Na morte de Luiz Pacheco
a 5 de Janeiro de 2008

Ruy Ventura
[de Luiz Pacheco aos seus abutres]

do escarro e do mijo não reza a história do mundo.

da esporra há ténues vislumbres

entre os dentes de uma narrativa

cujas pernas se abrem a qualquer membro sem sombra.

o sarro permanece no copo

por onde bebemos o último vinho.

(deixou nódoas nas paredes e no tecto da casa

que nem várias camadas de tinta conseguiram ocultar.

 

a merda, mesmo limpa, continuará sendo merda.

não vale a pena escondê-lo.)

 

é preciso descalçar

as frases, mesmo que os pés sejam feios.

mostrar a trampa

que cobre uma parte do mundo, os ossos

(mordidos pelos cães?) que alguém lançou no carneiro.

 

e, no entanto, há luz no meio do entulho: livros

colocados numa mão incerta

cuja humidade permite o nascimento

de fungos e, mais tarde, de pequenas plantas

(haverá por ali um grão de mostarda

ou outra semente cuja árvore um dia reconheceremos?)

livros – e tecidos impuros

com húmus e estrume

no meio da batalha.

 

fósforo e amónio não fertilizam

a linguagem. só um estrume ácido

(ou a acumulação de matéria orgânica sobre o solo)

dá garantias de crescimento.

 

mesmo que no teatro da existência escolhamos

vestes apodrecidas – e o cheiro da flatulência e dos excrementos

afaste a multidão

(tão tarde vos chegastes, quando a minha carne

trazia apenas um odor que vos agradava)

são essas as palavras que interessam

descobertas, com paciência, entre

quilos e quilos de trampa.

 

 

 

 




 



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