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DORIVAL ROSSI & JOÃO WINCK
O que chamamos de realidade?
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Tradicionalmente o significado do conceito de real está ligado à idéia de existência, de concretude, de factualidade, de resistência, de reatividade, de presença... Chamamos de real aquilo que insiste aos nossos sentidos ou aquilo que se diferencia da fantasia, da ficção, do imaginário, do delírio... A dicotomia entre corpo e alma, imanente e transcendente etc. é a linha de pensamento dominante na filosofia ocidental. Temos uma tradição irreversivelmente materialista, formatada por oposições complementares...

Aqui caberia uma digressão sobre as origens do conceito de real desde os gregos até os positivistas, especialmente no que se refere à noção do real intimamente ligada aos sentidos de ordem, de organização do mundo sensível, das leis gerais que regem a natureza. Caberia, também, uma discussão sobre o as noções de criador e criatura, dentro da tradição criacionista e seu oposto complementar: a tradição evolucionista. Esta discussão é penosa e, portanto, vem ocupando boa parte da cultura.

Ser ou não ser real! Esta é a questão que atormenta a filosofia.

Seria necessário, portanto, uma outra discussão um pouco mais complexa sobre o que existe de fato e de direito. Caberia, também, discutir o conjunto das oposições entre o que existe a priori como natureza e o que ganhou existência à posteriori, enquanto cultura. Discutir a noção de real dentro da tradição ocidental nos leva, inexoravelmente, a não dar paz para a natureza, atribuindo-lhe forma, peso, volume, textura, cor, cheiro... sentido.

Num verdadeiro tributo ao atributo, a tradição ocidental se preocupa fundamentalmente em domesticar o bruto e predicar o sensível!

Nesta via seria prudente discutir o que forma e o que transforma. Ou, por outra via, caberia discutir o que o repertório cultural é capaz de definir, mesmo precariamente, de que forma "algo" é distinto de "alguém" e, por fim, desgnar a supremacia do ser sobre as coisas e os eventos. Ser ou coisa, por sua vez, se diferenciam do nada (ou ausente) pela presença como entidade filosófica. Esta tem sido, em geral, a maneira comum de se definir a dimensão do real.

O conceito de virtual procura instituir outra linha de pensamento, diferente da tradição filosófica ocidental. Não sem contradições e inconsistências, os defensores do virtual pensam numa dimensão não real, desprovida de materialidade. Na dimensão virtual as coisas não existem. Apenas insistem...

O conceito de virtual está ligado à noção de complexidade para além do sensível, do sensório, daquilo que existe disponível à compreensão tradutória dos sentidos humanos. Pensar o virtual como dimensão existente é tão complicado como imaginar a alma feita de matéria sensível. Imaginarmos o corpo fazendo parte da dimensão do real e a alma compondo a dimensão virtual é equivocado. Corpo e alma são conceitos indissociáveis, pertencentes à mesma tradição filosófica.

O conceito de virtual está ligado à noção de possível, de potencial lógico, de algo que ainda não tem existência de fato, mas de direito. O virtual é dimensão dependente da cultura, embora sua ocorrência esteja alhures.

Potencialmente os gregos, desde Tales de Mileto, já dominavam o conceito de eletricidade. Embora a eletricidade seja uma ocorrência "de fato", sua existência de "direito" só ocorreu após o Renascimento. Mas o exemplo de um evento da natureza atuando sobre a cultura não define o campo do virtual. Neste exemplo poderíamos pensar que o "bem" eletricidade estaria disponível para uma "boa" cultura. A ignorância acerca do fenômeno definiria um "mal" da cultura. Neste aspecto, o campo do real estaria vinculado ao litígio do bem X mal, típica da tradição ocidental.

O campo do virtual é trágico no sentido grego da palavra. No virtual não existe bem ou mal. Trata-se de decidir entre dois ou mais bens. O virtual é o campo da decidibilidade.

