SYLVIA MIRANDA
Para a reputação do amor

           Coeur sans frein/Coração à solta (2012) da poeta brasileira Astrid Cabral, acaba de ser lançado pela editora Les Arêtes, La Rochelle, França, em edição bilíngue traduzida pela autora, e é um acontecimento não só para a atualidade literária, mas para a própria literatura. Astrid Cabral pertence àquela linhagem de poetas tocados pelo fogo e também pelo segredo, por aquilo que se condensa no íntimo sem pressa, confiante de seu talismã: o amor.

            Este segredo, oriundo da natureza de sua Manaus, em meio à floresta e às margens do rio Amazonas, habitou o esplendor exuberante do corpo e conheceu a  maturidade incomum, convenções e longos silêncios, o estigma da mulher, a tenacidade do “arcaico feminino” (“Coração/mar”).

            Astrid Cabral não publicou mais que uma dúzia de livros, mas os que surgiram foram para ficar e dizer a todos que este amor “A tudo desafia/ e mesmo sem troca/ tudo lhe brota. /Medra entre a falta de esperança/ e a léguas do desespero. /Forte até a morte./ Inteiro.” (“Amor cacto”). Sim, a morte total, absoluta, mas também o amor íntegro, o amor com o qual não se negocia nunca. Os versos de Astrid são com frequência polissêmicos, curtos mas variáveis, poderosos e delicados. De claro entendimento, usufruem do prazer e da felicidade, mas longe do transbordamento. Caminham com pés de chumbo.

            Neste livro ela reuniu vários poemas já publicados em português e alguns inéditos. Não se trata de uma antologia tradicional, pois se organiza dentro de uma linha mais emocional que temporal. São as emoções mais tocantes de seu percurso vital,

estético e espiritual que nos conduzem do começo ao fim, porque este livro foi escrito sobretudo para o “renome do amor”, retomando-se um título do poeta peruano César Moro, e para confirmar que nada se perdeu enquanto o amor foi nosso mestre.

            Os primeiros poemas trazem a magia do que vem da terra, das raízes, das plantas e do mais elementar do corpo, e assim sendo a poesia, o amor, a natureza e os estados primitivos se misturam com a força selvagem dos minerais, das entranhas, dos dilúvios e incêndios, a poeta podendo dizer sem rodeios: “Ao lixo com os frios raciocínios” (“Revolução”). Os amantes são “animais sem coleira/ juntos acendemos o dia/ em cachoeiras de luz/ com as centelhas que nós/ seres primitivos forjamos/ com a pedra lascada/ dos sexos vivos.” (“O fogo”). São poemas do amor feliz, da fusão e exaltação dos corpos, mas que guardam seu mistério e se mantêm em sua certeza e em seu desabrochar. Como diria Astrid, são ao mesmo tempo de amor “Lírico e lúbrico”.

            Nesses primeiros poemas surge pouco delineado o tema religioso: o jardim celeste em oposição ao jardim terrestre, onde os amantes sentem prazer ao comer a maçã (“Paraíso”) e em “União”, o começo da criação é a carne e não o verbo: “A carne, palavra prima”, a carne “glória divina”. Em “Milagre”, é a surpresa, o maravilhar-se do corpo diante da luz: “e a noite se fez dia no horizonte do corpo.” Uma religião que se contradiz pela fé na natureza e no prazer. No clímax deste amor, o fogo e a luz se fundem num único, surpreendente e preciso “lance de luz” (“Clímax”)

            Nos poemas subsequentes, Astrid enfrenta um dos assuntos mais elaborados de sua obra, a revolta contra o destino cotidiano da muher: o lar, lugar maravilhoso que pouco a pouco se torna uma prisão, principalmete para a mulher poeta. Todos esses poemas impressionam porque apresentam em rigorosa exploração, a encenação e o balanço de uma vida partida ao meio entre as exigências práticas e morais do cotidiano e a necessidade de não se anular. Com frescor, franqueza e precisão, quem sabe por que a dor “requer fino trato” (“A companheira”), a mulher poeta se libera da carga, limpa o rosto, disseca a vida comum. Munida de fina ironia, ela reflete sobre o tempo passado, a fragilidade do amor, o cansaço, sobre “Deixar a ferida/ virar cicatriz”, ter “o sorriso fraturado” (“Degraus no inferno”). Essa maneira de reagir, passo a passo, segura de si mesma, nos diz que o segredo foi preservado, o amor resiste e transforma o mundo: “O nada não é perdição/ mas estado de graça” (“Desastres do amor”).

