TERESA FERRER PASSOS
A NOVA BASÍLICA EM FÁTIMA
1. «Sobre o fundo das palavras da "Avé-maria" passam diante dos olhos da alma os principais episódios da vida de Jesus» (1)

Em 13 de Outubro deste ano de 2007 abriu ao culto mais uma Basílica construída no limite sul do recinto envolvente da capelinha das Aparições da Virgem Maria, em Fátima. No limite Norte já existia uma Basílica dedicada à Mãe de Jesus Cristo. Este novo templo invoca a Santíssima Trindade. Tem nove mil lugares sentados e espaços para o sacramento da reconciliação. Há passagens bíblicas nos muros exteriores, traduzidas para vinte e três línguas, abordando o carácter trinitário de Deus, o Pai, o Filho, Jesus, e o Espírito Santo, por quem Maria O concebeu, por Sua obra e graça.

Mas porquê a construção de mais um grande templo naquele recinto onde, para além da capelinha solicitada por Maria, havia ainda uma basílica que lhe foi dedicada?

O seu custo ascendeu já a sessenta milhões de euros. Segundo fontes eclesiásticas foi construído com as ofertas dos cristãos que ali veneram a Virgem Maria.

2. «O terço converge para o Crucificado que desta forma abre e fecha o próprio itinerário da oração» (2)

As opiniões sobre a construção da Basílica da Santíssima Trindade são todas, mais ou menos, consensuais. Segundo uns, parece um auditório para espectáculos profanos; para outros, até poderá ser um «jeitoso T8» (3).

O aspecto arquitectónico, tanto exterior como interior, enquadra-se no estilo cubista tão característico da arquitectura civil. As dimensões exorbitantes relativamente ao que seria necessário, impõem-se: na área destinada ao sacramento da Confissão (agora chamado da Reconciliação), há corredores com 150 metros, há salões de espera de atendimento com 600 lugares sentados (a maioria dos cinemas de Lisboa são mais pequenos), se os peregrinos forem portugueses; se forem estrangeiros, há outros 120 lugares sentados. Quer para uns, quer para outros, há ainda 32 salas/gabinetes, respectivamente, com vista a cada peregrino receber o sacramento referido.

«Gente sentada e gente de pé», escreve Frei Bento Domingues na sua crónica no jornal O Público. E acrescenta: «Para gente de pé, continua o recinto da Cova de Iria , a maior basílica do mundo a céu aberto (...). A divindade não precisa de templos para habitar entre nós (...)». Na verdade, «o coração humano, em espírito e verdade, é a sua morada e o mistério da Santíssima Trindade, a nossa ilimitada habitação: nele  vivemos, nos movemos e existimos (Act 17, 28)». (4)

Para preencher os vastos espaços, foram seleccionados três papas: Pio XII, por ter consagrado o Imaculado Coração de Maria ao mundo inteiro, em 1942, e tê-la coroado (Coroa de Ouro), em 1946. Paulo VI, por ter visitado este santuário mariano em 1967. João Paulo II, por ter vindo rezar à capelinha das Aparições após ter escapado com vida ao atentado que sofreu, no dia 13 de Maio de 1981. Mas, como se não fossem o suficiente, foi também colocada a estátua do 1º Bispo depois da restauração da Diocese, D. José A. C. da Silva.

3. «Repetir o nome de Jesus (...) enlaçado com o de sua Mãe Santíssima, e de certo modo deixando que seja Ela própria a sugerir-no-lo, constitui um caminho de assimilação que quer fazer-nos penetrar cada vez mais profundamente na vida de Cristo.» (5)

A dimensão da estatuária papal é pouco consentânea com o local em que se insere. Estamos num santuário de Maria, escolhido por Ela própria para ter uma pequena capela sob a sua invocação. Afinal, a imagem de Maria, Mãe do Filho de Deus e nossa Mãe, é bastante mais reduzida em tamanho. O Papa João Paulo II é mesmo colocado num lugar mais destacado e visível do que a Rainha do Céu, no seu santuário em Portugal. Como pediu, Maria está recolhida na pequenina capela que solicitou aos pastorinhos de Fátima.

A verdade é que a maioria dos crentes se desloca a Fátima para rezar junto da capelinha das Aparições, ou seja, no local onde foi escutada por Lúcia a «Senhora mais branca do que a luz do Sol». E aí está a pequena capela  para nela ser visitada e poder ser, junto dos povos, uma Mãe atenta aos seus filhos. Atenta a esses filhos que Jesus identificou com o seu discípulo João, junto da Cruz: «Eis aí a tua Mãe» (Jo 19, 27).

4. «À luz da própria Avé-maria nota-se claramente que o carácter mariano não só não se opõe ao cristológico como até o sublinha e exalta. (...) O Rosário torna-se verdadeiramente um caminho espiritual, onde Maria faz de mãe, mestra e guia, e apoia o fiel com a sua poderosa intercessão» (6)

As portas da Basílica da Santíssima Trindade, em número de treze, alternam com paredes cobertas de mensagens extraídas dos Livros Bíblicos. Estas mensagens, ao sobrevalorizarem profetas e apóstolos, fazem o peregrino perder-se da Mãe em Jesus Cristo, divinal e protectora, que ali chamou à conversão os pecadores porque o Pai do Céu já estava muito ofendido. Não seria mais lógico haver sobretudo passagens das Memórias de Lúcia, ouvidas à Senhora do Rosário de Fátima? Se estamos num santuário mariano, como dar relevo sobretudo àqueles que lhe são alheios e de quem a Virgem Maria não falou?

