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MARIA TERESA MEIRELES
Poesia, um dos destinos da Palavra

Foi Gaston Bachelard quem escreveu que a Poesia é um dos destinos da palavra. Talvez seja mesmo um dos seus destinos privilegiados, um dos seus destinos maiores.

O poeta não é aquele que melhor fala sobre a Poesia - o poeta é um «fazedor», um criador. Por isso escreveu Garcia Lorca: Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu?Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada de poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia.

A Poesia, de acordo com Garcia Lorca, depende da visão. Olhar, saber olhar – a qualidade do olhar – pode definir de algum modo a Poesia. Já Ibsen apontara essa necessidade de saber ver: A tarefa do Poeta é essencialmente ver e não analisar. Esse olhar deve ser um olhar primevo, quase infantil, uma forma de ver o mundo como se este estivesse a ser visto pela primeira vez, com a candura de um olhar ainda virgem.

O mesmo Ibsen defendia a natureza diferente da poesia e da prosa, voltando a associar poesia e visão/visões: Prosa é para as ideias, verso para as visões. O Poeta é o visionário, o que vê para além do que é visível e o que vê o visível de forma visionária. Leonardo de Vinci fez a verdadeira ode ao poeta: O poeta destaca-se bem acima do pintor na representação das coisas visíveis, e bem acima do músico no que diz respeito às coisas invisíveis. – e de novo, aqui, visível e invisível confluem.

Ao sentido da visão, ou à visão nos seus vários sentidos, acresce o segundo sentido da poesia: a audição. O poema parte de um olhar qualificado e torna-se poema visual(izado), dotado de ritmo, musicalidade e, por vezes, rima – todos eles têm a ver com a sentido da audição. Por isso o poema se diz, se lê e nos soa – palavra significante, palavra significado, palavra visível e audível, completude.

A Poesia pode dar origem a diferentes abordagens e a várias dicotomias. Uma das primeiras dicotomias possíveis tem a ver com o próprio acto de criação.

Quando se cria um poema, quando se escreve Poesia, o que sucede ou como sucede esse acto? De uma forma quase automática, fruto de uma inspiração quase divina ou, pelo contrário, de uma forma pensada e repensada, em que o poeta busca a palavra perfeita por aproximação e erro? Controvérsia antiga, teve um dos seus auges nas defesas de Shelley (a favor da criação como inspiração, satori) e Poe (defensor de uma poesia trabalhada racionalmente, fruto de um esforço de «delapidação»).

Uma segunda dicotomia possível tem a ver com as noções de Poesia de autor, individual vs Poesia Tradicional, anónima, colectiva.

Se os Povos têm alma, então a Alma Portuguesa espelha-se na quadra. O ritmo da quadra e a sua métrica parecem servir como nenhum outro esquema poético a expressão popular e a sua filosofia de vida.


Rimas infantis, lengalengas, trava-línguas recuperam a noção da palavra lúdica e sublinham a importância da repetição, da musicalidade e do ritmo com propósitos de interactividade entre quem conta/diz e quem ouve/repete, muitas vezes acompanhando palavras com gestos:

Por vezes, têm ainda propósitos didácticos, ensinando a contagem decrescente através, uma vez mais, da quadra:

A Literatura Popular que, de acordo com Viegas Guerreiro é toda ela inventada para ser ouvida, reflecte e inflecte – liga gerações antigas e vindouras através de um mesmo ritmo, de uma mesma respiração.

Se Ser Poeta é ser mais alto; se O Poeta é um fingidor, ser Poeta é também (e sobretudo?) ser capaz de repetir e recriar ritmos antigos, expandir os sentidos da palavra de formas inovadoras sentindo pulsares antigos, porque nada se cria a partir do nada. O vazio é estéril e a Poesia, no dizer de Shelley, é o registo dos melhores e mais felizes momentos dos melhores e mais felizes espíritos.

 
 
 

 




 



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