            Lá pelo fim do livro, a revolta contra o tempo e a velhice. As lembranças, a ausência e a morte se fazem presentes. Todos esses temas se desdobram numa escrita plena de comparações, jogos de paralelismos (“Carestia”), com grande riqueza de imagens e de metáforas como: “No breu da noite/ vindo de outro mundo/ o morcego empurra-me/ em profundo poço” (“Crime entre lençóis”). A poesia de Astrid Cabral não abandona jamais nem imagem nem ritmo, parece prazerosamente protegida aqui e ali em meio a rimas e estrofes. Sua poesia possui o rigor e a leveza da música.

            Para encerrar, ao ler suas páginas, apodera-se de nós uma emoção que nos reconcilia com a vida e o prazer, já que a voz de Astrid Cabral se regozija, ela mesma, com sua feminilidade, exposta sem constrangimento, orgulhosa de pertencer ao “arcaico feminino” dos elementos e de participar da herança daquilo que, segundo César Moro,  as tochas de lenha resinosa clareiam “Em nome do mais velho amor”.

                                  

Sylvia Miranda
Madri, outubro de 2012

 
Sylvia Miranda, Arturo Bolaños e Astrid Cabral (Salamanca, 2009)
Astrid Cabral, Coeur sans frein/ Coraçao à solta, La Rochelle, Les Arêtes, 2012. http://areteseditions.blogspot.com.es/

Sem maquilagem

 

Todos julgavam conhecê-la

há vinte anos na companhia

de marido, filhos, criadas

sem falar nos velhos cães

sentinelas de seus portões.

Até que partiu no rastro

de um sargento pé-rapado

e sem maquilagem apresentou

à cidade boquiaberta

o cavalo bravo de seu desejo

e o pássaro de sua fantasia. 

 

Armadilhas do hormônio 

Dobras a esquina

sem que um olhar de luxúria

envolva-te colo e quadris.

Na rua povoada ninguém

para alvoroçar teus instintos

e radiografar-te o corpo.

Passaste de mulher a pessoa.

O espelho nunca mente.

De tua parte te sentes

desvencilhada de empecilhos

imune à sanha e ao perigo

das armadilhas do hormônio.

Mas a alforria não traz euforia.

Longe estás de ser anjo.

Sylvia Miranda Lévano (Lima, 1966) é Doutora em Literatura Hispano-Americana pela Universidade Complutense de Madri. Suas pesquisas tratam do imaginário urbano e da poesia peruana de vanguarda, em particular da obra dos poetas Carlos Oquendo de Amat, César Moro e Emílio Westphalen. Publicou ensaios e artigos em revistas especializadas. Entre suas publicações figuram os livros de poemas: Como todos anduve en el invierno, Lima, 1990; Zita y otros poemas, Madri, Catriel, 2001 (Premio Tomás Luis de Vitoria, Salamanca, 1994) e Poemas del tigre y el mar, Madri, Centro de Arte Moderno, 2004 (Plaquete ilustrada por água-forte de Sylvain Mâlet). Tem poemas incluídos em várias antologias da poesia peruana e ibero-americana. Memorias de Manú obteve o Primeiro Prêmio para novela do Banco Central de Reserva do Peru, em 1996. Entre suas últimas publicações figuram o ensaio Caminantes por una tierra baldía. T.S. Eilot e E.A.Westphalen; una lectura transtextual de las ínsulas extrañas, Madri, Centro de Editores, e a coleção de relatos Las mañanas sagradas, Madri, Catriel, ambos de 2011. 

 

 




 



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