TERESA FERRER PASSOS
«UM RAMINHO DE JACINTOS»

(…) A transcendência descia aos vales e às vertentes dos precipícios, através do corpo da pequena Maria. Pela mágica muralha, a eleita ascenderia à montanha que Jesus ia subir. Tudo o que se estava a passar era uma teofania. Desde a Anunciação. Porque Jesus ia ser gerado no ventre da mulher para regenerar a vida com a arma do Amor e da Verdade. Mas não seria ela já, e desde a infância, idêntica a Deus?… Nestas interrogações difusas, a memória da mensagem do anjo ressurgia no coração de Maria. Quase a desfalecer de cansaço e ainda com a vibração gloriosa do tempo da Anunciação.

A imaginação dispersava-se em sucessivas visões oníricas. Depois, Maria sentia-se envolvida num delírio de entrega e de abandono. Um mar vastíssimo e luminoso morava no seu pensamento; miríades de inscrições lembrando a redenção salvadora tinham nela a aparência de pétalas de camélias vermelhas e brancas. De súbito, começou a ouvir sons vindo das suas entranhas. Era a voz muito frágil do menino. Encostava a cabeça sob o ventre insuflado de sua mãe. E Maria ouvia suaves palavras, mas ainda enigmáticas... “Devo ir ao Templo… os rabis discutem o Livro do Levítico, escrito pelos seus antepassados” dizia o pequenino, sem que Maria entendesse o que significavam aquelas palavras.

«Deves estar a falar da tua missão, meu filho, mas não tenho a certeza», disse Maria, sem pronunciar qualquer palavra. Temia que José ficasse ofendido com esta referência ao Templo. “Mãe, o céu é aqui, na terra, onde brotam as frágeis folhinhas e os frutos minúsculos muito verdes e duros e depois com o sol amarelecidos e de uma moleza aquosa”. «Que coisa maravilhosa é saber que gostas destas maravilhas que crescem ao nosso lado», disse Maria, cheia de alegria. “ Mãe, não imaginas como gosto de receber os beijos, as carícias com que me tocas no meu sangue, na película que me encobre… mas quero que saibas como será inútil procurares-me, quando não me encontrares”. «Como posso não te encontrar? porque me dizes isso?… mesmo agora, já vivo aterrorizada por saber que aqueles que não aceitarem a tua palavra, te odiarão, e deles receberás injúrias e te hão-de denunciar, condenarão os teus actos de amor como um crime, te perseguirão e depois serás humilhado no teu corpo e no teu espírito e julgado e perderás a vida muito cedo!» “Isso só acontecerá, minha Mãe, quando chegar a hora da redenção!” «Como me aterroriza pensar que tem de chegar essa hora, filho!»

“A minha hora é um instante sem tempo que me espera e a ti também na plenitude da alegria do amor de todos os puros, de todos os santos”. «Meu coração arde, filho, com medo do teu martírio, um jovem tão belo… e sabes como aguardo o tempo de estar na tua serenidade!» “O futuro é, para ti, Mãe, uma profunda gruta e nele só pode morar a certeza!” «Oh, filho, como a tua sabedoria me ilumina sem cessar! as minhas entranhas de sangue e de
humanidade, a envolver-te de amor, essa fidelidade sem limite, parece intensificar-se com o meu sofrimento! sem as minhas mãos para enxugar as tuas lágrimas… e nos teus olhos a imagem dos traidores… como me dói e me dá alegria pensar que romperás o meu ventre e logo te afastarás da minha intimidade de corpo! separar-me de ti um só instante é uma dor sem fim e ver-te neste mundo, onde passarás como cordeiro expiatório num tempo da Páscoa, vítima inocente da culpa!» “Nunca esqueças, mãe, que o meu nascimento é para cumprir uma grande missão! terei de discutir as sagradas escrituras com os senhores da lei, os rabis, e vou confundi-los… não se interrogam sobre os fundamentos do seu saber, e não serão perspicazes sobre o meu, muitas dúvidas os vão assaltar sobre o que lhes disser, não compreenderão os meus actos e deturparão as minhas palavras de Amor… há mistérios de que lhes vou falar que os intrigarão mais do que tudo o que têm estudado nos livros da tradição milenar dos cananeus e dos arameus e dos egípcios e dos gregos”, disse Jesus com a voz impetuosa e a fortificar-se.

«Meu filho, como me sinto cheia de alegria! basta ver todo o entusiasmo que está no teu interior, tão pequenino ainda, informe e a ganhar continuamente novos delineamentos num crescimento cheio de sonho» “Terei de estar preparado para um tempo em que terei de saber coisas que ultrapassarão muito a minha idade e a minha preparação… ainda não tiveste tempo de a elas ter acesso por intermédio do espaço sacral dos meus actos, que se prolongará a ti… e José vai ensinar-me muitas coisas que dizem respeito à minha natureza humana, como o ofício em que ele é mestre e de que já começo a gostar… ser carpinteiro tal como ele” «Como nenhuma das tuas palavras me é estranha e quanto me alegram, filho! como cuidas de me esclarecer com a tua transparência de luz!» “Tudo o que digo antes de nascer não é mais do que o dom do Amor divino a crescer em mim todos os dias!”. Um silêncio quebrou, de súbito, o diálogo de Maria com Jesus. E logo começou a pensar. «Como pude eu ser a eleita? Eu… precisamente eu…». Não conseguia deixar de se interrogar, porque o pedido do anjo fora para ela a mais inimaginável das coisas do mundo.