Tudo aquilo que no santuário de Fátima é estranho a Maria não desperta qualquer interesse àqueles que visitam o local. A finalidade dos peregrinos em Fátima é honrar, venerar e orar a Maria, Mãe de Jesus e Mãe de Deus, conforme a Anunciação do Anjo. Veja-se a grande emoção que envolve os peregrinos ao incorporarem-se na Procissão das Velas e na Procissão do Adeus. Na Cova de Iria, Maria conduz o Povo ao Filho, a Jesus; Maria indica a cada um, na imagem do Filho, o Pai. Lembremos as frases de Jesus: «Sede perfeitos, como Meu Pai é perfeito», «Quem Me vê, vê o Pai». Por sua vez, Maria tem na Sua voz, a voz do Espírito Santo que a escolheu, como anunciou o Anjo, para Mãe de Seu Filho, Jesus, o Príncipe da Paz.

Nem no dia da inauguração, os fiéis presentes tiveram interesse em ler as epígrafes gravadas nas paredes externas. Por outro lado, a sua profusão é de tal ordem que desmotiva a leitura.

Naquele lugar especial, Maria falou aos pequenos pastores para ensinar à humanidade aquilo que o Espírito Santo queria que lhe fosse revelado, nesse ano de 1917. Aqui, na Cova de Iria, o ensino, ou é o da Palavra de Maria, Mãe de Jesus, ou forçando a pedagogia da Santíssima Trindade, esta só pode cair no vazio. Logo, presta-se ao desinteresse, à indiferença.

5. «Neste processo de configuração a Cristo no Rosário, confiamo-nos, de modo particular, à acção maternal da Virgem Santa (...). O primeiro dos "sinais" realizado por Jesus − a transformação da água em vinho nas bodas de Caná − mostra-nos precisamente Maria no papel de mestra, quando exorta os servos a cumprirem as disposições de Cristo» (7)

Como disse, recentemente, o Papa Bento XVI ao bispo António Marto da diocese de Leiria-Fátima, "Fátima é escola de fé com a Virgem Maria por Mestra". Neste lugar das alturas da serra d'Aire, Maria, "da sua cátedra, ensinou aos pequenos Videntes e depois às multidões as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar"(8). E na Encíclica Spe Salvi (Salvos pela esperança), recentemente publicada, Bento XVI acentua que Maria é a «estrela da esperança», dessa «esperança cristã que tem os outros como horizonte» (a última parte da Encíclica Spe Salvi, é dedicada à Mãe de Jesus).

A Basílica da Santíssima Trindade é um templo com muitas portas, mas no modelo que Jesus nos dá do Céu, Ele diz-nos que aí só há uma porta e que ela é estreita. No interior da nova Basílica há um largo mural de terracota coberta de ouro.  Não será um «bezerro de ouro», em má hora colocado no Santuário mariano? Esta ideia lembra-nos esse célebre «bezerro de ouro» que o povo de Israel, no tempo de Moisés, introduziu no templo, após fazer fundir o ouro das jóias das suas mulheres, para adorarem esse ídolo, símbolo da riqueza, substituindo o seu Deus e Senhor. Mas o Senhor disse a Moisés: «O povo está pervertido. Fizeram um bezerro, um ídolo de ouro (...). A Minha cólera vai inflamar-se contra eles» (Êx 32, 1-10).

Aqui, também, parece estar presente um certo «bezerro de ouro». Aqui, no lugar que os Céus tinham escolhido para celebrar a Mãe, bendita entre as mulheres e cheia de Graça, se recita todos os dias o Terço, sem esquecer  o Pai Nosso e a Salvé-rainha. E, precisamente, nesta última oração, os peregrinos pedem-Lhe para que depois desta vida "nos mostre Jesus" e que "rogue por nós para que sejamos dignos das promessas de Cristo".

Na Cova de Iria, Maria mostra, claramente, a Lúcia, Jacinta e Francisco, que "está em risco a salvação eterna dos seus filhos e, por isso, repete o apelo de Jesus: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». (Mc 1,15). A mensagem de Jesus torna-se assim a mensagem de Maria" (9). E a mensagem de Maria aos pequenos pastores de Fátima foi repleta de palavras de humildade, a começar pela capelinha onde caberiam poucos, mas onde à sua volta, uma multidão teria sempre lugar ao Sol ou à chuva, mas sempre a sentir uma fé inquebrantável.

 

 6 de Dezembro de 2007

Teresa Ferrer Passos*

* www.harmoniadomundo.net

(1) João Paulo II, O Rosário da Virgem Maria − Carta Apostólica, p.7.

(2)  Idem, Ibidem, p.49.

(3) Internet, Blog Movimento da Mensagem de Fátima , Ermesinde.

(4) Frei Bento Domingues, Público, 15/ 10/2007.

(5) João Paulo II, O Rosário da Virgem Maria − Carta Apostólica, p. 46.

(6) Idem, Ibidem, pp. 45 e 50.

(7) Idem, Ibidem, pp. 20 e 21.

(8) Fátima Missionária, nº 11, Dezembro de 2007, p.34.

(9) Almanaque de Nossa Senhora de Fátima, 2008, p.68.

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