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SÔNIA VAN DIJCK..
CONTO DE NATAL

O Natal, para mim, já foi branco.

Saíamos dos carros apressados para entrar no conforto da igreja. Botas entrando na neve, e senhoras que, logo adiante, seguravam nos braços fortes dos jovens, com medo de cair ou de escorregar. Eu, prevenida, segurando no braço de meu marido.

Os sinos... ah! os sinos... Apressados, diziam que tínhamos que vencer o trajeto em minutos.

Meu filhote dizia:

- Vamos rápido! tia Elly vai tocar desde o início da missa.

Ele parecia não sentir frio e ter todos os seguros contra escorregões e quedas na neve. Era o grande fã da tia, e iria escolher ser baixista na banda de rock que anos depois criaria na garagem lá de casa.

Minha cunhada, nervosa, afinava o contra-baixo como se não tivesse feito tudo isso no fim da tarde. Seu marido, inquieto, transpirava e procurava a cumplicidade de meu marido para comentar, sussurrando, o quanto Elly era talentosa, uma das grandes figuras da orquestra, afinal... Meu marido sorria, contente mais pela irmã ter um marido apaixonado, do que pelos dotes de musicista que ela demonstrava.

O velho parecia remoçar nessa noite. Depois da missa, tinha agilidade de atleta para cortar o rosbife e era jovial ao abrir o vinho - Baco presidia a cerimônia, tantos eram os ditos e brincadeiras que dizia na luta contra a rolha teimosa, que sublinhava seus 90 e tantos anos.

E lá estávamos à mesa. Minha sogra, perfeita anfitriã, preocupava-se com que filhos, noras, genro e netos estivessem bem servidos. O velho, entre charmoso e sedutor, cortejava as noras, distinguindo-me com alguma preocupação para que experimentasse mais um pouco do molho ou opinasse acerca do vinho, sem se esquecer de comentar que o novo namorado de uma das netas era rapaz inteligente e que prometia bom desempenho na cama, ao que todos respondiam com gracejos contra a moça e com muitas gargalhadas.

Natal, sem trocas de presentes na Holanda, pois o dia de São Nicolau acontece bem antes.

O mais incrível é que, por mais farta que fosse a ceia, as crianças (netos e netas) continuavam ávidos pelos doces, chocolates e biscoitos escolhidos pela Oma.

O café era de minha responsabilidade. Brasileira é que entende de café, afinal... E meu licor sempre esteve me esperando, pois o Vader fazia questão de me surpreender com o mimo e ia buscar na velha cristaleira, de linhas inesquecíveis para mim, a taça mais apropriada para a degustação. Minha glória na madrugada da redenção...

E, lá fora, a noite linda e fria.

 

Este texto foi publicado no Correio das artes, João Pessoa, dez. 2003
© Copyright by Sônia van Dijck, 2003
Jesus, alegria dos homens (Bach)

 
   
   

 

 

 


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