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SÔNIA VAN DIJCK
DUALIDADE, CONFLITO EM "CÂNTICO NEGRO"
INTRODUÇÃO

"Cântico Negro", poema de José Régio, contido em POEMAS DE DEUS E DO DIABO, aborda a problemática do indivíduo que anseia por sua afirmação a partir da contestação da norma e do afastamento da vivência coletiva despersonalizadora.

O posicionamento rebelde do "eu" o conduz à afirmação de sua indi­vidualidade, partindo da contestação da norma coletiva, que se lhe oferece como um convite, até que, tendo estabelecido uma comparação entre os dois elementos opostos, em torno dos quais se desenvolve o texto - a individualidade e a coletividade -, culmina na decisão final de insubordinação à norma.

O presente trabalho pretende ver o texto em profundidade, porém, sem esgotar toda a sua compreensão, pois está longe de ser um estudo exaustivo.

INTERPRETAÇÃO

1. Inicialmente, consideremos o título, composto por dois elementos: "cântico" e "negro". O primeiro deixa transparecer a idéia de hino em homenagem a um ente de natureza divina ou levado a esta categoria, e assim remete à lembrança dos cantos religiosos do Velho Testamento em louvor à divindade, dos quais sobressai o "Cântico dos Cânticos", atribuído ao rei Salomão; além do mais, o vocá­bulo "cântico", independentemente de ser entendido como poema, lembra voz, ato de falar. O segundo elemento pode ser interpretado como "escuro", "sombrio", "maldito", "condenado", e os dois últimos sentidos parecem ser os mais cabíveis ao texto em questão.

Ora, a qualidade de "negro" ("maldito", "condenado") não parece ser própria da natureza de "cântico" ("hino"), mas antes advém daquilo que é exaltado; assim, o título como que denuncia a natureza do poema; para que algo seja "maldito" ou "condenado", é preciso que seja encarado a partir da contestação ou negação de um preceito ou ponto de vista vigentes, livres de tal adjetivação. A significação geral do poema diz respeito, portanto, à exaltação de algo ao tempo em que contesta e nega valores vigentes.

2. A abertura da primeira estrofe ("Vem por aqui") tem, evidentemente, um tom imperativo; o verbo dizer ("dizem-me") empregado em seguida deixa que compreendamos a expressão destacada pelo travessão como uma norma a ser obe­decida enquanto a sua repetição em outros momentos do poema (4º e 17º versos: 'Vem por aqui") define o seu caráter de fórmula pronta e acabada que se oferece impositivamente ao "eu".

A indeterminação do sujeito, contida na forma verbal ("dizem-...") e reforçada com o emprego do indefinido ("alguns"), faz-nos pensar em elemen­tos sem definição individual, que têm como ponto comum e objetivo o "Vem por aqui"; em verdade, a norma é o dado concreto no que toca ao sujeito indeter­minado, como se todos se tivessem esfumado e diluído como individualidades; outrossim, a pluralidade de "alguns" revela um sentido coletivo; a norma existe enquanto aceita e mantida pela coletividade, que por sua vez baseia sua existên­cia na normatividade, isto é, norma e coletividade mantêm uma relação de depen­dência recíproca. Por outro lado, a função de objeto exercida pela primeira pessoa deixa-nos entrever que a subordinação à ordem estabelecida pela normatividade coletiva anula a individualidade.

A norma configura-se um convite persuasivo e aliciante, em de­corrência do modo como é apresentada ("com olhos doces" - 1º verso) e uma proposta de participação e convivência ("Estendendo-me os braços," - 2º verso). A segurança pressentida na coletividade ("e seguros" - 2º verso) é acom­panhada da expectativa de adesão e da dúvida quanto à validade da obediência ("De que seria bom que eu os ouvisse" - 3º verso).

Ao convite à aceitação da norma coletiva, que aparece nos quatro pri­meiros versos, nos quais verbalização e comportamento se conjugam, segue-se a respos­ta da primeira pessoa na atitude de enervamento e indiferença ("Eu olho-os com olhos lassos" - 5º verso), ironia e crítica, em "(Há, nos meus, olhos, ironias e can­saços)" - 6º verso, negativa da convivência ("E cruzo os braços" - 7º verso) e de insubordinação e afastamento da norma ("E nunca vou por ali..." - 8º ver­so).

