MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS
Mário Cesariny de Vasconcelos desapareceu hoje
Por Aurelino Costa

Um homem pega no seu corpo e mete-o na cabeça como se fosse um crânio

(...)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
(...)

Mário Cesariny de Vasconcelos


Os casos de louvor seminativo e sem simplificação despedidos para cesariny muito a modo de hobbytuários, descordam, por cruel pantalhómeno, do arco de ferro que gradeava qualquer corpo visível em 1950: entoam uma brandolência inexistente e apenas vagam sem suor a milhas dos pequenos camões do cesário primeiro.
Ressimular o paradoxímoro: com que pé entrar na apresentação diária de corpo, espírito e alma em esquadras, inspeccionados isqueiros e licenciamentos: como não d’existir no meio de assuadas, alarvidade e mesquinhez – ponderosos imanes do social-português-paroquial-em-ditadura?

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)


Dispara-se, no 2006 adrede é outro calibre outra e-pistola, a bala de urânio é a auto/mática, por exemplo: diz Virgem, só houve duas revoluções no século vinte, a bolcheVia e a incorporação b(r)etoneira, achega-se isso ontem único, e com lisboa, um quadro de domingues, e o’neill se apartando, cidências que deixam incólume a emoção ligativa e os trocaderos nemesianos. Muita pena capital recolhe agora o português poetante já sem astro, afora o leal e raul, o órphico e não o orffico, a poesia é mais fácil que a música turrava o graça, e qualquer pasquinasta dos agoras torna lúd(r)ico – alfarroba neocruzadista vertente sudoku - o que era golpe semântico na aparente verdade, nada estando escrito afinal e talvez assim no começo, de não requentar escritas, não delapidar momentos de Criação, essa Única Vida, Viver é Nada, Criar é o É!

Andava pelo Passeio uma caterva, a catar erva, de livrosdebolso sartre e camus, estava o vasconcelos na titânia, exposto, sem conseguir servir-se da camusflage tão bela e suportadamente clandestina, andava a elegância à procura de um cabide sem cabido, um vinho no inferno, andavam as calças largas a cheirar o Bairro, era impossível resistir ao faduncho dos encontrados e perdidos que os burgueses e não os pequenos, soletram hoje de cor, em noites de navalha ficcionada ao colo de um cliente rasca na que já não existe tasca.

os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada


É inverno e gelo, onde por as mãos e a cabeça senão sobre o real, sobre o real os cimentos impedem o herminius do grupo e não, dissidinova sinagoga em frente à mesma, o pedro igualmente antónio não era o que se definia antes da bbc, abriram o neo-realejo com dois tons apenas, aí se excursionaram apagados transeuntes de comboio nebuloso, o Virgem via-os passar, tocava-lhe a ternura mas não entrava, incluindo nesta história de bilheteiras, as carruagens mais exoftálmicas que, vindo depois, acenavam ao povo lisboeta como príncipes e princesas inaugurais.

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços

O homem pergunta as horas, passar o tempo e outras coisas, ultrapassar, hoje não fiz nada estive o dia inteiro a sentir, vasculha-se mais uma francogénese du siècle, no depois d’al moço, na paris de 1947, imagina-se, a comer papa do andré, outra loiça para quem julga que vai de lisboa, escavando o pão que o futuro há-de comer, fellatio à cidade no olvido do primeiro mário poeta e de estricnina, um certo flou pós-nazi em auto para jerusalém, moer o vidro, moer, em ápis e parelha, desfazê-lo no misto de sangue e esfíncter, na mesinha de cabeceira, para os dias e as noites, sem beber da jarra de jarry, na doação de um rim beau + a música e melopeia versicular de verlaine, um permanente e consultado manual de prestidigitação, iludir o vazio até ao bazar, tourear o animal-medo com o absolutamente vermelho e definido, beber o dia até ao mais fim, aos amanhãs que cantam, mas sobretudo berram, são bebés.

E sou, no sentido mais enérgico da palavra
na carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto


Queimada a cidade, queimada a escrita, praticando-se ainda o jogo de elsinore, mesmo à rasca no pátio das cantigas e do papão, fornos mais maneiros cozinham os intervalos e distracções na combustão da tela, o pipi gosta de mostrar e o papá desapareceu de circulação, é só um fantasma na gaveta das humilhações e das delicodoutas famílias em frente ao ritornello. Será o corpo, o retracto grande, nenhum amor sai do corpo que guarda tudo mesmo quando transforma, será o corpo quem diz sobre o real. Será o corpo a fava como foi o fauve.
Fica o Virgem na praia de caparica, ternulento, nobilíssima visão, mão dada com um tacteador, audiofolheando o sopro na percussão dos ossos, olhando para trás da cabeça que empurra para o mar.

 

 




 



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