TERESA FERRER PASSOS
Oração breve a S. João de Deus

Sem julgares os pecados de teus irmãos, sofres pelos teus, e são tantos, dizes. Percorres as ruas da cidade como um louco, para se rirem de ti, o pecador. Chamas a atenção do povo por actos impróprios da lucidez. Queres ser o algoz de ti próprio, precisamente tu, tu que foste tão contrário a Jesus. Tu que participaste nas guerras ao serviço dos grandes, queres fazer justiça contra ti próprio, por tuas próprias mãos, tu que pecaste tanto naquelas guerras «santas»…

Cobres o corpo de ridículo para que te chamem ridículo, cobres o corpo de escárnio para que te escarneçam, cobres o corpo de desprezo para que te desprezem. E o povo chama-te louco e criva-te de pedras, na cidade. Na bela cidade de Granada. Acusam-te de louco porque te comportas como se o fosses, porque desejas esse insulto, tudo isto depois de te teres convertido ao Sacro Coração Jesus.

Para ti, a guerra deixou de ter sentido, depois de ouvires o sermão de João de Ávila. Agora, convertido, a tua vida já só tem um sentido, o sentido do amor, de que Jesus falava. E com pedras de escândalo te adornas nas ruas pejadas de insultos, nas gentes estultas gritando a tua demência.

É assim que segues, coberto de dores físicas e dores do espírito, esse espírito tão arrependido. Segues a orar por mais castigos, talvez precises até dos tormentos infligidos aos loucos arredados do convívio da lucidez. E provocando, mais e mais, as pessoas lúcidas,  és conduzido ao hospício, o lar dos loucos. És só mais um deles e, como eles, és açoitado com o baraço de cordas, é assim que os enfermeiros  os «curam» das fúrias e das angústias…

Então, sabes como é cruel esse «tratamento», e como, só por isso, se impõe deixares que te continuem a supliciar, mesmo merecendo, porque é preciso terminar os suplícios infligidos sem justeza, a esses pobres loucos.

Mostras, célere, uma paz seráfica, uma passividade sã, uma fisionomia conformista. Vêem-te numa harmonia contigo próprio, espantas aqueles que, com crueldade, dizem poder «curar» os doentes do espírito. Dão-te por «curado» da loucura… Agora, sabes que tens de trazer, enfim, aos loucos do hospício, um tratamento todo feito de grande carinho, de grande amor, conforme a palavra de Jesus. E deixam-te sair de entre aqueles doentes, seguir para as ruas. Entregam-te até uma carta de liberdade por estares são, estares «curado». Então, deixas o hospício nefando, livre e com o amor no coração para o dares a todos os doentes, sejam eles do corpo ou da mente, sem diferença, porque não há verdadeira diferença entre eles.

É preciso ser rápido porque aqueles doentes sofrem sem razão, sem ter pecado, como dizes ter tu pecado. Tens a certeza que, afinal, Jesus não quer que sofras o ódio contra ti próprio, apesar de, como proclamas, tantos pecados teres cometido. Jesus quer ver-te, a ti, a quem ele, num certo dia da tua aventurosa vida, ouviste chamar «João, João de Deus!», ao seu serviço. Mas servir só com amor, só com amor a ti e aos desvalidos. O que Jesus, afinal, quer, é que espalhes amor pelas vítimas da injusta loucura que não é pecado, mas inocência.

Como carregas aos ombros as suas dores e descobres o néctar da suavidade que sara as feridas da sua alma.
    
Como susténs o desalento negro em que mergulham.

Como esvazias o vazio que acossa as suas vidas.

Como agarras as suas mãos fracas com ternura.

Como sentes as suas faces a tombar sobre o teu peito, agora cheio de amor para amparar os mais fracos.

E, sem hesitar, ofereces aos doentes que encontras pelas ruas, não um infame hospício, mas uma Casa, toda ela erguida sobre os alicerces do amor. Pedes esmola, passas fome. Mas vives, finalmente agora, sem pensar nos castigos que hás-de dar aos teus pecados. Esses teus pecados a redimirem-se pelo amor aos abandonados, pelo amor às vítimas da injustiça, como os loucos, e tantos outros, no hospício deixados. E as vítimas da violência começam a ser dignas de viver com a paz, mesmo nos seus espíritos doentes, conturbados.

16 de Novembro de 2008

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