TERESA FERRER PASSOS
«EXORTAÇÃO APOSTÓLICA»
«Que pode a alma desejar mais ardentemente do que a verdade?»
Santo Agostinho

O Papa Bento XVI tornou público o documento Sacramento da Caridade Exortação Apostólica Pós-Sinodal de Bento XVI (Internet, Agência Ecclesia) que se debruça sobre a importância do sacramento da Eucaristia, colocando esta cerimónia litúrgica como o centro da vida do cristão. A repartição do pão por Jesus Cristo, durante a última ceia com os apóstolos, é o mais importante acto memorial antes da Sua Paixão, Morte na cruz e Ressurreição.

Destacar o plano em que se encontra a Eucaristia e as suas muitas implicações é o objectivo iniludível desta Exortação Apostólica de Bento XVI. A «doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem» transfere-se para este Sacramento que o Papa designa Sacramento da Caridade porque «a verdade do amor, que é a própria essência de Deus», é-nos oferecida por Jesus.

Apelando ao pensamento de Santo Agostinho, de S. Paulo ou de S. João, entre outros, o Papa reflecte sobre a riqueza espiritual da Eucaristia, interpretando-a como o verdadeiro «mistério da fé» em Jesus Cristo. Na atracção que o Deus encarnado exerce sobre nós, ou seja, na atracção que a Face e a Palavra de Jesus exerce sobre cada um de nós, podemos descobrir o valor supremo da Eucaristia.

É na repartição do pão que Jesus se dá a Si próprio. Dá-se para salvar, não para condenar. Dá-se «para dar a vida ao mundo», dá-se para que n’Ele possam viver os pecadores que se arrependam e tendo em vista não voltar a pecar. Assim se compreende que diga aos apóstolos: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu». Aqui o pão vivo é de natureza divina, não material. E, depois mostra o seu desejo de que nada disto seja esquecido, mas antes recordado, como se Ele próprio continuasse com eles: «Fazei isto em memória de mim».

Neste mistério da fé, Bento XVI afirma que vemos o mistério no facto de ser o próprio Jesus a provocar-nos no sentido de não nos perder de vista, de estarmos sempre na sua proximidade espiritual. E, por isso, sempre que recebemos o pão que vem de Jesus, Ele como que nos consegue «arrastar para dentro de si».

Concebido no seio da Virgem Maria por obra do Espírito Santo, Jesus é o Filho de Deus que encarnou para que o Pai fosse testemunhado. A criatura humana, «feita à Sua imagem e semelhança» era a Sua Obra mais amada. Eram os Seus filhos muito amados. Pela activa participação de Maria na encarnação do Filho de Deus-Pai, Ela própria não se alienou do mistério da Redentor. A mãe de Jesus torna-se a própria Mãe da humanidade, como se apressou a dizer Jesus ao apóstolo João, prestes a expirar na Cruz.

«A Eucaristia é Cristo que Se dá a nós, edificando-nos continuamente como seu corpo», escreve Bento XVI. E, neste passo da Exortação Apostólica, lembra: «Será, por todo a eternidade, Aquele que nos amou primeiro». «Aquele que nos amou primeiro», eis a expressão que oferece a certeza de que Jesus ao dar-Se, está a dar o Pai. Esse Pai que a todos criou com o Amor inultrapassável que um verdadeiro pai tem pelos seus filhos.

 Ao mesmo tempo, Jesus é o testemunho e é a testemunha do Pai. O sentido de retribuição da doação dos fiéis neste Sacramento resulta precisamente desta antecipação do Amor do Pai em relação aos seus filhos. Tal é a força da comunhão −  através de Jesus −, com o Pai, que Bento XVI fá-la corresponder ao vínculo atribuído a outro sacramento, o sacramento do matrimónio.

Está presente na celebração da Eucaristia o consentimento mútuo entre Jesus e aquele que quer recebê-lo. Depois, a celebração alarga-se à vida quotidiana que ganha a dimensão da transferência do «pão vivo» que vem do Céu. Comunicação que é uma presença de Jesus naquele que n’Ele acredita. Um único sentimento, um sentimento exclusivo de amor, idêntico ao do matrimónio, está na Eucaristia, escreve o Papa. Há aqui como que uma nupcialidade entre Jesus e quem recebe o Seu corpo, o «pão vivo» de Deus.

