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TERESA FERRER PASSOS
A ELEGIA
OU O CANTO DO AMOR SAUDOSO




Desde a Antiguidade Grega (século VII a.C.), a elegia tem constituído um género literário cultivado em diversas vertentes, mas predominantemente na vertente amorosa. Como disse Horácio, a elegia começou por ser um canto de lamentação. Mais tarde, inspirou-se em temas mitológicos, guerreiros e patrióticos.   Caindo em desuso na Idade Média, retomou o seu caminho com o Renascimento, tendo sido cultivada por Camões, Diogo Bernardes e Sá de Miranda.

Reerguida do esquecimento com os pré-românticos, como a Marquesa de Alorna, já no século XX, seria Teixeira de Pascoaes a usá-la, nos poemas publicados no livro «Elegias», em 1913.  

É neste contexto que vamos abordar a última publicação de José Nuno Pereira Pinto, intitulada «Elegia II», agora dado a lume (Julho de 2004). Trata-se de um conjunto de dezassete poemas inspirados numa lembrança saudosa e impressionista de sua falecida Mulher. Vejam-se estes dois versos, em que José Nuno Pereira Pinto sublinha: «A tua Alma, em luz, eu a vi / na infinita fixidez do teu olhar!!» (p.12)  

De acordo com a tradição mais frequente ao longo dos séculos, a elegia é um género poético que, na verdade, se inspira (e espraia) nas relações amorosas entre o homem e a mulher. É, sobretudo, no tempo da angústia da separação, designadamente, provocada pela morte que separou os amantes, quase arrebatadoramente, que a elegia surge no seu maior esplendor exortativo. Por exemplo, os dois versos: «E tu, na urna, vestida de negrura da Partida!» (p.17) «naquele tempo temporalmente eterno, de assombro!» (p.13)   A elegia é, como expressão poética, uma das formas mais arcaicas da poesia eivada de impetuosa exasperação e funda vibração de sentimentos amorosos, quase sempre relacionados com um destino inesperado. Talvez por isso, José Nuno Pereira Pinto, depois de titular outra publicação, datada de 2003, de «Elegia», volte agora a dar à estampa «Elegia II».  

É, como o primeiro, um acervo de poemas inspirado na dor que deveras se instalou no seu quotidiano cinzento, marcado pela morte da amada. Mas, a grande diferença entre «Elegia» e «Elegia II» é que, neste último, a morte da amada se tornou ainda mais viva e cruel, ainda mais próxima e dilacerante: «Tudo, deste modo, inperecível é, mas tudo tem / a trágica dimensão de uma ausência física / nos sons, nas cores das flores e dos frutos / e o vazio atinge a dimensão de todo o espaço» (p.41).  

O amador e a coisa amada quase se chegam a confundir, à medida que o tempo passa. «Eu estou onde tu estás, nos inespaciais espaços» (p.21). Não é o tempo que faz esquecer. É o tempo que torna a memória mais viva. Por isso, há a «sede da memória das palavras» (p.22). É o tempo da separação a alongar-se e quase a ficar imóvel.  

É também o tempo da vida feliz em comum que se alarga, como se o passado estivesse mais no futuro do que no próprio passado. Meditemos nos três versos seguintes: «Busco o que me escapa pelos dedos» (p.22); «Como queimam agora os desenhos dos gestos» (p.24); «Que silêncios escorrem das paredes e dos vidros?» (p.26)

É, ainda, o tempo da revolta da própria natureza ferida pela impiedosa separação daquela Mulher. E revolta precisamente porque o amado, em desespero, nela ainda a procura: «Secou o alecrim.tombaram dois ramos do cedro.» (p.26) «Passam inquietas as sombras do quintal» (p.27)   A partida para sempre da Mulher, castrou o amor, esse amor a ser todo uma palpitação de vida e de quietude. A emoção, leva mesmo o Poeta, a fazer uma analogia com o mistério da Transfiguração divina, ao propor, senão mesmo a exigir, que se ergam «três tendas: uma para Ti, outra para mim e outra / para a Natividade? Em gloriosa Transfiguração!!» (p.18).

A angústia gerada pela saudade dos lugares por onde passavam, em suaves passeios, torna cada uma desta elegias uma fascinatente «história» de amor: «Aqui volto, peregrino, com a sensação anímica / real, que peregrinas a meu lado, na fruição / destas luzes, destes poentes, destes pinheiros.» (p.36); «e o vazio atinge a dimensão de todo o espaço!»(p.41).  

Depois, há todo o silêncio gerado pela lembrança dos momentos vividos nas horas do fim e que se repete a cada instante, a esvaziar de futuro a vida transformada numa «abóbada da noite» (p.40) e num «misterioso silêncio das coisas, / das aragens, dos murmúrios, dos piares nocturnos» (p.47).

E, na peregrinante saudade, José Nuno Pereira Pinto interroga-se, como se auscultasse na memória do futuro, ao longe e sob a névoa oculta, uma resposta: «Que coisas Desta Margem se dirão / na Outra Margem, se a ausência de um do Outro, / e do Outro para o Outro é que une o invisível / sensível, em esperança, lembrança e desejo?».    

Apêndice Poético de José Nuno Pereira Pinto

Tu, jacente, agora no leito que fora da tua dor,
agónica, acabada de cessar em plena inquietação!
Atonitamente deslumbrado, a teu lado ajoelhado,
Como se o transcendente caísse em minha alma,
gemente, desolada, inconsolável, nessa madrugada?
o horror da madrugada ? com a dimensão do Infinito,
a sorver, eu, em tropel, alucinante, os momentos,
do que for a o teu-nosso tempo, a partir daqui
finito! Oh! A finitude do finito do humano invólucro!

*

Nunca te contemplara tão esplendorosamente bela,
em tuas linhas, silhueta transfigurada de uma Alma,
feita agora, Pura Luz, para a tua Quietude!!!

Não enxutos os olhos meus, nem a Alma, onde coube
A incomensurável agonia da tua última contemplação!

E, em murmúrio agónico: E se aqui fizeramos, Senhor,
três tendas: uma para Ti, outra para mim e outra
para a Natividade? Em gloriosa Transfiguração!!

*

Eu estou onde tu estás, nos inespaciais espaços,
que as Almas clamam para se dizerem
como sombrios são e desertos estes caminhos
e as palavras se soltam débeis e incolores
dos ressequidos lábios e dos gestos e dos dedos,
porque tanto. tanto ficou por contar e dizer
e por viver e por ler e por contemplar, os dois,
à sombra das laranjeiras e do cedro, na derrama
de outras sombras líquidas das palmeiras ressumbrantes
de maresia, à pulsação do ritmo das ondas
do mar teu, o dos sonetos e dos olhos teus,
longos e brilhantes, a dardejarem a verde liquidez
levemente ondeante, a marcar-te o ritmo
interno da musicalidade das palavras
murmuradas, a transcrever nos teus poemas! 

 
«Elegia II», Ed. Amores Perfeitos, Vila Nova de Famalicão, 1ª edição, 2004 (pág.s 14, 18, 21, respectivamente).  

 




 



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