Contudo, a atitude rebelde do "eu" é assumida a partir do modo de agir da coletividade; contrapondo "olhos lassos" (5º verso) a "olhos doces" (1º verso), e "E cruzo os braços" (7º verso) a "Estendendo-me os braços" (2º verso) e "nunca vou por ali" (8º verso) a "vem por aqui'" (1º e 4º versos), o "eu" revela que seus estímulos não são buscados no íntimo de sua natureza, uma vez que são encontrados no comportamento coletivo, transparecendo assim que sua atitude contrária aos outros, em essência, consiste apenas em não ser os outros.

3. O "eu" justifica a opção "nunca vou por ali" na definição e impo­sição do seu caráter individual, desde o 9º verso, onde "minha glória" anuncia e exalta uma natureza cuja existência exige a não participação no coletivo ("Criar desumanidade / Não acompanhar ninguém." - 10º e 11º versos), até o final da quarta estrofe.

Negando-se à diluição de sua individualidade no seio da vivência coletiva, o "eu" pretende um programa existencial não orientado pela norma vigente, mas, antes guiado por impulsos que preexistem ao próprio ser (" - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade / Com que rasguei o ventre a minha Mãe." - 12º e 13º versos).

A obediência aos impulsos interiores é reiterada ao longo do poema, onde cada metáfora como que aprofunda ou acrescenta novas nuanças. Assim é que em "Só vou por onde / Me levam meus próprios passos..." (14º e 15º versos) a oposição não se esgota ao nível da norma vs impulsos, mas se amplia conhecido vs desconhecido. Ora, vendo-se na norma o princípio disciplinador da vivência coletiva, a obediência a forças incoercíveis (do 12º ao 15º verso) ampli­fica o caráter contrário do "eu" em relação à coletividade, através da antinomia razão vs instintos. Porém, a insubordinação à norma quando revelada nos versos citados tem um caráter ambíguo: insubmisso à regra, como produto da razão coletiva, o "eu" torna-se sujeito aos impulsos, passando à condição de objeto de seus instintos ("Me levam meus próprios passos..." - 15º verso).

Pretendendo confirmar sua decisão pela obediência aos impulsos, o sujeito afirma "Prefiro escorregar nos becos lamacentos" (18º verso) e "Como farrapos, arrastar os pés sangrentos" (20º verso), como que tendo consciência da virtualidade de dificuldades, graças à singularidade de sua experiência que não lhe permite apoiar-se em vivências alheias, numa disposição viril de enfrentamento da opção. Todavia, a ambigüidade das expressões usadas pelo "eu" deixa admitir outras interpretações; assim, os próprios vocábulos selecionados na composição do 18º verso lembram riscos, quedas, profundidade, metaforicamente remetendo ao mundo interior; por sua vez, o 20º verso tem toda uma significação de des­gaste, de aspectos negativos; desta forma, o sentido desses versos está não só liga­do à sondagem interior, mas pode ser associado aos resultados negativos da obe­diência aos instintos.

Dentro de uma perspectiva individualista, capaz de conduzir o discur­so poético ao emprego enfático de "meus próprios...", repetidamente ("meus próprios passos" - 15º verso, "meus próprios pés" - 24º verso), o "eu" PREFE­RE "Redemoinhar aos ventos" (19º verso), explicitando que a natureza do seu programa de vida não é apenas inspirada em forças subjetivas e transcendentes, mas também voltada centripetamente para si mesmo.

A consciência individual comporta, porém, a compreensão de duas di­mensões: a do "eu" e a dimensão do mundo onde se coloca ("Se vim ao mundo" - 22º verso). O vir ao mundo, significando viver, é interpretado metaforicamente como "desflorar florestas virgens" (23º verso) e "desenhar meus próprios pés na areia inexplorada" (24º verso), insistindo na unicidade existencial do sujeito, que deve construir sua existência imprimindo-lhe um cunho particular. Entretan­to "meus próprios pés" retoma a idéia de ir "por onde me levam meus próprios passos", que, como já vimos, é a expressão da sujeição aos impulsos; sendo assim do ponto de vista do "eu", a razão e a vontade são encaradas como incapazes de criar novas perspectivas existenciais, cabendo às forças incoercíveis esta possibilidade de criar novos rumos ("florestas virgens" e "areia inexplorada"), reiterando a antinomia razão vs impulsos.