É equivocado pensar, por exemplo, que o palito de fósforo virtualizaria o fogo. A combustão é uma dimensão própria da química - enquanto fenômeno pertencente ao campo do real, portanto! Está presente em todos os corpos e depende de uma dada combinação. O que virtualiza o fogo no palito é uma decisão hipercomplexa, tramada por uma multiplicidade de eventos, sobre a possibilidade de fazer acontecer o fogo de maneira deliberada, controlada, ordenada, dócil, portanto, possível.

Virtual é o campo da decisão acerca de dominar o fogo no palito. É a dimensão, demasiada humana, de poder deliberar entre dois bens: o natural e o artificial. Atualizar, do nó de complexidades que a cultura é capaz de tramar. É uma via de acesso ao real.

O conceito de virtual, em certos aspectos, revogar a noção do real como existência à priori ou, por outro lado, desfaz a noção de contingência indômita. Exatamente por isso que o conceito de virtual é tão constrangedor, pois nos coloca num "modos operardes" atemporal, amoral, ex-nihilo. Nos tira do sério e nos joga no seria... O virtual faz o futuro do pretérito uma dimensão "real" ou o que chamamos de realidade...

O campo do virtual não é sensível. Para compreendê-lo é necessário afastar-se do conceito de Ser e seu contrário complementar - o inexistente. Não se tratam de objetos, quer sejam físicos ou imateriais. O virtual não é uma fina e transparente camada que une o fora (que existe) e o dentro (que sensibiliza e decifra o existente).

O virtual não é liga, limite, ou solda. Menos ainda é amalgama, catalisador ou veículo. Passa alheio à sensibilidade, pois é desprovido de objeto. O campo do virtual não está ausente, tampouco não está presente. Não está em nenhures. Trata-se de um porvir lúdico, decidido pelos pares. O campo do virtual só é perceptível, quando é, à intuição, ao insight, ao pressentimento. Não se pode senti-lo nem defini-lo, pois não passa pelo campo da racionalidade.

Numa discussão de base semiótica, o campo do virtual se constituiria como produto de uma relação entre dois qualissignos. Duas qualidades geradoras de uma terceira, mais original e distinta das anteriores. O campo do virtual é o inteiramente outro. Pura singularidade monádica! É apenas quase pensamento ou quase-signo.

A seqüência de abertura do filme "2001. Uma odisséia no espaço", na qual o humanóide se dá conta de que um osso pode funcionar como uma arma ilustra, precariamente, a relação que se estabelece entre os campos do real e do virtual.

Não se trata do gesto cultural da transformação do osso em artefato, próprio do Homo Faber. Nem se trata da descoberta da força inteligente, própria do Homo Sapiens. No campo do real osso, arma e potência têm o mesmo status de existência sensível.

O campo do virtual, ao contrário, se estabelece no justo instante do insight de um possível, de algures potencial, próprio do Homo Ludens. Depois de descoberta a arma potencial, o virtual se esvai. Passada a dimensão lúdica do pressentimento, o que se atualiza é o real. O insight do homóide - e não seu gesto ou o osso - virtualizou o abridor de latas, o maçarico... a bomba atômica!

Naquele instante fugidio toda arma porvir estava ali, num nó de complexidade, num caldo grosso de possíveis! Do contato com o campo do virtual faz-se o espanto que, por fim, soçobra em realidade!

No campo do real, das coisas que existem enquanto matéria, espírito e idéia, o significado de unidade faz sentido. Cada evento do real é único em sua combinatória. O real seria um feixe de possíveis que se atualiza naquele fenômeno, dotando-lhe de coerência interna. No campo do real as coisas "são" porque seguem uma regra geral que é pertinente àquela combinatória em especial. Por isso a idéia do objeto único!

A unidade da obra se estabelece quando nela se atualiza uma coerência suporte, isto é, a idéia fundamental (ou insight) reverbera um sentido organizado em certos meios para determinados fins. No campo do real projeto, processo e produto são partes da mesma unidade coerente. Neste aspecto, o conceito da Gestalt, no qual forma segue função, só faz sentido no campo do real. No campo do virtual não existe função, tampouco forma. Tudo serve para tudo numa somatória oblonga de eventos dispares, pois se trata de um nó de complexidades. O campo do virtual é uma falha na coerência. Um vazio da função em relação à forma e vice-versa.

