio, filho do já meio cocuana cozinheiro José. Com autorização do pai, que por sua vez a pediu à patroa velha, negrinho Relógio corre para o quintal e lambuza-se todo.

Cozinheiro José tem uma casa de pau-a-pique lá para as bandas do Bairro Indígena, que é onde moram os africanos da cidade. Sucede, porém, que o patrão lhe não dá licença de ir dormir com a mulher na esteira da sua palhota, porque, se fosse, regressaria tarde, pela manhã. Só dá licença ao sábado, que, nos domingos, os patrões ficam na cama até mais tarde e há tempo de sobra para que cozinheiro José prepare o mata-bicho. Quando, todavia, as saudades do corpo cálido que nem sol de Dezembro da mulher apertam muito com cozinheiro José, ele vai pela calada da noite bater à porta da sua palhota. Vai feliz e receoso. Feliz, porque em breve terá nos braços o corpo quente de Rosalina; receoso, porque o patrão pode descobrir a sua escapadela, receoso ainda, e sobretudo, porque a polícia o pode apanhar de noite, sem passe, na rua. Mas desafiando todos os riscos ele vai, corre para os braços carinhosos de sua negra Rosalina, mãe do seu filho Relógio.

Extracto de «Três histórias de moleques com algumas notas de abertura à laia de prólogo». In: Afonso Ribeiro, África colonial.

AFONSO RIBEIRO
África colonial

 

Lisboa, Livros Horizonte1983, 2ª ed.

 

Afonso Adelino R. de Ribeiro, 1911, Moimenta da Beira-1993, Cascais.

Autor pioneiro do movimento neo-realista, Afonso Ribeiro colaborou com publicações onde este movimento estético se gerou como Altitude e Sol Nascente. Este papel de precursor desenvolveu-se tanto na polémica contra presencistas, nas páginas de publicações como Sol Nascente, quer na recensão a romancistas brasileiros cujo modelo narrativo influenciaria a emergência da prosa neo-realista, quer ainda no domínio da ficção, sendo os dois últimos contos incluídos em Ilusão da Morte (1938) considerados por Alexandre Pinheiro Torres (O Movimento Neo-Realista em Portugal na sua Primeira Fase, Lisboa, 1977, p. 72) como uma das primeiras realizações da nova corrente. Professor primário em zonas rurais, o contacto com as desigualdades sociais e com as carências das classes desfavorecidas inspira uma prosa atenta à verosimilhança da fala das personagens, aos seus problemas e escravidões. Reclamando desde os seus primeiros escritos a falsidade de qualquer visão idílica sobre o homem do campo, denuncia a miséria moral de proprietários e trabalhadores, proclamando a necessidade de olhar para o mundo rural com olhos diferentes dos que tinham habituado o leitor a ver na ficção campestre o casticismo, a vida sadia ou a sobrevivência de valores decaídos: "Falar do homem do campo, do trabalhador da terra e esquecer as suas angústias inconfessadas, seus músculos doridos, seu olhar triste - da tristeza horrível que nada aguarda, nada! - parece-me feio embuste" (Ribeiro, Afonso cit. in TORRES, Alexandre Pinheiro - O Movimento Neo-Realista em Portugal na sua Primeira Fase, Lisboa, 1977, p. 73).

Bibliografia: Ilusão da Morte (contos), Lisboa, 1938; Plano Inclinado, s/l, 1941; Aldeia, Porto, 1943; Trampolim (romance), Porto, 1944; Escada de Serviço (romance, primeiro volume da trilogia Maria), Porto, 1946; Povo (romance), Porto, 1947; O Pão da Vida (romance) (segundo volume da trilogia Maria), Lourenço Marques, 1956; O Caminho da Agonia (terceiro volume da trilogia Maria), Lourenço Marques, 1959; Da Vida dos Homens, Beira, 1963; A Árvore e os Frutos, Lisboa, 1986; Três Setas Apontadas ao Futuro, Lourenço Marques, 1959.

In: http://www.infopedia.pt/$afonso-ribeiro

 

 

 

 




 



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