Risoleta Pinto Pedro
Adelaide Cabete
HOMENAGEM A UMA MULHER
(Diálogos com Helena à beira-rio)

Helena tem ido ao cemitério. Tem fases. Agora é uma fase de ir ao cemitério. Às vezes vai a bares, às vezes vai a jardins, às vezes vai a esplanadas, às vezes vai a miradouros, às vezes vai ao cinema, outras vezes ao teatro, às vezes vai a casa dos amigos, às vezes vai à lua, às vezes vai ao centro de si, às vezes não vai a sítio nenhum. Agora, que, segundo diz, se sente mais viva do que nunca, vai ao cemitério. Celebrar a vida. Segundo diz. Não consigo perceber isso, mas ela disse-me para não me preocupar. Não me preocupo.

Fascina-se com os monumentos funerários, com os símbolos, com os nomes, com as inscrições nas lápides. Um dia, quase tropeçou numa uma campa rasa em que a “tampa” parecia ter sido afastada. Olhando melhor, apercebeu-se que não se tratava disso, mas podia tratar-se de várias outras razões, entre as quais: arte e símbolo. Porque símbolos eram coisa que não faltava sobre aquela campa rasa.

Dizia-me:

- Campa rasa no espaço, campa elevada no símbolo. Mas qual o significado do símbolo?! Um nome de mulher: Adelaide Cabete. Apelido estranho! E no entanto encontro-lhe ressonâncias. Sobre a pedra “afastada”. Uma data: 1867-1935. Um triângulo invertido com o vértice a apontar o norte, intersectado ao meio por uma linha…

Onde Helena reconheceu o símbolo da terra. Semi-escondida pela pedra, uma folha velha, molhada; tinha chovido havia pouco.

- O túmulo tem a data de 5 de Outubro de 1995.

Helena achou curiosa esta coincidência com a data da implantação da República.

- Sobre uma pedra um pouco em bruto, um compasso e um esquadro entrelaçam-se. Um cinco suspenso de uma linha que cruzou o triângulo e formou a terra, encima o abraço do esquadro e do compasso. A pedra encontra-se humildemente colocada sobre a terra e ervas. Alguém ali deixara uma flor branca.

Túmulo de Adelaide Cabete

Às vezes faz sentido sair de um cemitério e entrar numa biblioteca. Helena queria saber quem fora esta mulher com o símbolo de um planeta e de uma deusa, Vénus, no seu túmulo. E a taça e a serpente. Muito misteriosa, esta sepultura. Tudo isto, ou muito mais que isto, a atrai. Vai em busca de Adelaide Cabete nos livros, como quem procura, no registo do Universo, um familiar remoto que não conheceu, mas a que se sente especialmente ligada.

Como quem se procura a si mesma.

Ainda a caminho dos livros, as sinapses vão-se fazendo e recorda uma peça de teatro que vira, uns anos atrás, no Nacional: A Maçon, da Lídia Jorge. Era, então, esta mulher!

- Precisava de saber mais sobre esta figura com direito a peça de teatro representada no Teatro Nacional e símbolos no túmulo!

Confidenciou-me. E foi saber. O que depois me trouxe:

- A Drª Adelaide Cabete, de nome simbólico Louise Michel, foi, afinal, uma personalidade de relevo da 1ª República, lutadora tenaz pela igualdade de direitos entre os dois sexos, Venerável Mestre da Loja Humanidade, inicialmente formada e apoiada pela maçonaria masculina, o Grande Oriente Lusitano, que mais tarde abandonaria, por lhe imporem como condição que a sua Loja tivesse um estatuto de menoridade, como Loja de Adopção, sob a autoridade das lojas masculinas. Não pondo em causa a fraternidade, onde estava a liberdade? Onde estava a igualdade? Foi, então, em busca de uma Obediência Maçónica mista, o Direito Humano, em França, e voltou aqui, criando outras Lojas, dando assim origem à Jurisdição Portuguesa de que foi Presidente. Na sequência do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, esta Obediência, com a imposição da Ditadura, viria abater de colunas pouco depois.

- Mas ela, a mulher? Questiono.

