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HERMILO BORBA FILHO - INDEX
Biografia

Nascido no Engenho Verde, município de Palmares, Zona da Mata-Sul de Pernambuco (Brasil), em 8 de julho de 1917, Hermilo Borba de Carvalho Filho assim traçava seu perfil:

descendente de uma já então decadente casta açucareira; dos tempos da opulência, ouvindo apenas as histórias contadas, às vezes com alegria, às vezes comicamente, outras com tristeza, sempre melancólicas, pelos que faziam a minha família...

Último filho de Hermilo Borba de Carvalho e Irinéa Portela de Carvalho (Mãe Néa), via com saboroso realismo seu estatuto de ponta de rama:

Tive todas as oportunidades para ser bicha: doze anos mais moço que meu irmão mais moço, mamando até os quatro anos de idade, longos cabelos louros, roupinha de marinheiro, dormindo na cama de meus pais, era um campo aberto. Só que, entre outros, eu tinha dois irmãos machos pra burro: Luís e Ruy. (...) Quando eu completei sete anos, idade de ir para escola (...), Ruy me chamou à parte e me disse: “Olha, se quiserem pegar na sua bunda meta o braço.” E lá fui eu, de tamborete, lápis, caderno, uma carta de ABC e o conselho de meu irmão. No intervalo, lasquei a cabeça de um cara que me alisou as pernas. Foi a minha vacina.

O episódio mencionado acima aconteceu na Escola do Professor Pinho, na Estrada Nova. Daquele tempo ficaram lições não escritas nos livros:

... aprendi a me defender contra a dureza da vida representada pelas bofetadas, pelos cascudos, pela maldade da palmatória, mas (...) aprendi, melhor descobri, as inenarráveis alegrias do sexo, todas elas concentradas numa menina cangula, de franja loura, que morava numa casa de mei’água e de quem me aproximava, como um animal atraído pelo cheiro, ao cair das tardes, as mãos inchadas de bolos...

Para Hermilo Borba Filho, que escolheu, mais tarde, o ofício de criar mundos e povoá-los de criaturas felizes, desesperadas, que amam, odeiam, sofrem, lutam, morrem e ainda continuam defendendo seus projetos de vida cada vez que abrimos um de seus textos, havia também o espaço da feira, com seus poetas e cantadores, que lhe legaram forte compromisso com a cultura popular e com o universo mágico da gente nordestina.

A descoberta das alegrias do sexo, só inenarráveis na medida que nossa linguagem não consegue traduzir integralmente as mais profundas sensações do prazer, foi uma das marcas de sua relação com o mundo e que ele passou para suas personagens. Adulto, declarou:

O que acontece é que encaro o sexo como uma coisa normal e constante na vida de um homem sadio, coisa que todo mundo pratica, uns mais outros menos, e eu pratico muito. Um velho amigo meu, já encantado, tocador de violão, me dizia com a maior convicção: ‘Só acredito em Deus porque existe a cópula’. Eu acredito em Deus por uma série de razões, inclusive por esta também.

Do conhecimento direto da vida do povo, da luta diária do trabalhador, da exploração do homem do campo, das situações humilhantes, no tempo em que vivia na cidade interiorana, e do que foi vendo pela vida, Hermilo recolheu os motivos, sempre reafirmados, para que a militância de homem de letras fosse voltada para os problemas que afligem a humanidade e, em particular, a gente nordestina.

Atraído pelo tablado, ainda estudante de ginásio entrou, em 1932, para a Sociedade de Cultura de Palmares, que levava peças no Teatro Cinema Apolo – onde hoje é a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Começou como ponto, depois foi ator e estreou como autor, em 1935, com Felicidade: “Eu toda a minha vida quis ser dramaturgo. Mesmo aos 16, 17 anos, escrevi uma peças que eram umas porcarias.” – disse Hermilo.

