ANTÓNIO DE MACEDO
A PALAVRA E A PEDRA
LOGOS E LITHOS:
A PALAVRA CRIADORA E A PEDRA ANGULAR

Outras línguas, como o grego ou o inglês, por exemplo, só apresentam duas formas distanciais: 

Grego
oûtos = este, esse
ekeînos = aquele

Inglês
this = este
that = esse, aquele

Ou seja, epi tautê tê petra pode traduzir-se «sobre essa rocha (pedra)» ou «sobre esta rocha (pedra)». Teremos então duas possíveis interpretações divergentes: 

A) «Tu és um rochedo, e sobre essa rocha[2], ou sobre essa pedra, edificarei a minha comunidade» — que poderá querer dizer, sem grande esforço e «modernizando» um tanto o sentido, algo como: «Tu, Simão, és um penedo, um autêntico calhau, mas como os humanos durante muitas gerações ainda serão tão calhaus como tu, não terei outro remédio senão edificar a minha futura comunidade sobre essa pedra, que Eu sei que me vai negar três vezes (na verdade, ao longo dos séculos, a Igreja de Roma saída de ti negar-Me-á muitas vezes mais do que três, com fausto, sede de poder, um papado e uma corte de cardeais atulhados em insultuosas riquezas, inquisições, intolerância, infraternidade, cupidez, perversão, torturas várias, ódios, guerras, repressões, tiranias, enfim, um autêntico rol de tudo quanto é mais contrário ao que Eu preguei)[3]; mas apesar disso, ainda é essa a maneira menos má e mais segura de transmitir exotericamente a Boa Nova a gerações e gerações de grandes massas ignorantes»[4]. 

B) «Tu és um rochedo, e sobre esta rocha edificarei a minha comunidade» — seguindo o mesmo raciocínio, pode-se interpretar assim: «Tu, Simão, és um penedo, um autêntico calhau, ainda por cima me vais negar três vezes, e como tal não podes servir de alicerce a uma futura comunidade que siga verdadeiramente os Meus ensinamentos mais puros, ou melhor, esotéricos, logo, sobre esta rocha, ou seja, sobre Mim mesmo, a pedra angular que os maus construtores rejeitaram, é que vou edificar a minha futura comunidade, baseada no Amor, na Verdade e na Vida — e quem melhor do que o Meu Discípulo Muito Amado, João, poderá servir de facho e guia, o discípulo capaz de receber e transmitir o Evangelho do Amor, cujos mais finos ensinamentos os empedernidos como tu, Simão, hão-de perseguir e tentar eliminar ao longo dos séculos?» 

Ambas estas alternativas são verdadeiras, exotérica e esotericamente, e correspondem aos factos da História.

A segunda alternativa, por exemplo, é defendida por alguns sérios exegetas que consideram que «esta pedra» sobre a qual Jesus construirá a Sua ekklêsia é o próprio Jesus, segundo Ele mesmo o diz mais adiante: «Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular; isto aconteceu por obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos?» (Mateus 21, 42)[5]. O próprio Simão (Pedro) o confirma, já depois da Ressurreição e Ascensão de Cristo, no discurso que proferiu no Sinédrio: «[Jesus Cristo, o Nazoreu] é a pedra rejeitada por vós outros, construtores, que se tornou pedra angular» (Actos 4, 11), e Paulo enuncia claramente que Cristo é a «pedra espiritual» (1 Coríntios 10, 4). Daí a capital importância, para o aspirante à Senda do Espírito, de «imitar Cristo» para que Cristo nasça e se forme nele: «E vós mesmos, como pedras vivas [gr. lithoi zôntes], entrai na construção dum edifício espiritual, para um sacerdócio santo» (1 Pedro 2, 5).

Mais ainda: em continuação daquela frase dita a Simão Barjona, Jesus acrescenta: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus, e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus» (Mateus 16, 19), o que deu azo à estranha doutrina de que Deus obedece ao papa[6].

Mas a verdade é que Jesus não limita apenas a Simão (Pedro) a faculdade de se lhe repercutir «no céu» o que atar ou desatar «na terra», pois alguns dias mais tarde, falando aos Seus discípulos em Cafarnaúm, repetiu, desta vez para todos: «Em verdade vos digo, o que ligardes na terra será ligado nos céus, e o que desligardes na terra será desligado nos céus» (Mateus 18, 18).

