Luiz Pacheco

Luiz Pacheco (ainda...) resiste

Entrevista de Guilherme Pereira

INDEX

Ainda resiste
Agonia do génio
Como é que ocupas aqui o tempo?
Cresceste numa família de militares...
E tu no Liceu Camões?
E a Contraponto?
Escreveste também na Seara Nova.
[Batem à porta do quarto, entra um homem]
Como é que era no Limoeiro?
Referes-te muitas vezes ao Café Gelo. Conta aí uma história.
O libertino passeia-se no lar.
 Foste um dos responsáveis pelo sucesso de O Que Diz Molero.
Opinião sobre o José Saramago, queres dar?
E a Admirável Droga?

Escreveste também na Seara Nova.
Com dois textos, um deles chamava-se “A Lição”, quando foi da candidatura do Humberto Delgado. Mandei o artigo ao Câmara Reys, que disse: “é escusado mandar compor o texto porque a censura corta tudo”. Mas houve alguém, já não me lembro quem, que disse: “mande! Pode ser que passe”. Resultado: foi todo cortado. Nessa altura o ministro da Presidência era o Marcello Caetano e eu trabalhava na Inspecção dos Espectáculos. Só para chatear fui para casa, preparar um texto a reclamar do corte. Tinha que se fazer um requerimento em papel selado, o máximo eram 4 páginas. Citava textos do Marcello, do Torcato de Sousa Soares (professor de Direito em Coimbra), do Herculano e do Oliveira Martins. Na minha exposição defendia que, como autor do artigo, o meu ponto de vista era igual ao dos citados. Demorei semanas a fazer a exposição, fui à Biblioteca... Entreguei ou enviei para a Presidência do Conselho, já não sei. E aguardei. Daí a tempos escreveram para a Seara Nova a permitir a publicação. Veio a aceitação mas ainda demorou. Já era um artigo cauteloso. Mas saindo na Seara Nova (que ficava na rua da Rosa, nº 23, onde nasceu o Camilo Castelo Branco), já depois das eleições, tinha menos força, era mais inócuo, menos agressivo. O que o Marcello gostou foi que o tivesse citado a ele. A intenção do artigo era mostrar que a censura não era tão cega quanto isso. O Câmara Reys é que ficou com uma grande cachola. O Câmara Reys foi meu professor no liceu Camões. Era um gajo espantoso... e um grande mineteiro. Dava aulas de literatura espantosas.

O teu primeiro livro como escritor foi a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira?

Isso era uma carta, um panfleto, não era um livro. O meu primeiro livro foi a Crítica de Circunstância, edição Ulisseia e do Vítor Silva Tavares. Foi o gajo que de facto começou comigo e começou com coragem porque eles sabiam que o livro ia ser apreendido. E foi! Agora, a carta ao Gomes Ferreira, escrita em 1953, foi o meu primeiro texto com alguma dimensão, com alguma pontaria. Eu mandei-lhe o texto numa carta registada com aviso de recepção. Recebi o aviso de recepção assinado pelo José Gomes Ferreira mas ele nunca deu resposta. O Gomes Ferreira não percebeu aquela carta. Aquilo era uma irritação e uma homenagem, uma irritação porque ele estava a abandalhar-se como escritor e uma homenagem porque o Gomes Ferreira tinha sido um dos meus ídolos de juventude. Esse texto foi escrito para um projecto meu, do Cesariny e do Lisboa, que era “Duas gerações, Três cartas”. Eu escrevia uma carta ao Gomes Ferreira, o Cesariny ao Gaspar Simões e o Lisboa ao Casais Monteiro. A carta do Lisboa (“Carta Aberta ao Srº. Dr. Adolfo Casais Monteiro”) está naquela edição da Assírio & Alvim, o tijolo cor-de-rosa, organizada pelo Cesariny. Lembro-me perfeitamente de o Lisboa ter estado comigo na Inspecção dos Espectáculos, no r/c, na Calçada da Glória, com uma máquina muito velha, ele a ditar-me a carta e eu a escrever a carta à máquina. Dali o Lisboa foi ao Diário Popular para ser publicada como resposta à entrevista do Casais Monteiro ao Gaspar Simões... para elucidar esse texto do Lisboa há que ler a entrevista... Não sei se ele chegou a ir ao Popular, não sei se se arrependeu pelo caminho. Ora como é que essa carta chega à mão do Cesariny? Não sei. O que eu sei é que quando tentei fazer um trabalho sobre o Casais Monteiro, eu na altura não tinha envergadura para fazer aquilo, lembro-me que estava no Café Portugal, no Rossio, com um livro do Casais... aquele primeiro livro... o livro de ensaios... o Lisboa disse-me, muito sacana e perfurante: “estás a agarrar-te ao Casais porque não tens tomates para te agarrares ao José Régio”. É natural que o Lisboa tivesse preferência pela poesia do Régio ou que considerasse o Régio mais importante que o Casais... a poesia do Lisboa é muito mais achegada à poesia do Casais do que ao Régio. No Lisboa não havia problemas metafísicos, nem de Deus, nem do Além nem nada disso, como há no Régio e não há no Casais. Ora, anos depois, já eu estava no Pote d’Água, o Cesariny pediu-me para publicar a Carta-Sincera na Antologia em 1958, a colecção dele, que era feita na Rua Nova do Loureiro, na Editora Gráfica Portuguesa. O título completo era Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma Nota do Autor por causa da Província.

 

 

 

 




 



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