TEOLINDA GERSÃO
A CASA DA CABEÇA DE CAVALO
Cena 6

(Os actores voltam as cadeiras para o público e sentam-se).

Ercília - Está na hora do chá.

(repete-se o ritual, passando o bule e as chávenas vazias, ou fazendo só os gestos)  

Januário – Lembram-se do corvo Claudino, que andava atrás das pessoas latindo como um cão ?  

Todos – Do corvo Claudino?  

Januário – Não se lembram do corvo?  

Todos – Não!  

Januário – Não é possível, era o corvo que eu treinei para ir chamar as pessoas no andar de baixo, quando eu estava doente, no andar de cima, e se esqueciam de mim.  

Horária - Nunca existiu nenhum corvo, tenho a certeza.  

Benta - E a família nunca se esqueceu de si, que ideia agora.  

Inácio - É uma recordação inexacta  

Januário - Mas estou a vê-lo como se aqui estivesse – as penas pretas, lustrosas, um ar desconfiado, nunca doméstico, apesar de se colar aos calcanhares das pessoas, no corredor -  

Inácio - É uma recordação inexacta, podes crer.  

Januário, preocupado – Será possível que eu esteja a baralhar as coisas? A confundir tudo? A perder a memória?  

Ercília, prática

Vamos testar a memória : O que era a mão do regador ?  

Januário - A parte dos furos, por onde saía a água  

Ercília - E como se engaçava a terra? E se escanava o milho? De que cor era a flor do tremoço?  

Carmo - Azul  

Januário triunfante - Pois fique sabendo que era amarela, e a da abóbora também.  

Carmo, duvidando – Amarela?  

Benta - Amarela?  

Januário - Sim, sim, e a flor da abóbora crescia rente ao chão, e a sua forma lembrava um pouco os gladíolos.  

Inácio, duvidando - Como podes ter tanta certeza?

(reflectindo) Para dizer a verdade, eu não me lembro.  

Januário, triunfante - Mas eu tenho a certeza. Anotei nos meus apontamentos.  

Inácio – Devíamos escrever tudo o que nos lembrasse. Para não perdermos a memória.  

Todos - Devíamos escrever.  

(Entra um livro com dois metros ou mais de altura, empurrado sobre um cavalete com rodas. Vem aberto, com o papel em branco. O livro intimida-os e assusta-os.)  

Inácio - Januário devia escrever. Já que em vida andou sempre atrás dos livros.  

Januário - Ora essa, pode ser qualquer de nós. Porquê eu?  

Carmo - Eu tenho má letra  

Benta - Eu pouco sei escrever  

Ercília - Eu erro a ortografia  

Horária - Eu vejo mal ao perto  

Inácio - Eu parti os óculos  

(Inácio vai buscar um escadote, uma caneta de aparo móvel, muito grande, e um tinteiro gigante.

Januário suspira e sobe ao escadote. Mergulha a caneta na tinta e faz menção de escrever, mas não escreve.Tenta várias vezes, molhando a caneta na tinta, mas desiste. Pousa a caneta e o tinteiro e senta-se em cima do escadote.)  

Januário - A escrita é muito imperfeita. O essencial nunca lá está. Os cheiros, as cores, os climas. Ambientes. Temperaturas. Essas coisas escapam sempre.  

Ercília - Lembro-me por exemplo do começo do verão.  

Benta - A Casa enchia-se de risos e de vozes.  

Carmo - Era a altura das festas.  

Horária - E dos casamentos.  

Ercília - Não parecia estar-se no começo, mas no meio do verão. O verão rebentava de repente pelo meio como um fruto maduro. Uma azáfama, uma febre, uma pressa, alterava o sangue e as pessoas endoideciam um pouco. 

Januário - Desculpar-se-iam mais tarde, é claro, com razões plausíveis – os preparativos, as voltas que tinham de dar para que tudo estivesse pronto no dia marcado.  

Ercília - Mas tudo isso eram desculpas. A verdade é que se endoidecia. Como se andassem no ar grãos de loucura, misturados no pólen e no vento.  

Inácio - Ou então era o ar que embriagava. Homens barbados e sisudos experimentavam na feira um chapéu novo, ou exigiam pelo menos uma fita nova no chapéu, mulheres de mãos gretadas davam consigo a disfarçar nas ancas as pregas da gordura.  

Januário - Rapariguitas que até aí eram pequenas alçavam-se nas pernas magras, soltavam o cabelo, e de repente via-se que o peito lhes subira debaixo da blusa, num ângulo afiado, e quando andavam faziam balançar a saia, como até aí nunca balançara.  

Ercília - As pessoas tinham a pele mais queimada, curtida do vento e do sol.

Inácio - E debaixo da pele o sangue estava quente, como vinho novo fermentando.

Carmo - Então o verão rebentava pelo meio. Um zumbido entrava nos ouvidos, atordoando as pessoas, que dormiam de olhos abertos, encandeadas pelo sol, entorpecidas pelo calor, pelos cheiros do ar, pelas dádivas do tempo e da terra.  

