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ANTÓNIO DE MACEDO
Inquisição E Tradição Esotérica: Acção E Reacção No Colonialismo E Ex-Colonialismo Do Império Português
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IV - As queimas de livros

A prática de destruir livros perigosos ou apenas incómodos é muito antiga e foi partilhada por diversas civilizações e culturas. É bem conhecido o caso do imperador pagão Diocleciano, de Roma, que se autoproclamou dominus et deus e mandou queimar todos os livros egípcios de Alquimia, nos finais do século III. No mundo cristão, a primeira notícia de uma queima de «livros proibidos» é-nos dada pelos Actos dos Apóstolos, escritos provavelmente já no primeiro quartel do século II por um bom conhecedor das técnicas da historiografia grega e que muitos estudiosos actuais não acreditam ter sido o mesmo Lucas do terceiro Evangelho. Aí se descreve como por força da pregação de Paulo, e após um ataque muito agressivo de espíritos malignos, os habitantes de Éfeso, judeus e gregos, que se dedicavam à magia, assustaram-se, converteram-se e trouxeram uma enorme quantidade de livros malditos que queimaram em público: «O valor dos livros foi calculado em 50 mil moedas de prata» (Actos 19, 13-19).

O sinal de partida estava dado. Durante a Antiguidade e na Idade Média foram condenadas várias doutrinas heréticas e os livros que as continham, tanto pelos papas como pelos concílios. Os livros reprovados não deviam ser lidos nem possuídos pelos cristãos: deviam ser queimados ou entregues à autoridade eclesiástica, e a partir do século XIV estas proibições foram suplementadas com a pena de excomunhão (Pereira 1976, 11-12). Apenas para nos cingirmos ao século XVI, registemos que a produção literária de mais de dois mil autores foi inteiramente ou parcialmente condenada! (De Bujanda 1995, 15). O Rol dos Livros Defesos publicado pela Inquisição portuguesa em 1561 é o mais volumoso de todos quantos apareceram no século XVI na cristandade, só suplantado no século seguinte pelo de 1624. Para que não restassem dúvidas aos prevaricadores, o Rol de 1561 é precedido duma carta do Inquisidor-Geral, cardeal D. Henrique, de 21 de Março desse ano, onde se lê, entre outros parágrafos, o seguinte: «Primeiramente mandamos sob pena de excomunhão latae sententiae (cuja absolvição reservamos a nós ou aos Inquisidores ou a quem para isso nossas vezes tiver) a quaisquer pessoas de qualquer qualidade ou preeminência que seja: que não tragam nem façam trazer, nem recebam, nem comprem, nem vendam, nem tenham, nem leiam livro algum dos contidos neste catálogo, nem outros quaisquer em que souberem que estão erros contra nossa santa fé» [Ortografia actualizada] (De Bujanda 1995, 55-56 e 593).

V - O amanhecer da História do Futuro

O século XVII desempenhou uma função capital em termos de paralelismo-antagonismo entre o que se passava em Portugal e no resto da Europa. O antipapismo alastrava pela Europa, quer sob a forma das diversas ramificações protestantes, quer sob a capa de sociedades secretas como a misteriosa Ordem Rosacruz; todos esses movimentos e correlativos abalos psicossociais e agitações político-religiosas culminaram na terrível Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que subverteu sociedades e redesenhou fronteiras. Durante o mesmo período, em Portugal e no Brasil preponderava o gigantesco Padre António Vieira (1608-1697) e o seu discurso inflamado e profético - além de que nos batíamos na nossa própria «guerra dos trinta anos» (no curioso dizer de Lima de Freitas) para sacudir o ocupante espanhol de seis decénios que não quis largar este torrão com facilidade. Essa guerra ao longo das nossas fronteiras com a Espanha, conhecida como Guerra da Restauração, prolongou-se de 1640 até 1668, e foi sendo travada ao mesmo tempo que combatíamos vitoriosamente os holandeses no Brasil sem falar noutras lutas em Africa e no Oriente.