O conceito de Uno (e suas derivações: unidade, universo, universidade, único, unívoco etc.) remete à compreensão de totalidade sem cisão. A idéia de uno remete ao conceito de coerência, de ordem, de sintaxe. Numa palavra: razão! O campo do virtual significa a diversidade ou o diverso, o multiverso, o plural, o equívoco, a somatória de ímpares etc. É uma totalidade cindida, porque multiforme, multíplice, proliferante, auto-geradora do original. O virtual é um lócus onde não há coerência, onde a desordem prevalece numa sintaxe sem semântica nem pragmática. Numa palavra: caos.

Se no campo do real o fenômeno acontece, sem que se possa decidir, mas apenas aceitar ou compreender como matéria plástica, o campo do virtual, como um caldo grosso de possíveis, a potência do saber se esvai numa matéria estética, como fruição propriamente dita. Decidibilidade pura e simples no ínterim dos processos.

Neste aspecto o design virtual (fruitivo) se difere do design real (utilitário) na sua natureza mais intima, no seu projeto como escopo. O design do real é teleológico; o design virtual é ouramente lógico. Enquanto o primeiro tende à expansão inclusiva, o segundo tende à exclusão seletiva. No virtual a fruição estética prevalece sobre a sensação plástica. No real o objeto prevalece sobre o sujeito. No virtual os objetos vibráteis, sensíveis, interagentes (ou tatiloscópicos) não estão sobre o sujeito, mas com ele, nele. O Virtual é uma dobra do sujeito no objeto e não ao contrário.

No exemplo da seqüência de abertura de 2001, a unidade do projeto (ou design) dos artefatos de guerra alcançou coerência interna no momento que se descortinou seu uso. Neste momento atualizou-se o real. O campo do real é pragmático, dada a coerência interna nele subjacente.

Na metáfora de 2001, são três momentos muito tênues, porém distintos nos quais o humanóide transmuta-se do campo do real ao virtual para, em seguida, atualizar um feixe de coerência. No primeiro momento o humanóide está diante do projeto ou design de relações. Portar o osso e vibrá-lo às alturas é uma dança de possíveis. Desse gesto qualquer derivação poderia ser viável: bumerangue, religião, coreografia... linguagem!

O virtual é uma miríade lúdica dada às escolhas. O projeto do artefato de guerra se atualiza como coerência num segundo momento, quando do impacto forçoso da potência, do gesto e do próprio osso sobre os demais fenômenos presentes à cena. Uma relação sapiens se impõe sobre o ludens.

O terceiro momento a coerência do projeto se atualiza no artefato, na condição faber. Neste instante osso deixa de ser ele mesmo e passa a ser signo, pois adquire significação. Portador de função coerente, o osso toma a forma de arma. Como se vem discutindo, não é o osso que virtualiza a arma, tampouco a sensibilidade coerente de fazer uso de um artefato inteligente. A arma é um produto de uma decisão utilitária, fruto de uma dada coerência. Trata-se, portanto, de um projeto ideológico muito mais do que projeto lógico. Do ponto de vista da lógica, o campo do real é consistente. O campo do virtual é para-consistente.

No exemplo de 2001, o campo do virtual está no instante que o osso deixa de ser ele mesmo e passa a ser qualquer coisa possível, ou mesmo nenhuma coisa, pois são todas as coisas simultaneamente.

O instante no qual se abre um vazio no real, aí se tem o virtual. Se tem descortinado o locus da incoerência absoluta e, ao mesmo tempo a necessidade de projetar coerência. Projetar é preciso....

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Dorival Rossi e João Winck são Doutores em Comunicação e Semiótica e professores da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista-UNESP.
 
 
 
   
   

 

 

 


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