Januário - Agradecíamos o vento, o sol, os frutos.  

Inácio - E logo a seguir era outono.

(pausa)  

Januário, em cima do escadote - Não se podem escrever essas coisas.  

Carmo, apelando ao senso comum - Escreve-se o que se puder. Cada um colabora e faz-se o que se pode.Temos de ser práticos.  

Inácio - Coisas simples e concretas, pelo menos podem-se escrever coisas simples e concretas: como se semeava o milho, se engaçava a terra. Nomes de quintas, de cães, de pessoas, lugares. Resumo de vidas. Pequenas histórias.  

Ercília, como se recitasse uma lição

Semeava-se o milho deitando à terra mãos cheias de semente e espetando aqui e ali raminhos de árvore, para assinalar até onde se tinha chegado, em cada dia.

Horária

Engaçava-se depois a terra para enterrar melhor os grãos e quando começavam a crescer arrancavam-se os pés que estivessem muito juntos, para não tirarem a força aos outros, e davam-se ao gado.

Benta - Mais tarde escanava-se o milho, atavam-se e secavam-se as folhas e davam-se também ao gado, no inverno.  

(Januário escreve, subindo e descendo ao escadote e andando com o escadote para um lado e para o outro do livro (A ideia é tornar visível a dificuldade e o trabalho da escrita). Os outros aproximam-se, fazem gestos e movem os lábios como se estivessem a ditar-lhe coisas, Jerónimo traça sinais no papel com a tinta preta. Ou faz apenas os gestos ).  

Januário, descendo do escadote.

Recuso-me a continuar a escrever sozinho. Temos de escrever todos.  

Ercília - Está bem.Temos de escrever todos.  

- Cada um por sua vez

- Cada coisa por sua vez.

- Por exemplo: A lição de francês de Virita.

- A história de Badala

- O riso de Badala.

- As guerras de Badala e de Duarte Augusto.

- O parto de Maria do Lado.

- Cada coisa por sua vez.

- Sim, cada coisa por sua vez.

- Vamos escrever a lição de francês de Virita.  

Ercília - Como ela chegava, todas as manhãs, descendo do andar de cima como se tivesse atravessado um boulevard de carruagem  

Horária - Enquanto Maria do Lado se mortificava, apesar da presença de Duarte Augusto.Tinha a certeza de que, por debaixo da mesa de camilha, as pernas e os pés de ambos se tocavam. As botas francesas de Filipe e os sapatos finos de Virita.

Teolinda Gersão nasceu em Coimbra, estudou Germanística e Anglística nas Universidades de Coimbra, Tuebingen e Berlim, foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, docente na Faculdade de Letras de Lisboa e posteriormente professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa,onde ensinou Literatura Alemã e Literatura Comparada até 1995.A partir dessa data passou a dedicar-se exclusivamente à literatura.

Além da permanência de três anos na Alemanha viveu dois anos em São Paulo, Brasil (reflexos dessa estada surgem em alguns textos de Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984), e conheceu Moçambique, cuja capital, então Lourenço Marques, é o lugar onde decorre o romance de 1997 A Árvore das Palavras.

Escritora residente na Universidade de Berkeley em Fevereiro e Março de 2004.

LIVROS PUBLICADOS
(Publicações Dom Quixote, Lisboa)


O SILÊNCIO (Romance),1981, 4ª edição 1995

PAISAGEM COM MULHER E MAR AO FUNDO (Romance),1992,4ª edição 1996.

HISTÓRIA DO HOMEM NA GAIOLA E DO PÁSSARO ENCARNADO (literatura infantil),1982 (esgotado)
OS GUARDA-CHUVAS CINTILANTES (Diário Ficcional) 1984,2ªedição 1997

O CAVALO DE SOL (Romance),1989 ; edição Dom Quixote-Planeta 2001

A CASA DA CABEÇA DE CAVALO (Romance),1995,2ª edição 1996 ;
edição em Braille,1999


A ÁRVORE DAS PALAVRAS (Romance),1997
edição especial,com 50 ilustrações de Maia, 2000 ; 2ª edição, 2001
edição Dom Quixote- Círculo de Leitores 2001
edição Dom Quixote-Visão 2003


OS TECLADOS (Narrativa),1999 ,2ªedição 2001;edição em Braille,2003

OS ANJOS (Narrativa) , 1ª e 2ª edição 2000

HISTÓRIAS DE VER E ANDAR (contos) ,1ª e 2ª edição 2002

O MENSAGEIRO E OUTRAS HISTÓRIAS COM ANJOS (contos) 2003

Uma versão teatral de OS TECLADOS foi representada no Centro Cultural de Belém em 2001,com encenação de encenação de Jorge Listopad.

Uma versão teatral de
OS ANJOS foi representada em 2003 pelo grupo de teatro O Bando,com encenação de João Brites.

Uma versão teatral em língua romena de A CASA DA CABEÇA DE CAVALO foi representada em Bucareste em Abril de 2004.

Fonte: http://www.teolinda-gersao.com/bibiografia.html
 

 

 

 




 



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