Risoleta Pinto Pedro
CONVERSAS COM HELENA À BEIRA-RIO
Feliz ano n'ovo

Encontrei Helena à entrada do ano novo, cantando uma lengalenga de total nonsense, como todas as lengalengas:

- Novo ano, ano novo, ovo ano, ano ovo, voo ano, ano voo, pelo ano novo voando vou antecipando o voo do novo ano.

Aqui, respirou um bocadinho; e continuou:
- Germinante…mente o novo ano, antes de nascer, já não tem nada de novo, excepto o voo, excepto o ovo, excepto o novo. Aí sim, o ano ovo é novo. Lá vem o ano novo rio acima como novo em voo de ave para a nova desova, como nave, como clave, supernova, super ave.
- Bebeste, Helena?
- Nadinha!
- Qual é a ideia, então?
- A ideia é adormecê-lo, anestesiá-lo, hipnotizá-lo, trocar-lhe as voltas, abrir-lhe as comportas, deixar este velho ano novo que aí vem, bastante tonto, em tanto espanto, vagamente vago e vazio. No fundo: ganhar tempo, raios!
- Why???
- Antes que se ponha com coisas! A ideia é esfregar-lhe as ideias, torcer-lhe o destino, apagar-lhe o passado, espremer-lhe os dois hemisférios (tão jovens e tão sérios!), deixá-lo à deriva, como bêbedo, contornar-lhe o sono, arredondar-lhe os sonhos, deixá-lo num oito… deitá-lo ao chão, esticá-lo em infinito…
- Esticar um ano ao infinito? Ainda nem começou… sabes lá se interessa?
- Com este tratamento, de certeza que vai interessar.
- Estás assim tão certa?
- Um ano sem peneiras, sem arrogâncias mansas, feito num oito como biscoito, deitado e devidamente regado…
- Regado?
- Com champanhe!
- Champanhe?! Um bebé, Helena?!!!
- Champanhe, do bom!… Mas dizia eu, que este ano com o dois no princípio e o seis no fim e duas rodas no meio, para mim vai de carrinho, feito num oito.
E virou-me as costas, o que já vem sendo habitual, mas desta vez com toda a justificação: já ali vem vindo o desejado, o receado, o esperado. Já se vislumbra uma rodinha, rio acima. Ciao, ciao! Aqui vou eu receber o novo ano, antes que Helena se antecipe. Primeiro há que embalá-lo, há que beijá-lo, há que aquecê-lo, há que abraçá-lo, há que mimá-lo, amamentá-lo, fazê-lo feliz. Antecipar-me a Helena, ainda que ela se zangue comigo. Paciência. Um bebé precisa de ser bem recebido. E eu sei receber bem um bebé.
Agora que já sei o que vou fazer e como vou recebê-lo, estou descansada. Vai correr tudo bem. Está activado o padrão de excelência. Eu e Helena fazemos uma boa equipa. Aquela espécie de esconjuro dela também não é de desprezar. Connosco, o novo ano pode vir descansado. Recebê-lo-emos em púrpura e azul, que retiraremos directamente do arco-íris. Com a ajuda do sol.

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