«Um grande movimento dos espíritos acompanhava essas batalhas, essas tragédias e essas esperanças: velhos profetismos de origem joaquimita e templária, alimentados pelas correntes franciscanas e pelo milenarismo paraclético - refiro-me ao culto do Espírito Santo, que ganhou um vigor sem paralelo na pátria portuguesa - que conduziriam a fenómenos extraordinários. Citaremos as profecias do sapateiro Bandarra e a força imensa e magnética do verbo de António Vieira da Companhia de Jesus - o "imperador da língua portuguesa", como o cognominou Fernando Pessoa -, autor genial de sermões prodigiosos e das páginas sem paralelo da incompleta História do Futuro e da Clavis Prophetarum; lembraremos também a atmosfera febril de escritos anónimos, de milagres e prodígios, de visões e profecias que reinou nessa época. [...] Viu-se assim emergir quase ao mesmo tempo, como que surdindo de uma mesma nascente, o mito de Christian Rosenkreuz na Alemanha e, em Portugal, a memória da lenda velha de dois séculos do Beato Amadeu, segurando, no seu túmulo, o livro contendo uma "história do futuro", palpitante de mistérios, que seriam "brevemente" revelados segundo a vontade de Deus» (Freitas 1998, 183).

O Beato Amadeu era um fidalgo de nome João de Meneses da Silva (1431-1482) que acabou por professar na Ordem dos Irmãos Menores (Franciscanos) em 1454, depois de se ter convertido a uma vida de religiosidade e penitência em que adoptara o nomen mysticum de «Amadeus» - equivalente a Theo-Philos. Após a morte foram-lhe atribuídos diversos milagres, que contabilizaram para a sua beatificação, para além das muitas virtudes que demonstrara durante a vida. Escreveu um livro profético, Raptus et Revelationes: Apocalypsis Nova, que foi incluído no Catalogo dos Livros que se prohibem nestes Regnos e Senhorios de Portugal, segunda parte do lndex Librorum Prohibitorum impresso em Lisboa em 1581, e onde o nome do Beato Amadeu figura como «Amadeus Lusitanus». Existe uma efígie do Beato Amadeu (reproduzida em Freitas 1998, 180) com um «livro ocluso» debaixo do braço direito - tal como, mais tarde, Christian Rosenkreuz -, livro esse, de mistérios e profecias, que só deveria ser aberto «em tempo oportuno».

No famoso políptico do século XV atribuído a Nuno Gonçalves, conhecido como Tábuas de S. Vicente de Fora e existente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, reencontramos o tema do «livro ocluso»: no painel central da direita, a que António Quadros chama «Painel da Missão das Ordens de Cristo e de Aviz» (Quadros 11-1987, 173 segs.), o Hierofante tem o «livro ocluso» debaixo do braço, além de empunhar a vara simbólica da Iniciação: é o tempo passado e presente dos mistérios por abrir; no painel central da esquerda, «Painel da Aliança no Espírito Santo» (Quadros ibidem) o Hierofante já apresenta o livro aberto, o Evangelho de João, onde Jesus anuncia a vinda futura e desveladora do Paracleto (João 14, 16.26; 15, 26; 16, 7) - a verdadeira História do Futuro de que se haveria de encarregar António Vieira. Não deixa de saltar à vista, para quem contemple os painéis no seu conjunto, tal como se encontram agora, a organização hermética dos três grandes grupos humanos que os integram, num total de 60 personagens: o grupo de pessoas de negro («obra em negro» ou nigredo), o grupo de branco («obra em branco» ou albedo) e o grupo de vermelho («obra em rubro», ou rubedo). Destaca-se, neste último, a majestosa figura do Hierofante, totalmente vestida de vermelho em suas duas aparições, que Lima de Freitas identifica com il Messo di Dio, o que virá como «Consolador», ou Paracleto (Freitas 2003, 303-312): com efeito, o vermelho é a cor simbólica do Espírito Santo, tal como o azul é a do Pai e o amarelo-dourado a do Filho.