- Médica ginecologista de profissão (a terceira mulher portuguesa a formar-se em Medicina em Portugal), mas que também teve uma importante acção na área da puericultura, da higiene feminina e na luta contra o alcoolismo, pertenceu à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, que teve actividade entre 1908 e 1919, com ligações ao partido republicano, que apoiou a queda da monarquia constitucional, embora livre de subordinações a qualquer facção política, religiosa ou filosófica. A Liga tinha como objectivos defender a dignidade feminina, tomando mesmo posições feministas, como a remuneração equitativa do trabalho, assim dando ao conceito de “feminismo” toda a dignidade; defendiam a emancipação feminina, especialmente das mulheres socialmente mais desfavorecidas.

Mas pelo facto de ser médica não se pense que vem duma família burguesa abastada. Pelo contrário. Órfã, nascida em família pobre, sempre conheceu o trabalho: no campo. Nasceu em Elvas…

Como Helena, talvez daí a ressonância do nome…

- … em 25 de Janeiro; aí trabalhou na apanha da ameixa. Trabalhou também em casas alheias, ricas. Mas já nessa idade com estes condicionalismos era um ser livre, não perdeu tempo nem perdeu de vista o essencial e aprendeu, praticamente sozinha, a ler e a escrever. Foi pela voz, que o futuro marido, Manuel Cabete, sargento da Guarda Republicana, se prendeu dela: enquanto cantava as “saias”, uma música alentejana tradicionalmente feminina. Foi realmente uma aliança, e foi feliz., porque formaram um verdadeiro casal.

Com ele aprendeu a olhar politicamente o mundo, e a condição feminina. Por detrás desta grande mulher houve, sem dúvida, um homem grande que, ao contrário do que era, e às vezes ainda é, habitual, não a ofuscou, mas apagou-se para que brilhasse. Com ela partilhava os trabalhos diários da casa, o que na época estava longe de ser uma banalidade. Faz a instrução primária já depois de casada, com 22 anos e depois, em Lisboa, a partir de 1895, começou a estudar Anatomia. Encostada ao balde com que lavava o chão.

Também aqui Helena se identifica com ela; as coisas que Helena faz com um esfregão na mão! Desde construção de textos inteiros, poemas, à preparação das mãos para os vários teclados em que toca, do piano ao PC…

Continua:

- Viria a ser obstetra, ginecologista, lutadora pelos direitos das mulheres, pela República, pelos direitos das crianças e dos animais. Pela causa anti-alcoólica.

No Instituto de Odivelas foi médica e professora. Deu conferências, participou em congressos.

A bandeira nacional hasteada em 1910, em Lisboa, aquando da implantação da República, foi ela que a bordou, com outras duas mulheres.

Foi maçon em Portugal, num tempo reivindicado (ainda hoje!) pelos homens.

Bateu-se contra vários tipos de violência, nomeadamente os brinquedos bélicos, pelo voto das mulheres e foi, em 1933, em Luanda, onde se encontrava com o sobrinho, a única mulher a votar a Constituição Portuguesa.

Mostrou que nem o berço nem o sexo limitam o ser, provou que o compasso, fechado e asfixiador, pode abrir a 180 graus e formar um círculo de 360 graus. E respirar. E deixar respirar.

- Onde foste tu aprender essas coisas, Helena?

Não me respondeu. Limitou-se a concluir:

- Faleceu em 14 de Setembro de 1935. Não nos cruzámos por aqui.

Terminada esta breve mas intensa autobiografia, Helena mergulha em profundo silêncio.

- Em que pensas, Helena?

- E eu aqui…

- Como?

- Que faço eu aqui na conversa? Tenho de ir lavar o chão.

Foram as palavras que disse. Eu ouvi:

- Tenho de ir tocar piano, tenho de ir escrever. Tenho de ir estudar. Tenho de ir cantar. Tenho de ir dançar. Tenho de ir cozinhar. Tenho de ir pensar. Tenho de ir descansar. Encostada a um balde com uma esfregona.

Olho-a, já a meio da rua.

Lá vai balouçando na mão o saco do detergente que acabara de comprar. Na
outra mão, um livro. Estarei a ver bem? Anatomia?! Afinal, é um livro de poesia. Título: Anatomia. Autor: Um nome de mulher, mas não consigo ler. Helena já vai longe.

 

 




 



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