O Corpo de Deus entrega-se ao penetrar aquele que se arrepende e quer redimir-se. Desta união, nasce o «carácter esponsal da Eucaristia». Uma ligação indestrutível cria-se quando o fiel recebe em si próprio o «pão vivo» que Cristo transfere para o crente. Portanto, o fiel obtém a graça de uma união impossível de desligar, porque é firmada no Amor absoluto do Pai. Também no sacramento do matrimónio, se encontram essas características, assentes no amor verdadeiro que é sempre incondicional.

A Eucaristia é inclusivamente um dom do «homem a caminho», do ser humano a caminho da meta sagrada. Um homem a caminho é um homem que não olha para trás, ou seja, um homem que vê os erros redimidos pelo seu arrependimento, vê os fracassos do seu passado como uma sombra a apagar-se ante os rumos que o Pai lhe propõe, se ele O souber escutar na oração maior que é o silêncio do espírito. A Eucaristia tem o dom de fazer o pecador olhar em frente, rumando, sem medo, para a Casa do Pai que se começa a construir já aqui, no nosso mundo.

A Eucaristia é um sacramento de redenção, ou seja, virado para o perdão e para a conversão do pecador; é o sacramento da ressurreição interior e do ressurgimento do homem. Um homem novo surge porque recebeu a graça de se tornar uma nova criação. A criação de um novo mundo dentro da sua consciência humana, que nunca deve esquecer a distância entre o bem e o mal, mas antes tê-la sempre bem nítida.

«Vai e não voltes a pecar», diz Jesus à mulher adúltera. Não voltar a pecar, eis o caminho aberto pela Eucaristia, sacramento por excelência da construção contínua de um homem novo a atingir a santidade, para a qual a misericórdia do Pai nos procura conduzir.

O Papa Bento XVI, nesta tão oportuna quanto bela «Exortação», não deixa de chamar a atenção para a presença da Virgem Maria no sacramento da Eucaristia, devido à sua «completa disponibilidade à vontade de Deus» desde a Anunciação do Anjo. Ao receber o Filho de Deus em si própria, ela envolve-se na missão redentora de Jesus. Ela comparticipa na obra redentora de Jesus. Diz-nos o Sumo Pontífice: «Desde a anunciação até à cruz, Maria é Aquela que acolhe a Palavra que n’Ela Se fez carne e foi até emudecer no silêncio da morte (…) Ela é a Imaculada que acolhe incondicionalmente o dom de Deus, e desta forma fica associada à obra da salvação».

Outro aspecto relevante desta Exortação Apostólica é a importância que Bento XVI dá às cerimónias que estão associadas à celebração da Eucaristia. Por exemplo, coloca a beleza absoluta de Deus em sintonia com a liturgia da missa. Citando São Boaventura, lembra que «em Jesus contemplamos a beleza e o esplendor das origens». A beleza e a harmonia do universo, a beleza da criação, a beleza de todos os seres, cada um com as suas características próprias, mas sempre harmoniosas, a beleza do canto dos pássaros, a beleza das flores e das florestas, a beleza das miríades de estrelas e das majestosas galáxias do universo, e em que o nosso planeta Terra é uma bênção do divino, tudo nos conduz à ideia de quanto Deus preza a beleza. Basta olharmos a sua obra criadora.

Assim, para o Papa, todos os actos litúrgicos devem ser revestidos de beleza, desde os paramentos dos sacerdotes ao vestuário dos leigos, desde os cânticos solenes aos instrumentos usados, desde os objectos da mesa do altar, à arquitectura das igrejas, desde a sua decoração pictórica às flores a espalharem-se entre as imagens, desde as figuras escultóricas às leituras dos Livros Sagrados. Como Bento XVI acentua «em tudo quanto tenha a ver com a Eucaristia, haja gosto pela beleza (…) para que (os fiéis) alimentem o enlevo pelo mistério de Deus, manifestem a unidade da fé e reforcem a devoção».
 Muito particularmente no que respeita ao canto litúrgico, o Papa Bento XVI chama a atenção para a beleza do tão sublime e, ao mesmo tempo, pleno de simplicidade, canto gregoriano. A harmonia, a leveza, a espiritualidade dos cânticos de louvor a Deus acompanhados pelo órgão, o violino ou a flauta podem oferecer toda a elevação do acto litúrgico, sempre indissociável da Eucaristia. Neste documento pontifício, também é feita uma chamada de atenção para serem promovidas «as formas de oração confirmadas pela tradição: a Liturgia das Horas, sobretudo Laudes, Vésperas, Completas, e ainda as celebrações das Vigílias».