Passando a viver no Recife, a partir de 1936, exerceu atividades variadas, para ganhar a vida, e pensou em ser médico, mas abandonou a Faculdade de Medicina no terceiro ano do curso. Depois de breve passagem pelo curso de Química Industrial, ingressou, em 1946, na Faculdade de Direito, da Universidade do Recife, diplomando-se bacharel em dezembro de 1950, para nunca exercer a profissão. Iniciou-se no jornalismo, como crítico de teatro, logo ampliando o exercício para a crítica literária e a publicação de crônicas e de contos. Seu primeiro conto, “As pernas daquela moça”, saiu na revista Renovação (Recife, 1941).

Cheio de idéias a respeito da arte dramática, da valorização da cultura regional e do autor nordestino, inventou espaços para maturação e ampliação de suas concepções. Em 1943, participou da fundação do Teatro Operário do Recife, do qual foi diretor, e, em 1946, assumiu a retomada do Teatro do Estudante de Pernambuco - TEP. Para a empreitada, reuniu Ariano Suassuna, Gastão de Holanda, Lula Cardoso Ayres e Capiba. No repertório, trabalhou com Sófocles, Tchecov, Shakespeare, Ibsen, Garcia Lorca, o próprio Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna, que recorda seu batismo no mundo de Dioniso:

Nos encontramos pela primeira vez, quando entramos ambos para a Faculdade de Direito, no ano de 1946. Ali teria início, sob a liderança dele, o importante movimento do Teatro do Estudante de Pernambuco. Nós íamos para a faculdade pela manhã, mas a universidade onde realmente se fazia a nossa verdadeira formação era a casa de Hermilo, na Rua do Capim, casa onde, à noite, nos reuníamos até altas horas, conversando, concordando e discordando, brigando e ensinando. Hermilo, que acreditava demais em mim, metia-me na mão, quase à força, os livros que achava que ajudariam na minha caminhada. Foi ele quem praticamente me intimou a escrever a primeira peça de teatro.

O principal interesse do TEP era levar teatro ao povo. A experiência de uma barraca ambulante, inspirada em Lorca, não deu certo por ser custosa e pesada. Hermilo não perdeu o ânimo e levou o pessoal do TEP para sanatórios, fábricas, presídios, escolas e praças.

Caderno de anotações de "Agá"

Em 1952, encerraram-se as atividades do TEP, e Hermilo mudou-se para São Paulo, onde trabalhou para as revistas Visão , Realidade , entre outras; e foi colaborador de Alberto Cavalcanti, dirigindo o departamento de argumentos da Kino-Filmes. Com Cavalcanti, já havia trabalhado. Escreveu os diálogos de O canto do mar (que pode ser visitado no Museu da Imagem e do Som – São Paulo – SP – Brasil), no qual, inclusive, Débora, sua esposa na época, tem pequeno papel.

A crítica de teatro da Última hora e do Correio paulistano passou a ter sua assinatura.

No teatro, dirigiu grupos de renome como a Companhia Nydia Lícia-Sérgio Cardoso e a Companhia Cacilda Becker, entre outros. Foi sua a direção do Auto da Compadecida (de Ariano Suassuna), no Festival Nacional de Teatro, sob o título de A Compadecida, em 1957. Na década de 50, suas peças estiveram em cartaz no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis, no Municipal do Rio de Janeiro, no Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno.

De volta ao Nordeste, em 1958, para lecionar no Curso de Teatro, da Universidade do Recife, não tardou a arregimentar antigos e novos companheiros: Ariano Suassuna, entre os primeiros, e Aldomar Conrado e Leda Alves, entre os recentes; com eles e mais alguns outros, fundou, em 1960, o Teatro Popular do Nordeste – TPN, cujas atividades foram até 1975, quando Hermilo não tinha mais saúde para as emoções da ribalta. O TPN aprofundou a experiência do TEP: vivia-se teatro, pesquisavam-se espetáculos populares regionais, faziam-se talhas, vendia-se licor. Aprendia-se política, participava-se da resistência à ditadura militar, vivia-se companheirismo. Estudavam-se e montavam-se autores como Gogol, Antônio José, o Judeu, Ariano Suassuna, Osman Lins, Dias Gomes. O incansável Hermilo encontrava disposição para participar da fundação do Movimento de Cultura Popular – MCP - e para criar o Teatro de Arena do Recife, junto com Alfredo de Oliveira.