"Se ao que busco saber nenhum de vós responde" (16º verso) evidencia a incompatibilidade entre coletivo e consciência individual, em razão da certeza de que sua significação existencial como indivíduo não está na vivência coletiva, que, no entanto, se configura uma programação pronta que lhe é insistentemente oferecida, a ponto de gerar o estranhamento presente em "Por que me repetis: vem por aqui?" (l 7º verso)

A presença impositiva da coletividade é de tal porte que é diante dela que o "eu" se insubordina, pretende tornar-se independente, tentando afirmar-se como indivíduo a partir da dualidade outros vs "eu", e não partindo inicialmente de sua própria natureza ímpar: este conflito traduz-se em repetidas ocasiões no texto, como por exemplo quando o sujeito se dirige a "Vós" (16º, 17º, 26º, e outros versos) como que se definindo diante de um interlocutor coletivo, como se precisasse desses ouvintes de sua insubordinação e afirmação individual para alcançar a veemência necessária; a negativa repetida ("E nunca vou por ali..." -8º verso, "Não acompanhar ninguém," - 11º verso) e enfática em "Não, não vou por aí" (14º verso) demonstra um esforço em direção à imposição da sua unicidade a partir do distanciamento da convivência regida pela norma ("aí", "ali" indicam a visão à distância do "aqui" coletivo), entretanto em todos esses momentos a atenção continua voltada para o objeto de sua crítica e con­testação como se a ele estivesse presa: podemos concluir, pois, que se a norma e a coletividade fossem realmente indiferentes ao "eu" não seriam capazes de pro­vocar ironia, crítica, insubordinação.

4. O questionamento crítico que aparece nos três primeiros versos da quinta estrofe introduz a comparação entre os outros ('Vós") e o "eu", que res­salta a incompatibilidade entre esses elementos. A coletividade é acusada de com­promisso com o passado ("Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós", - 29º verso) e de acomodação em face da tradição ("E vós amais o que é fácil!" - 30º verso), enquanto o "eu" está voltado para o absoluto, o metafísico ("Eu amo o Longe e a Miragem," - 31º verso) e para a sondagem interior, para o desafiador ("Amo os abismos, as torrentes, os desertos..." - 32º verso).

Por seu turno, a citação dos elementos componentes do universo e do espírito da coletividade, do 33º ao 36º verso, define o caráter relativo e extrínseco dos valores existenciais, numa evidente oposição a "Loucura", como elemento metafísico, e "espuma, e sangue, e cânticos nos lábios..." - expressões do interesse pelo absoluto e pelos impulsos e valores intrínsecos, estabelecendo, assim, uma nova antinomia: relativo vs absoluto.

5. Em "Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém." (40º verso) o significado do experienciar é colocado mais uma vez num plano metafísico; "Deus e o Diabo", forças indestrutíveis e absolutas, significando Bem e Mal, são anteriores a "regras", "tratados," "filósofos", "sábios", etc. que se constituíram na tentativa de aceitar uma (Bem~ "Deus") e excluir, ou talvez simplesmente disciplinar, a ou­tra (Mal - "Diabo"); tentativa esta que se revela inútil pois essas entidades (Deus, Diabo) coexistem, apesar de serem contrárias. A aceitação de forças absolutas como guias existenciais reitera a precariedade dos valores relativos aceitos pela coletivi­dade ("pátrias", "tectos", "regras", etc.). Por sua vez os elementos "pai" e "mãe" (41º verso), como transmissores da vida e tradição, têm o seu caráter físico e re­lativo ressaltado graças aos versos seguintes (42º e 43º versos). A ambigüidade de "Mas eu, que nunca principio nem acabo, / Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo" (42º e 43º versos) leva-nos a pensar em um primeiro momento na opo­sição que aí se estabelece em relação a ter nascido de "pai" e "mãe"; ora, o "eu" como ser humano também provém de pai e mãe, portanto o entendimento não pode ser esgotado neste nível; outra idéia nos ocorre quando levamos em conta o "eu", nascido de "Deus" e do "Diabo", como síntese desses elementos contrá­rios, por conseguinte guardando características de ambos, revela-se como algo novo, cuja natureza opositiva em relação ao velho é uma constante. Outrossim, a sétima estrofe amplifica a antinomia relativo vs absoluto de modo a fornecer a expressão mais veemente da dimensão do indivíduo, cujas natureza e existências são regidas por forças transcendentes, capazes de gerar impulsos da maior nobreza ("Deus") e da maior velhacaria ("Diabo")

O conhecimento e aceitação de forças absolutas como impulsionadoras do existir conduzem o "eu" à decisão final por uma experiência de vida cujo caráter individual é impossível de ser cerceado ("A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou..." -do 47º ao 49º verso), e é intransferível ("Ninguém me peça definições '." - 45º verso), retomando assim sua insubordinação à norma coletiva na verbalização - Sei que não vou por aí! (52º verso).

   
   

 


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