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DORIVAL ROSSI & JOÃO WINCK
O audiovisual digital como Design de Relações
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As ferramentas digitais têm ampliado as possibilidades de misturas de formas, cores, texturas e padrões, tanto da imagem como do som e dos movimentos, promovendo distintas angulações do olho e dos olhares. Entretanto, uma diferença essencial transforma a produção do audiovisual tradicional em design de audiovisual digital. As qualidades das ferramentas tradicionais foram transferidas para a memória do computador, acrescidas de mais uma: a dimensão da interatividade.

A linguagem digital, diferente da analógica, pode criar tessituras como devires lógicos de um jogo de dados de infinitas faces. O projeto digital é capaz de criar processos que, embora aparentemente estéticos, são constituídos de um único fio: a ética das relações. A lógica da interatividade, ou o que chamamos de design de relações, acrescentou à linguagem audiovisual algo que lhe fez diferente da linguagem produzida pelas ferramentas convencionais. A natureza do produto digital é a autogênese de corpos sensíveis, capazes de reagir ao comando do interlocutor e, com isso, alargar sua própria complexidade interna.

O universo do audiovisual digital, quando incorpora o design de relações, torna o designer uma espécie de neoprojetista. Um espécime híbrido de pintor, músico, escritor, dramaturgo e videomaker encarregado de fazer política poética com as imagens e os sons. No projeto digital, autor, obra e interlocutor são agentes indissociáveis no produto, cujo processo é constituído de tomadas de decisões sobre os rumos da obra.

Como um neo-escriba do contemporâneo, cuja essência estética é a promoção da ética da interação entre máquinas, pessoas e conceitos, o designer do audiovisual interativo é o promotor de representação na mais pura concepção que esse termo possa abarcar: Ele trata, a um só tempo, de configurar os meios pelos quais os interlocutores irão dialogar, projeta a maneira pela qual cada um poderá se misturar ao todo, sempre aumentando o todo e, finalmente, cria padrões de identidade, de reconhecimento e de ação social do indivíduo em relação à comunidade desuniforme da qual participa.

O designer do audiovisual é um criador de signos cuja essência é fazer interagir projetos, processos e produtos. Ele formata objetos que se colocarão em relação de partilha entre inteligências dialógicas.

Na tela do computador, na condição de progenitor, ele não pinta, não projeta, tampouco desenha ou arquiteta. Ele infere padrões de comportamento para as diferentes palhetas disponíveis nas vastas memórias digitais. Trata-se de uma nova categoria de produtor de signos que se configuram como rotas de leituras de mundo. Um sujeito que, ao deduzir dados, transforma a obra num estado de relações em perene possibilidade de alteração entre os pares.

O design do audiovisual digital abre um horizonte completamente distinto das obras audiovisuais convencionais, mesmo as processadas em equipamentos digitais. No audiovisual analógico o interlocutor é apenas telespectador. No audiovisual digital o interlocutor torna-se um dos agentes das transformações internas da obra, junto com a máquina interligada em assembléia.

A dimensão da interatividade, proposta pelas ferramentas digitais, transforma o audiovisual um novo gênero de linguagem. Como se fosse um videogame cujo objetivo não é ganhar, mas jogar apenas pela fruição lúdica da dimensão estética, o audiovisual digital é uma obra concebida logicamente para ser aberta.

O designer do digital trata de relações entre as formas, os movimentos, a sonoridade, atribuindo a estas relações sutis o sentido "organizado" que intenta desfrutar com a audiência, em perpétuo estado de transformação. Ele deve saber, portanto, lidar com imagem, som e o sentido articulado, todos, ao mesmo tempo como se fosse um texto escrito coletivamente.

Mais do que isso, o designer do digital cria uma diáfana relação entre o dentro das memórias digitais e o fora delas, no âmago da reflexão da platéia em ação. O interlocutor, neste processo, é convidado a partilhar com o autor do projeto audiovisual. Sem a dimensão da interatividade, a peça audiovisual, por mais vanguardista que pareçam ser seus recursos de programação, ainda não se desdobrou do passado que procura re-conceituar.

   
   

 

 

 


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