Data do tempo de suas primeiras aulas no Curso de Teatro e da vivência no TPN a profunda e definitiva ligação com Leda Alves, levando Hermilo a romper o casamento com Débora e a se casar, em 1969, com a Léo das dedicatórias de suas obras. Como resultado de sua união a Leda e de seu processo de conversão em fervoroso cristão, Hermilo somou a seus compromissos valores inspirados nos Evangelhos, em defesa dos deserdados, da justiça, da paz: “Por isto minha literatura é comprometida com as dores do homem”, como diz a personagem de Deus no pasto.

Combatente por um teatro do Nordeste, Hermilo não defendia o exclusivismo regionalista e entendia que, para atingir uma expressão universal, devem ser transfigurados os problemas que afligem a humanidade. De sua produção teatral, foram publicadas:: “Electra no circo” (1944), “João Sem Terra” (1947), “A barca de ouro” (1949), no volume Teatro (1952); Auto da mula-de-padre (1953 – escrita em 1948 na forma de conto); Um paroquiano inevitável (1965), encenada com o título Apenas uma cadeira vazia (1956). De sua dramaturgia publicada, Hermilo não chegou a ver a encenação de duas de suas peças: A Donzela Joana (1966) e Sobrados e mocambos: uma peça segundo sugestões de Gilberto Freyre nem sempre seguidas pelo autor (1972).

Fruto de leituras, pesquisa e amadurecimento, A Donzela Joana retoma a história da expulsão dos holandeses de Pernambuco, transferindo para o Nordeste os feitos da donzela de Orléans: recriada moça humilde do interior de Pernambuco, com a missão de expulsar os holandeses, libertar Olinda e coroar João Fernandes Vieira. A peça ilustra a resistência ao arbítrio dos poderosos e a luta pela restauração de direitos (da cidadania, no contexto da peça) - ora, se aconteceu na França, por que não poderia acontecer por aqui?.... O texto foi escrito em plena experiência do TPN, por isso a presença de conteúdos nordestinos ocorre de maneira radical. Nessa obra, Hermilo queria, no palco, personagens humanas contracenando com bonecos de mamulengo, figuras do bumba-meu-boi, pastoras do pastoril. A Donzela retoma espetáculos e folguedos populares e dá espaço para a contenda entre cantadores, como em um dos momentos do interrogatório da Donzela: desafia o inquisidor Penico Branco:

- Vou fazer-lhe outra pergunta,

tome nota do recado:

quero que você me diga

o que é mal-empregado.

 

Joana:

- Doutor, eu vou lhe dizer

o que é “ mal-empregado”:

é uma moça bonita

casar com rapaz safado;

é um vaqueiro ruim

num cavalo bom de gado;

paletó de pano fino

num corpo mal-amanhado;

é um cabra preguiçoso

abrir um grande roçado:

abre, planta e não o limpa,

perde o legume plantado.

Disso tudo é que se diz:

Ó, meu Deus, mal-empregado!

Em sua última peça publicada, Sobrados e mocambos: uma peça segundo sugestões de Gilberto Freyre nem sempre seguidas pelo autor , Hermilo trouxe novamente para a cena a realidade nordestina, utilizando elementos diversos daqueles d’A DonzelaJoana. Sobrados e... recria, com o toque criativo hermiliano, informações histórico-sociais da obra freyriana e apresenta um mosaico da vida social e familiar brasileira, pois os elementos de conflito não são exclusivos da história nordestina, ainda que a ação esteja localizada nessa região: a escravidão, a marginalização do negro, do mulato, do índio, da mulher, a presença do capital estrangeiro, a religiosidade e as superstições, a chegada da máquina na economia açucareira, o poder da Igreja, o surgimento dos bacharéis, a lubricidade dos comportamentos. Gilberto Freyre, que assina o prefácio, diz:

Não são exatamente afins nossas interpretações da fase do passado mais íntimo da gente brasileira agora dramatizada pelo teatrólogo. Senhor de sua arte, ele é também intelectual definido nas suas idéias e nas suas atitudes. E várias dessas idéias e atitudes são diferentes das minhas e até antagônicas às minhas.

