TERESA FERRER PASSOS
CAMINHOS HISTÓRICOS DE S. BRÁS DE ALPORTEL

Integrada no género histórico, uma monografia sobre a história de S. Brás de Alportel veio a lume com o título Igreja e Instituições Religiosas. Da autoria do Padre Dr. Afonso da Cunha Duarte, constitui o primeiro volume de uma obra mais vasta dedicada à história social, cultural e religiosa de S. Brás de Alportel. Aqui está um novo título para a estante das bibliotecas dos habitantes da vila.

É um trabalho com muitas curiosidades e, sem dúvida, de grande qualidade. Desde notícias respeitantes aos escravos até às festas e procissões, desde os movimentos religiosos à especial devoção, desde a formação educacional do clero às actividades paroquiais e às associações caritativas, aqui está retratada a vida de muitas famílias nascidas na pequena vila da serra algarvia.

De notar, a referência biográfica a figuras que marcaram a vida social e cultural de S. Brás de Alportel e de várias cidades algarvias, como D. João de Melo e Castro ou Francisco Gomes de Avelar. O caso mais notável é, contudo, o de uma figura de dimensão nacional como foi o caso do grande teórico do poder político do século XVI, D. Jerónimo Osório (Ob.Cit., pág. 279).

No capítulo dedicado à actividade paroquial (Ob.Cit., págs. 67-151) destacamos as excelentes fotografias de peças sacras como relicários, âmbulas dos santos óleos (pág.75), a imagem de madeira de Santa Eufémia, livros da Fábrica da igreja do século XVIII, uma imagem do Menino Jesus de 1643 (pág.94), uma caldeirinha de água benta (pág. 110), quadros estatísticos do Fundo Histórico da Paróquia (págs.416-425) e muito mais...

O Padre Afonso Duarte assinala, em Igreja e Instituições Religiosas (volume I), vários problemas e um sem número de medidas tomadas no plano da acção social. Neste domínio chama a atenção para a grande importância do Albergue Paroquial que «admitia doentes, inválidos, crianças abandonadas, loucos, cegos» (Ob. Cit., pág.153).

A Comissão Paroquial da Campanha de Auxílio aos Pobres no Inverno é outro organismo de apoio aos grupos sociais mais desfavorecidos: «Numa das dependências dos Paços do Concelho, todos os dias, em romaria, centenas de pobres» esperam a distribuição de alimentos (Ob.Cit.,pág.155).

A Obra de São Francisco de Sales, desde 1909, procurou a «conservação e defensa da fé e reanimar a vida cristã. As «trezenas» de Santo António integravam a Obra do Pão de Santo António que «socorria os pobres mais necessitados com as esmolas oferecidas ao santo», informa-nos ainda o Padre Afonso da Cunha Duarte.

Além destes organismos sociais houve, ao longo da história de S. Brás de Alportel, muitas outras instituições de benemerência que auxiliavam as populações carenciadas da vila (em tempos mais recuados, aldeia), assim como os povoados mais próximos: a Obra Pia do Apostolado da Oração foi fundada em 1875; a Congregação das Filhas de Maria surgiria em 1915, dispondo de «uma pequena biblioteca onde as associadas podiam ler livros de formação religiosa» (pág.145); a Conferência de S.Vicente de Paulo acudia às situações de pobreza desde 1916 (pág.144), etc.

De muito interesse para a história da sociedade portuguesa é o capítulo que diz respeito às crianças abandonadas («expostos»), aos sinais identificadores das mesmas, ao seu baptismo e à mãe solteira (Ob.Cit., págs. 345-357). Como escreve o Padre Afonso Duarte «somente em 1669 aparece o primeiro registo (…). Mas, no século seguinte, houve um aumento significativo (…). De 1780 a 1789 nasceram 133 crianças e 38 foram expostas. No primeiro quartel do século XIX, registaram-se na freguesia 89 expostos (…)» (Ob. Cit., pág. 347).

O Padre Afonso Duarte em Igreja e Instituições Religiosas leva mais longe o seu árduo trabalho de investigação histórica, ao abordar a questão das «Superstições». A propósito, apresenta duas originais esculturas com a representação do Menino Jesus, um com corda ao pescoço, outro atado com fitas (Ob.Cit., págs.360-361).

A finalizar, será de grande interesse para o conhecimento das estruturas agrícolas da região sambrasense, o capítulo que estuda o chamado barrocal (S. Brás de Alportel-Loulé): a vinha, a oliveira, a figueira, a alfarrobeira, a amendoeira; os pastores, a serra, os hortejos, as ribeiras, as abelhas, etc. Refere-se depois ao museu etnográfico que organizou uma venda de artesanato e a primeira exposição etnográfica, no ano de 1984; no ano seguinte, realizou-se a II Exposição do Trajo com a ajuda da Câmara Municipal. Desde Novembro de 1998, a Paróquia começou a publicar o periódico (mensal) VilAdentro.

A obra levada a cabo pelo Padre Afonso da Cunha Duarte termina com um vasto acervo documental do Arquivo Paroquial de S. Brás de Alportel. O texto é enriquecido por numerosas fotografias como as do Livro do Cofre (1691) ou o Livro das Terças e Pensões (1702-1802) (Ob.Cit., pág. 414).

Uma riqueza conjunta de documentos nas mais diversas áreas da história do Algarve é pouco frequente. E tudo isto fica ainda à espera dos futuros bons historiadores que o alfobre das escolas de S. Brás e lugares das redondezas poderá oferecer aos seus conterrâneos e, de um modo mais alargado, ao seu próprio país. A obra Igreja e Instituições Religiosas, com as suas 462 páginas, será sempre um apoio imprescindível a qualquer pessoa que pretenda ter um conhecimento rigoroso daquilo que foi acontecendo, ao longo dos séculos, no Algarve serrano da região do Barrocal.

 

TERESA FERRER PASSOS

 
 

 




 



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