É um ensinamento importante, este de Jesus aos Seus discípulos: tudo quanto se ata ou desata cá em baixo, tudo quanto se tece ou destece — e não só pelas mãos de Pedro, ou do papa! —, projecta-se para o alto e tem um efeito análogo nos reinos supra-sensíveis e por conseguinte no Banco Cósmico, além de que vai construindo — ou desfazendo — a nossa futura morada «nos céus».

O rochedo, ou a pedra, da personalidade material não-redimida é simbolizada pela fase histórica da Lei, que foi dada a Moisés em tábuas de pedra, sendo portanto inferior, em mistério, à «pedra angular» ou «pedra espiritual»: a do segredo crístico. Tal fase — a da personalidade — só terá acesso ao Reino dos Céus a partir da superior individualidade espiritual, ou seja, a partir do «homem interno» de Paulo (2 Coríntios 4, 16), ou do «Cristo em formação» no ser humano (Gálatas 4, 18-19). Mesmo interpretando, como o faz a Igreja, que «sobre essa pedra» se refere a Pedro (símbolo da persona mundana) e não ao próprio Jesus, continua a fazer sentido que Cristo tenha descido até nós porque sabia que é neste mundo onde a pedra da personalidade impera que a Sua comunidade tem de ser erigida, em sofrimento, para o combate evolutivo indispensável até que nos seja possível atingir a «perfeição do Pai». Por isso ao dizer: «sobre essa pedra construirei a minha comunidade» estaria a referir-se, neste caso, à pedra personalística que O «negou três vezes», tal como a mesma Igreja o tem negado tantas através dos séculos, e provavelmente negará, antes que a divina compreensão unifique todos os homens e mulheres em puro Amor universal.

Por seu turno, a redenção que se alcança através da individualidade espiritual é a autêntica chave do Reino dos Céus, que sabemos encontrar-se no nosso ser pela revelação que Jesus nos faz por intermédio do místico Evangelho de Lucas: «Olhai que o Reino de Deus está dentro de vós» (Lucas 17, 21). É o diamante oculto no interior da pedra bruta — a Sétima Morada da alma, de Santa Teresa de Jesus, a mais íntima e a mais divina[7] —: o diamante só brilhará em todo o seu esplendor após se aplicar à pétrea crosta, onde se oculta, o esmeril para desbastá-la, o esmeril que faz a «pedra» chiar com a violência do desgaste, ou seja, gemer com as dores e com o sofrimento de andar (andarmos!) no mundo e no aprendizado da vida, até que, pelo exercício da Gnosis e pela graça da Sophia sejamos dignos de alcançar a redenção e a paz, «a paz de Deus que excede todo o entendimento», como nos ensina Paulo (Filipenses 4, 7) e nos confirma um dos seus discípulos:

«… a fim de conhecerem o mistério de Deus, isto é, Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria [gr. sophia] e do conhecimento [gr. gnôsis]» (Colossenses 2, 3)[8].António de Macedo

 

 
 

 

[1] O outro passo onde a Igreja costuma fundamentar o primado de Pedro como «pastor» máximo da Igreja é João 21, 15-17, em que Jesus diz a Pedro, ou melhor, a Simão filho de João, por três vezes: «Apascenta as minhas ovelhas». Convém referir todavia que esta tripla injunção vem na consequência de Jesus lhe ter perguntado, também por três vezes: «Tu amas-me?» — remetendo para o triplo amor divino já expresso no Deuteronómio (6,5) e repetido em Mateus (22, 37): amar com todo o entendimento (natureza mental), com todo o coração (natureza emocional), com todas as forças (natureza físico-etérica). Com isto, o autor deste Evangelho espiritualiza a rocha da personalidade, que Pedro simboliza, purificando-a e elevando-a pelo amor. É uma instrução iniciática, e não um acto de fundação institucional duma organização como a Igreja. Por outro lado, este último capítulo de João, 21, foi acrescentado posteriormente, e embora sérios exegetas acreditem, pela crítica interna, que seja do mesmo autor do restante Evangelho, ou dalgum discípulo bom conhecedor do seu estilo, não é de excluir que o acrescento tenha sido redigido quando a Igreja já havia institucionalizado o «primado papal» de Pedro, que assim se veria reforçado com este pequeno episódio.