Para a composição da peça, Hermilo, além de ter partido de Gilberto Freyre, incorporou ao discurso das personagens textos de fontes heterogêneas, que vão do popular à História do Brasil, passando pelo reaproveitamento do próprio discurso hermiliano anteriormente elaborado e já estampado em outras obras. O interesse da peça (organizada em cenas e interlúdios) está em mostrar quadros exemplares da vida colonial brasileira, no ambiente dos sobrados e dos mocambos de Pernambuco. Para ilustrar a moralidade da família tradicional, vejamos o diálogo entre os noivos apressados e ou convenientes: pergunta a Sinhazinha:

- E por aí é natural?

Senhorzinho:

- É mais do que natural

pra virgindade guardar.

Agitador cultural, dramaturgo e encenador, inquieto e polígrafo, Hermilo fez traduções, escreveu história do teatro e teoria do espetáculo e mergulhou na pesquisa da cultura popular, deixando contribuições sobre cantigas, cerâmica, literatura, folguedos e espetáculos populares, como, por exemplo, Fisionomia e espírito do mamulengo: o teatro popular do Nordeste (1966) e Espetáculos populares do Nordeste (1966). Em 1955, concluiu seu primeiro romance: Os caminhos da solidão , publicado em 1957, no qual Nelly Novaes Coelho nota “o ritmo ‘câmara lenta’ (...) a predominância da memória sobre a atuação viva no presente e a tentativa consciente das várias técnicas de narrar que caracterizam seu romance de estréia.”.

Vale salientar que a presença do popular na literatura erudita não é um fato novo em nossa cultura e nem foi inaugurado por Hermilo. Idelette Fonseca dos Santos assinala que “esta procura do elemento popular adquire tonalidades particulares no caso da literatura brasileira. O elemento popular aparece primeiro, nas obras dos sertanistas, por exemplo, como tema e personagem”. Em Hermilo, ganha estatuto de compromisso, de projeto poético, de substância.

Se a dramaturgia hermiliana tem como características as incursões no universo popular, a linguagem popular regional, a variedade de gêneros, a busca da renovação, a preocupação com a realidade nacional e regional, a orientação para o erotismo, o diálogo transtextual, sua narrativa confirma seu projeto poético, ampliando-o com o discurso de tom confessional e a tendência memorialista e autobiográfica.

Um casco de tatu transformado em vaso de planta dá motivo para a História de um tatuetê (1958), exercício lúdico que antecede o romance Sol das almas (1964), longa confissão do pastor Jó, em desesperada viagem-fuga em busca da impossível redenção. Ainda que a paisagem seja nordestina, a obra afasta-se da classificação regionalista na medida que mergulha nos conflitos humanos, na análise dos comportamentos diante da transgressão de valores.

À análise psicológica alia-se o interesse pelo reflexo estético da realidade na tetralogia Um cavalheiro da segunda decadência, discurso de tom confessional que funde ficção, memória e autobiografia:

Teço, neste papel, um passado real, às vezes, e, outras, puramente imaginado na esperança de que no fim Deus confunda o que vivi e o que inventei e me dê um saldo favorável para uma modesta pensão no Purgatório. (Margem das lembranças , 1966).

O protagonista da tetralogia está inserido no contexto nacional a partir da década de 30 até os anos 60, em plena ditadura militar.

De fatura realista, a narrativa da tetralogia constrói-se com vários níveis de linguagem: a norma urbana culta, o coloquial, o popular regional. Ainda que realize o palavrão e o calão e prefira o disfemismo, recorre ao eufemismo em muitas ocasiões. A polifonia impõe-se no espaço transtextual, alimentado, entre outras fontes, tanto pela literatura erudita como pelo romanceiro popular, aproveitando-se também de casos, anedotas, ditos, provérbios e de episódios dos romances anteriores. Fazem o conjunto: Margem das lembranças (1966), A porteira do mundo (1967), O cavalo da noite (1968), Deus no pasto (1972).