 A oração dos Salmos, as leituras bíblicas e as da grande tradição apresentadas no Ofício Divino podem levar a uma «experiência profunda do acontecimento de Cristo». Tudo isto será a iniciação indispensável a uma vida quotidiana virada para o sagrado de que Jesus Cristo é o Mensageiro. A meta de todas as actividades deve ser o próprio Deus que nos escolhe, que nos atrai, que nos acolhe e ama como filhos para que, na liberdade do amor, todos procurem a verdade como único destino.

Preocupado com a dessacralização da nossa época, Bento XVI escreve na Exortação Apostólica : «Os fiéis (…) aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo Mediador, progridam na unidade com Deus e entre si».

Neste documento, o Papa preocupa-se com a atenção a dar às acções humanas que deverão ser fiéis à Palavra de Jesus. Nesta passagem, o Papa não deixa de destacar as relações da Eucaristia com os doentes e os presos. Os doentes cujo sofrimento parece inútil ou sem sentido; os presos que, à primeira vista, são irrecuperáveis. A verdade é que ambos são temporariamente privados de liberdade para se realizarem integralmente. Mas os doentes, privados do uso de parte do seu próprio corpo, podem juntar-se sempre a Jesus Cristo pelo espírito e pela oferta do seu sofrimento; do mesmo modo, os delinquentes que se arrependam dos seus pecados, através da Eucaristia e, em consequência do seu carácter redentor, podem oferecer o castigo, que estão a receber, ao Pai que, mesmo assim, os ama como filhos, na sua grande misericórdia. É o próprio Jesus que oferece o perdão, como meio de reconciliação com o Pai, o que lhes permite reconverter, transformar a sua vida futura.

 Os doentes e os presos (de delito comum ou por razões politicas) podem tomar parte na redenção dos pecadores, ser um com Cristo alcançando uma comunhão activa do seu sofrimento com o próprio Deus-Pai (visível na Paixão de Jesus) que quer conduzir os seus filhos à Salvação. Para o Sumo Pontífice «a Eucaristia torna possível dia após dia, a progressiva transfiguração do homem, por graça chamado a ser conforme à imagem do Filho de Deus». Citando S. Paulo, Bento XVI conclui: «A glória de Deus é o homem vivo».

A vida quotidiana torna-se o laboratório de cada experiência eucarística daqueles que crêem em Cristo. Isto porque, como apela S. Paulo, há que mudar os nossos sentimentos mais primários, há que transformar a nossa vida, há que conciliar aqueles que estão desavindos, há que trilharmos, nós próprios, um caminho que leve à perfeição. É isso que o Pai, de Quem Jesus é o Rosto, espera de nós. Escreveu S. Paulo: «Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente».

Mais adiante, a Exortação Apostólica toca o problema, a banalizar-se na sociedade contemporânea, que é o problema da própria «defesa da vida humana desde a concepção até à morte natural, da família fundada sobre o matrimónio entre um homem e uma mulher». Ao aflorar esta delicada questão, Bento XVI procura levar o cristão a não se deixar abafar, mesmo silenciar, sob a influência de uma sociedade a caminho da desagregação ética e da total relativização do mal.

O sacrifício da Paixão de Jesus Cristo «é mistério de libertação que nos interpela e provoca continuamente», diz Bento XVI. Como sacramento da Caridade, ou seja, do Amor, a Eucaristia «aspira à santificação do mundo». E insiste: «na relação entre a Eucaristia e o universo, descobrimos a unidade do desígnio de Deus e somos levados a individuar a relação profunda da criação com a “nova criação” que foi inaugurada na ressurreição de Cristo».

A Eucaristia é um «encontro com Cristo ressuscitado». Nesse encontro, o pecador ressuscita com Cristo, conquistando pela graça divina uma nova existência. Uma existência virada para a felicidade que é sustentada por um espírito alimentado continuamente pela alegria que oferece a sensação de paz dentro de nós, uma paz tão plena que nos tornamos capazes de esperar na paciência que vive de uma grande esperança, na misericórdia divina. A terminar a Exortação Apostólica sobre o sacramento da Caridade, Bento XVI escreve: «Os votos que reciprocamente formulamos sejam os de irmos cheios de alegria e maravilha ao encontro da santíssima Eucaristia, para experimentar e anunciar aos outros a verdade das palavras com que Jesus Se despediu dos seus discípulos: “Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos”»

31 de Março de 2007
Teresa Ferrer Passos

 
 
 

 




 



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