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SÔNIA VAN DIJCK
DUALIDADE, CONFLITO EM "CÂNTICO NEGRO"
CONCLUSÃO

O processo evidenciado em todo o poema resulta da incompatibilidade entre vivência coletiva e consciência individual, e seus valores respectivos, como atitudes existenciais que coexistem, mas que se excluem; o que pode ser assim de­monstrado:

COLETIVO

"Vem por aqui"

"alguns" / "ninguém" / 'Vós"

"dizem-..."

"olhos doces"

"Estendendo-... os braços"

"Seguros/ De que seria bom que (...) os ouvisse"

"nenhum de vós responde"

"repetis: 'vem por aqui?' "

"sangue velho dos avós"

"amais o que é fácil!"

"tendes estradas, jardins, canteiros, pátrias, tectos, regras, tratados, filósofos, sábios"

"pai", "mãe"

INDIVIDUAL

"me"/ "eu"

"olhos lassos"

"ironias", "cansaços"

"cruzo os braços"

"nunca vou por ali"

"Criar desumanidade"

"Não acompanhar ninguém"'

"Vivo com o mesmo sem-vontade /Com que rasguei o ventre a minha Mãe"

"Não, não vou por aí!"

"Me levam meus próprios passos"

"busco saber"

"Prefiro escorregamos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arras­tar os pés sangrentos, / A ir por aí..."'

"Se vim ao mundo, foi / Só para desflorar florestas virgens, / E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!"

"meus obstáculos"

"Eu amo o Longe e a Miragem,"

"Amo os abismos, as torrentes, os desertos..."

"Eu tenho a minha Loucura!"

"como um facho"

"noite escura"

"sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios..."

"Deus e o Diabo é que me guiam"

"nunca principio nem acabo"

"Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo"

"A minha vida é um vendaval que se soltou,"

"uma onda que se alevantou"

"um átomo a mais que se animou"

"Não sei por onde vou"

"Não sei para onde vou"

" - Sei que não vou por aí!"

As duas colunas mostram as referências que o texto faz aos aspectos coletivo e individual, verificando-se que, na oposição estabelecida, o "eu" merece ênfase não só pela insistência de sua afirmação mas até mesmo pelo número de ve­zes em que sua idéia aparece no poema, impregnando-o de individualismo.

A leitura esquemática permite que verifiquemos o desenvolvimento do poema dentro da dualidade outros vs "eu", e valores existenciais respectivos, e, abstraindo das referências textuais, assim podemos ver:

O OUTRO ("eu")

Aceitação da norma

Coletividade

Acomodação / Tradição

Razão / Regras

Segurança (o conhecido)

Persuasão

Realidade

O "EU"
Não aceitação da norma

Individualidade

Busca / Renovação (futuro)

Instintos

Risco (o desconhecido)

Crítica / Ironia

Subjetividade

Retomando a última estrofe do poema, vemos que a definição de vida como "onda", como "átomo", possui na ambigüidade de sua significação não só o sentido de unidade, mas também o de parte de um todo. Ora, desta forma, o su­jeito do poema deixa-se trair na sua definição de indivíduo, pois termina por ad­mitir-se parte de um todo, aqui entendido como coletividade; a parte guarda carac­terísticas do todo a que pertence e do qual é destacada, assim é que os elementos contidos em "onda" estão contidos em "mar", e a estrutura do "átomo" conserva a estrutura do "universo". Portanto, a dualidade que o sujeito pretende expres­sar como uma oposição em dois planos (o do "eu" e os dos outros) fica reduzida ao plano da sua própria natureza (o "eu" e os outros = "eu") onde os valores e tendências conflitantes coexistem. Coube-lhe a perspectiva da opção e esta foi alcançada no conflito de tendências contrárias, resultando na eleição de um tipo de inclinação na proposição do programa existencial pretendido, de caráter niti­damente individualista.

 
BIBLIOGRAFIA

CASTRO, E. M. de Melo. O próprio poético: crítica e história literária. São Paulo, Quírom, 1973.

MOISÉS, Massaud. Guia prático de análise literária, 2ª ed. São Paulo, Cultrix, 1970.

Publicado in: Caderno de Letras, João Pessoa, Universidade Federal da Paraíba, ano 2, n. 4, 1979, p. 147-154.

   
   

 


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