O discurso catártico da tetralogia atualiza-se pela última vez em Agá (1974), conduzindo à fragmentação do protagonista, exibindo-se em muitas máscaras, em uma atmosfera que impregna a obra de dimensões do surreal, que marca, efetivamente, inclusive alguns episódios. Ainda do ponto de vista estrutural, a narrativa romanesca, em Agá, fortemente orientada para o erotismo, fragmenta-se polifonicamente no diálogo dramático, na linguagem publicitária, na utilização de textos buscados desde a Bíblia, Santo Agostinho, passando pela literatura popular, incursionando por Shakespeare e Hermilo Borba Filho, ele mesmo, sem deixar de recorrer à colaboração/participção de José Cláudio (artista plástico pernambucano) para a construção da história em quadrinhos de “O Livro dos Mortos” – uma das partes/capítulos de Agá. Em seu último romance, Hermilo reflete conteúdos e contradições de uma realidade plural, transmitindo a complexa simultaneidade dos fatos. Motivações ideológicas das mais díspares são atualizadas no texto: no mesmo nível, são colocados a utopia revolucionária, a corrupção, a busca da santidade, o erotismo desenfreado e o heroísmo de personagens históricas. Agá é um vasto painel, ainda que em aberto, no qual a fragmentação estrutural impõe-se como metáfora maior (alegoria) da fragmentação mesma do mundo real, que, em suas páginas, está esteticamente refletida. A unidade de Agá resulta da expressão da cosmogonia carnavalesca, conduzida pela sátira menipéia.

Mas Hermilo, desde “As pernas daquela moça”, escrevia histórias curtas, editadas em periódicos e depois em livros. Em sua trilogia de novelas, (como ele preferia), o discurso assume o realismo mágico, alimentado no contato com a cultura e a realidade do Nordeste, fonte de sua criação, sempre comprometida com a condição humana: O General está pintando (1973), Sete dias a cavalo (1975) e As meninas do sobrado (1976 - póstumo).

Para Carlos Eduardo Galvão Braga,

uma característica das novelas hermilianas contribui para o alcance do efeito de encantamento visado pela narrativa realista-maravilhosa: com a dissolução das fronteiras entre o natural e o sobrenatural, que deixam de ser antagônicos para se conciliar dentro de uma mesma realidade, narrador e leitor não sentem mais a necessidade de explicar o acontecimento insólito, e o relato está livre, como mostrou Benjamin, para converter-se em história notável: “já é metade da arte de narrar, liberar uma história de explicações à medida que ela é reproduzida.”.

Seu último livro concluído é também novela: Os ambulantes de Deus (1976 – póstumo). Nele, conforme Antônio Fernandes de Medeiros Jr.,

a presença constante do absurdo configura a organização grotesco-alegórica que promove o desarranjo das convenções para fundar os aspectos particulares do universo narrativo. Neste mundo movente, tudo revela-se contaminado pela perspectiva da morte.

Em Os ambulantes.... cinco personagens, colhidos entre os marginalizados pela sociedade, embarcam na jangada de Cipoal, numa travessia da pungente condição humana.

As novelas hermilianas, povoadas por prostitutas, bêbados, gente da feira, criaturas anônimas que mereceram o olhar privilegiado do autor, alimentam-se do popular regional, para ilustração das contingências do Homem, em um universo que se instaura nos domínios do maravilhoso. Por isso, Nelly Novaes Coelho estabelece comparação entre Hermilo e Gabriel Garcia Marques, considerando o realismo mágico experimentado por ambos. Porém, a estudiosa adverte não se tratar de influência de Marques sobre o pernambucano e aponta a “identidade de vivências” resultante de “profunda sintonia com as forças mais atuantes no pensamento criador de nossa época...” – que ainda nem mudaram tanto em relação a nossos dias, pelo menos para os autores capazes de notar nos conflitos da gente miúda e anônima a manifestação universal das dores do Homem.