 

[2] As palavras gregas petros e petra traduzem um original aramaico kepha, que significa rocha, rochedo. Cf.: «Tu és Simão, filho de João, e te chamarás Kepha» (João 1, 42). — Alguns exegetas entendem que este «Kepha», aqui, não significa «pedra», mas seria uma adaptação do aramaico qayyepha (Caifás) correspondente a um título, qualquer coisa como «inquiridor/prognosticador», e que nos Evangelhos é considerado como nome do sumo sacerdote que presidiu ao julgamento de Jesus. Os meus modestos recursos não me permitem tomar partido nestas querelas de eruditos…

 

[3] O episódio em que Pedro nega Jesus três vezes, declarando que não é Seu discípulo nem tem nada a ver com Ele, após Jesus ter sido preso no Gethsemani, vem relatado nos quatro Evangelhos: Mateus 26, 69-75; Marcos 14, 66-72; Lucas 22, 54-62; João 18, 15-18.24-27.

 

[4] É a confirmação de Pedro como «pescador de homens» (Lucas 5, 10), pese embora as suas imperfeições: pois não somos todos imperfeitos, antes que possamos alcançar a «perfeição do Pai»? Esta esperança é-nos repetida no passo do Evangelho de João onde se refere a pesca milagrosa de Pedro após a Ressurreição de Cristo: Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede, e trouxe-a cheia com 153 peixes (João 21, 11). Por sua vez o Apocalipse informa-nos que são 144 mil os eleitos de Deus assinalados, e que serão salvos das catástrofes que sobrevirão quando for aberto o Sexto Selo (Apocalipse 7, 3-4). Tanto 153 como 144.000 se resolvem cabalisticamente em 9 (1+5+3=9 e 1+4+4=9), e 9 é o número de Adão, ou da humanidade: as três letras hebraicas que formam a palavra «Adão», aleph, daleth e mem têm os valores numéricos 1, 4 e 40, respectivamente, o que soma: 1+4+40=45, que por sua vez se resolve em: 4+5=9. Admitindo que o que se dissimulava nos sistemas numéricos hebraico e grego se tornou transparente quando o homem foi iluminado com o sistema decimal, eis uma antiga e oculta mensagem endereçada (por que não?) à idade moderna, e que nos afirma: Deus quer que TODOS sejam salvos.

 

[5] Inspira-se no Salmo 117 [118], 23-24:

A pedra que os construtores rejeitaram
Tornou-se pedra angular;
Isto foi obra de Jahvé,
E os nossos olhos maravilham-se.

 

[6] O episódio da alegórica paragem do Sol e da Lua, a mando de Josué, tal como é narrada no Antigo Testamento, pode levar apressadamente a concluir que Deus «obedece» ao papa tal como então «obedeceu» a Josué e parou o Sol: «Não houve, nem antes nem depois, um dia como aquele, em que Jahvé tenha obedecido à voz dum ser humano, porque Jahvé combatia por Israel» (Josué 10, 14). — No entanto, o facto de a Bíblia dizer «nem antes nem depois» parece anular explicitamente aquela papal pretensão.

 

[7] Cf. Santa Teresa de Jesus, «Moradas ou Castelo Interior» (1577), in Obras Completas, Edições Carmelo, Aveiro 1978.

 

[8] O estudo atento da carta ao Colossenses e da carta aos Efésios, inseridas no corpus paulino do Novo Testamento, levou os especialistas a concluírem que são textos compósitos, eventualmente de Paulo na sua origem, mas com importantes acrescentos e desenvolvimentos (redigidos por um ou vários discípulos «paulinistas») que só se justificam em face de situações e concepções surgidas já no século ii d. C.

 

 
 
 

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III Colóquio Internacional Discursos e Práticas Alquímicas (2000)

IN: MACHADO, Maria Salomé Machado, A.M. Amorim da Costa, A.M.C. Araújo de Brito & António de Macedo (2005) - A Palavra Perdida. Colecção Lápis de Carvão (dir. Maria Estela Guedes), nº1. Lisboa, Apenas Livros Editora.

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