Depois, saudosa da presença do carinho daquela ténue voz, falou-lhe assim.

«Oh, meu pequenino, como me é difícil meditar nestas coisas sem voltar a ouvir, ouvir mesmo, ouvir… as palavras da Anunciação! as mais misteriosas palavras alguma vez proferidas a uma mulher…» “Palavras provindas do Pai…”

«Que emoção ver como me confidencias tantas novidades e todos estes segredos só para mim!» “Tu és a minha secreta morada” «Nada do que pensas deixas de me confidenciar, nada esqueces de segredar à tua humilde mãe…» “Eu gosto que me conheças, e ainda antes do meu nascimento!” «O meu corpo não limita já o teu Amor, filho! e como tu gostas que te conheça!» “Tudo faço para te dar alegria, como tu desejas dar-me todos os contentamentos… o que pedires, eu te darei… porque o Pai está em mim…” «A alegria transborda nas minhas veias e na minha carne e nos meus ossos e em todo o meu pensamento e em todos os caminhos que hei-de percorrer…» “Cada dia que passa me sinto a viver com mais intensidade…” «Vejo-te como um jardim inebriante de perfumes, onde reina apenas a paz e a pureza!» “O meu reino é um reino de crianças…” «Como nesta terra seria bom que reinassem só crianças!» “Mas, em ti, Mãe, começo a sentir o meu tempo novo…” «Tu vives dentro de mim como um gemido de amor… tu és em mim o peregrino de uma nova idade, a passagem para um tempo de esperança…» “Aquele que disser que acredita em mim, terá de ser aquele que vive como se fosse sempre criança, mesmo no tempo da velhice!” «Tu és, meu filho, o menino eterno que brinca com as crianças descalças da Palestina como o Pai por quem não passa o tempo e é eterno, brinca ainda com os búzios do mar, com a graciosa gazela na planície e com as asas esvoaçantes das aves ao pôr-do-sol!» “Mãe, a tua concha é o meu sustentáculo na solitária Terra, e aí invento o espaço de um pequeno céu”.

Nesse momento, o pequenino calou-se. Então, Maria inclinou a cabeça sobre o ventre, num cansaço esculpido de contentamentos. “Vejo como estás contente, mãe!” disse. Ria-se muito e parecia dar pulos impetuosos dentro dela. O seu riso era já muito menos débil e mais nítido. Então, Maria riu-se também. E começou a olhá-lo sem o ver. Depois lembrou-se das palavras que tinham dado origem àquela conversa… Que contentamento não teria Maria, só de imaginar o seu menino ainda por nascer e já a pronunciar as palavras que soam mais alto que as dos profetas Oseias ou Jeremias… Mais tarde, já no Templo, defrontando doutores cheios de filáucia, insensatos, e, com frequência, ensinando as suas petulantes certezas, debruçando-se sobre qual é a vontade e os desígnios de seu Pai, ajuizando sobre os seus conselhos e avisos, quase sempre com variados e estranhos pensamentos. Tudo isto acontecia também quando lhe punham questões inesperadas, muitas vezes para o intimidar, querendo fazê-lo cair em ciladas, sobretudo por inveja e despeito da sua inexplicável sabedoria. “Não sabes, Mãe, como temo um pouco esse confronto… não me pode faltar o auxílio de meu Pai” E Jesus não disse mais nada.

Este silêncio mais prolongado fez com que Maria temesse que o menino se tivesse escondido mais no interior de si própria. Nesse instante, um gritinho deu-lhe novo alento e logo concluiu que era ainda a sua pequena folhinha de vida que falava de novo: “Mãe, sinto o perfume tão penetrante das flores brancas de nardo que está entre as tuas mãos, flores tão macias e de uma leveza só superada pela que oferece a resina dos altos ciprestes” «Filho, como te deste conta que o coloquei mesmo sobre a tua forma alongada, onde me parece sempre que estás a brincar, muito divertido, com os mais pequenos fragmentos do meu corpo! colhi as flores de nardo com todo o meu pensamento concentrado na tua vozinha branda e a erguer-se num castelo de sabedoria divina» “Esse aroma tão intenso não é muito diferente do teu próprio odor, Mãe” «As minhas entranhas têm o perfume da flor do nardo?!».

“Sim, e gosto muito, nem calculas quanto, de o receber continuamente, só de ti… não imaginas como sobe devagar até às minhas pequeníssimas narinas, e já o consigo inspirar como a uma brisa de vento”.

[Fonte: Teresa Ferrer Passos, «Anunciação», Lisboa, Universitária Editora, 2003, pp.167-171]
 
 

 




 



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