Osman Lins, Leda Alves e Hermilo Borba Filho (São Paulo, 1976)

Cronista contumaz, Hermilo espalhou em inúmeros periódicos suas impressões sobre o cotidiano e o transcendente, sobre arte e artistas, sobre os humildes e os ilustres, sobre o popular e o erudito, sobre a boa comida (e como gostava de comer bem!...) e a boa bebida (por recomendação médica, depois de enfartado e safenado, limitava-se ao uísque). Falou muito do Brasil e sua gente, principalmente dos poetas e dos oprimidos, e outro tanto da amada cidade do Recife. De janeiro de 1974 a dezembro de 1975, contemplou os amigos com as “louvações”, publicadas mensalmente. Essa produção dispersa vem sendo reunida em livro, graças à apaixonada dedicação de Leda Alves e à fidelidade de amigos: Palmares e o coração (1997); Louvações, encantamentos e outras crônicas (2000).

Além de professor da Universidade do Recife, na qual foi chefe de Departamento, Hermilo lecionou na Universidade da Paraíba e ministrou cursos em Assunção, sobre cultura popular brasileira, e proferiu conferência, em Paris, sobre os espetáculos populares do Nordeste do Brasil.

Seu caráter de líder levou-o a ocupar funções públicas, buscando sempre uma atuação nos meios culturais em benefício do Recife e de Pernambuco e do Nordeste. Seu trabalho como criador e como agente cultural mereceu reconhecimento na forma de diversos prêmios, entre os quais o título de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres, concedido em 1969, que lhe foi entregue, em 1972, por André Malraux.

No dia 2 de junho de 1976, sua voz silenciou. Já não podia mais continuar dizendo “que são imorais as guerras, as torturas, as bombas, todas as armas” (Deus no pasto). Hermilo Borba Filho encantou-se na velha Recife. Deixou, entre outros documentos literários, o esboço de um romance que poderia ampliar a tetralogia (deixaria de ser “tetralogia”? quem sabe?) – cujo título “provisório” seria Europa (?), um livro para “netos” com a narrativa interrompida em uma vírgula no fim da página e o projeto de O boticário magistral.

Para os hermilianos, deixou uma obra de denúncia e de transgressão, comprometida com as “dores do homem” e com uma proposta poética renovadora; e mais os desafios de seu acervo e de seus projetos interrompidos.

Para mim, ficou uma paixão, desde o dia, em 1978, em que entrei em seu universo de criação, respeitando o resguardo da saudade de Leda Alves, tendo como cúmplice e colaborador, que legou arquivo e biblioteca para a posteridade, esse cavalheiro da segunda decadência : Hermilo Borba Filho.

Sônia Maria van Dijck Lima nasceu na Bahia (Brasil), diplomou-se em Letras, pela Universidade Católica do Salvador (Brasil), e em Pedagogia - Orientação Educacional, pela Universidade Federal de Sergipe (Brasil). Fez doutorado em Letras na Universidade de São Paulo e pós-doutorado em Literatura Brasileira na Universidade Estadual Júlio de Mesquita - Araraquara (Brasil). Reciclou sua formação de pesquisadora em dois períodos de estágio no CNRS-ITEM (Paris). Foi professora da Universidade Federal de Sergipe e, depois, da Universidade Federal da Paraíba, onde se aposentou. Foi professora visitante dos cursos de pós-graduação da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Estadual de Londrina (Brasil), com bolsas CAPES e CNPq, e professora convidada na Université Paris X-Nanterre (2006 e 2007). Integrou a Diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (1998-1990), tendo sido anos depois sua Presidente (1994-1996). Sócia fundadora da Associação de Pesquisadores de Manuscritos Literários, participou da Diretoria dessa sociedade científica em diferentes cargos, em mais de uma gestão. Crítica literária, pesquisadora de arquivos literários (história da literatura e crítica genética), tem trabalhos publicados no Brasil e no exterior. É contista e poeta bissexta. Apaixonada pelas novas linguagens e pelos novos suportes, produz cd rom e é web master. Endereço de seu site: www.soniavandijck.com
 

 

 

 


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