TERESA FERRER PASSOS
DESPERTAR PARA A CRIANÇA
A criança protagoniza hoje um lugar relevante na Comunicação Social, como nunca antes. E porque acontece isto? Só porque a violência se abateu mais acentuadamente sobre ela. O ser com menos capacidade de se defender no mundo, é o menos respeitado. Uma sociedade egoísta e frustrada abate toda a sua cólera sobre um ser frágil e quase indefeso.

Como escreve o teólogo alemão Eugen Drewermann em L’Essenciel est Invisible - Une Lecture Psychanalytique du «Petit Prince», a criança entra «numa sociedade que em vez de despertar para a sensibilidade espiritual, sufoca os sentimentos sob um sistema de terror organizado» (1). Esse sistema nada respeita, de facto, se não começa por respeitar a criança.

A criança entra num mundo que lhe é totalmente alheio, um mundo novo, cheio de novidade, porque ela não o compara com outro, precisamente porque não tem memória de qualquer passado. A criança sente-se perdida perante um ambiente que não é confortável para ela, porque esse ambiente foi traçado pelas pessoas adultas, de acordo com os seus interesses, as suas angústias, as suas deformações de consciência.

De modo extremamente belo, E. Drewermann analisa, nesta obra, todo o drama da criança que é a personagem «principezinho», à procura de si próprio, à procura de um outro, e sem saber quem é afinal, ele que não se revê nas acções das pessoas crescidas.

Hoje, talvez como nunca em tempos anteriores, as crianças perdem-se delas próprias porque as chamadas pessoas crescidas só conservam nelas a perversão, o simulacro, a falsidade. E é com essa identidade doentia, dissimulada, impura, que se comportam com as crianças.

A criança confronta-se, assim, com um adulto que a trata como se ela fosse também um adulto, porque não vê nela senão maldade, agressão, fuga à autoridade, violência. Escreve Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Principezinho (citamos a partir da obra que estamos a referir): «Estou triste com a minha geração que está esvaziada de toda a substância humana» (2). Nós estamos demasiado tristes com a nossa geração, herdeira da geração de Saint-Exupéry, porque é ainda mais violenta com as crianças.

Lembrando o Menino Jesus, o Deus-criança do Cristianismo, Drewermann remete-nos para a necessidade de construir um outro universo para oferecer à criança que chega, inesperada ou desejada, compassiva ou nervosa, aos braços de sua mãe e de seu pai.

Em vez de construirmos «principezinhos» desencantados ou a caminho de um mundo de martírio infligido pelas ditas pessoas crescidas, devemos criar «principezinhos» maravilhados com o novo mundo em que entraram porque se sentem a viver num espaço de amor.

O amor cria corações bons, sentimentos fortes, desenvolve a confiança e dá asas à generosidade da criança. Aqueles que são capazes de amar os seus filhos, fazendo-os despertar para a procura do bem e, com ela, para a procura de uma felicidade alicerçada nesse mesmo bem, estão a erguer uma sociedade de pessoas crescidas mais felizes do que as da sociedade de hoje.

Esta sociedade a caminho da robotização, esta cultura da tecnologia levada até às últimas consequências ganha terreno e, pelos seus métodos, sabe enganar o incauto humano (que já foi ele também criança). Tudo isto se passa numa estranha impunidade, que não podemos continuar a ver prosseguir imune à crítica, porque há «ouvidos» que não ouvem...

Neste mundo à beira de deixar escapar das mãos todos os valores éticos, resta-nos oferecer à criança um caminho para a esperança, na liberdade de não seguir pelos rumos deformados, perversos, cínicos, dessas pessoas crescidas, em que já nada há da criança que um dia nelas habitou.

Como acentua Eugen Drewermann, «uma “criança” como Jesus não se preocupa se os discípulos lavam as mãos ou não antes das refeições; o que a seus olhos, define a personalidade de cada um, é aquilo que se encontra nos seus corações, os pensamentos, os sentimentos que estão neles» (Mc.7, 1-13)» (3).

 

Teresa Ferrer Passos

 

(1) Ob.Cit., Les Éditions du Cerf, 1992, Paris, pág.22.

(2) Ob.Cit., pág.45.

(3) Ob.Cit., pág.18.

 
 
 

 




 



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