 
VI - As duas progénies

O profetismo-hermesismo assumiu em Portugal um cariz próprio, como já se referiu, detectável em duas linhas convergentes:

1 - O Rosacrucismo Templário de D. Teresa e de seu filho D. Afonso Henriques (c. 1109-1185), atestado pelas assinaturas destes últimos onde é visível a sobreposição da Cruz à Rosa Mística (assinaturas reproduzidas em Daehnhardt 2000, extratexto entre 96-97), bem como a inequívoca declaração do primeiro rei português, em documento autógrafo onde confirma a doação do Castelo de Soure aos Templários por sua mãe, rainha D. Teresa, e em que lhes declara que «em vossa irmandade e em todas vossas boas obras sou irmão», atribuindo-se, portanto, a Irmandade Templária na dupla vertente iniciática e temporal (Alves 2001, 56) ;

2 - Os ideais trinitários do abade calabrês Joaquim de Fiore (1145-1202) e do médico e alquimista catalão Arnaldo de Vilanova (1240-1313), mestre da rainha D. Isabel de Aragão, mulher de D. Dinis, ideais esses que deram origem, através dos franciscanos Spirituali (condenados pelo papa João XXII) e por mão daqueles dois monarcas portugueses, à institucionalização das festas e do Culto do Espírito Santo, além de que D. Dinis era um «Fiel do Amor» pertencente à heterodoxa Ordem dos Trovadores.

 

VII - Roma e Anti-Roma


Comecemos por espreitar os primeiros versos duma canção de Dante inserida no seu enigmático livro Vida Nova (Dante 1984, 39):

Damas que sabeis do Amor,
convosco vou falar da minha Amada,
não para acabar o seu louvor,
mas para aliviar o fogo que em mim arde.

Nos tempos do florentino Dante (1265-1321) duas facções rivais, os Guelfos e os Gibelinos, confrontavam-se em contínuas guerras civis pelo controlo das cidades italianas. A designação «Gibelino» deriva de Waiblingen, nome dum importante castelo da família Hohenstaufen a que pertenceram alguns dos Imperadores do Sacro Império Romano (Germânico) que combateram os papas como por exemplo Frederico Barba Roxa (1122-1190) e Frederico II (1194-1250). Por sua vez «Guelfo» deriva do apelido alemão Welf, nome da família que apoiava o papa e aspirava ascender ao trono Imperial.

Ou seja, os Gibelinos, sobretudo em Itália, eram as famílias nobres partidárias do Imperador que se opunham às ambições do papado; os Guelfos eram as famílias nobres que apoiavam o papado sob o aspecto político-militar. Dante, que começara por ser um Guelfo moderado, ainda chegou a combater como cavaleiro contra os Gibelinos, mas a partir de 1300, reconhecendo os erros, a intolerância e o inevangélico fausto da Igreja de Roma, e a crescente ambição papal, mudou de campo e acabou por se opor frontalmente ao papa.

Estas guerras só viriam a terminar nos finais do século XIV. Dante engrossou, assim, as fileiras do «Infiéis de ROMA», ou seja dos «Fiéis do AMOR», como explica Sampaio Bruno ao referir que o descerrar dos mistérios trovadorescos provém da decifração duma palavra:

«Da mesma que em português e em espanhol, na língua latina: amor. Vocábulo que, em exacto e perfeito anagrama inverso, resulta Roma. De modo que os fiéis-do-Amor são os fiéis, não do amor, mas do contrário de Roma. Os fiéis-do-Amor são os infiéis-de-Roma. Como os fiéis-de-Roma são os infiéis do Amor, os contrários ao Amor, os inimigos do Amor. Exemplo formidável: a besta-fera, o monstro horrendo do Santo Ofício da Inquisição, essa "esfinge humana" do pastor, fiel-do-Amor, Fernão Álvares do Oriente. Em suma: Amor não é amor; Amor é Anti-Roma» (Bruno 1960, 142-143).

Ponderemos no inesperado facto de um respeitável número de poetas e cavaleiros da Idade Média e do Renascimento se travarem de amores na Semana Santa, de preferência à quinta-feira ou à sexta-feira de Paixão, e na igreja, durante o ofício divino: os exemplos abundam, e podemos citar, entre os mais notórios, os trovadores Ausias March e Luis Martelli, além de Dante, Boccaccio, Petrarca, Camões, o bolonhês Onesto. ..

Que poetas e cavaleiros eram estes?

 

A SEGUIR: OS CAVALEIROS DO AMOR

 

 


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