Risoleta Pinto Pedro
O TRABALHO DE DEPURAÇÃO DA ESCRITA/REESCRITA,
EM FINISTERRA, DE CARLOS DE OLIVEIRA

ÍNDICE:

I- INTRODUÇÃO

II- O CORPUS

III- METODOLOGIA

IV- COMENTÁRIO/ANÁLISE DOS EXCERTOS

V- CONCLUSÕES

VI- BIBLIOGRAFIA

VII- COMENTÁRIO À BIBLIOGRAFIA

I- INTRODUÇÃO

1. "... A inovação é indispensável a uma obra poética. ...O material das palavras, as combinações achadas pelo poeta, devem ser reelaboradas. ... Quais são, pois, os dados indispensáveis ao início do trabalho poético? __... a matéria. As palavras. Um contínuo enriquecimento dos reservatórios, dos depósitos dos nossos crânios, com palavras necessárias, expressivas, raras, inventadas, compostas...

O tempo é também necessário para deixar uma coisa já feita repousar.

Todos os versos que eu escrevi sobre um tema imediato com o maior entusiasmo interior, e que me agradavam a mim próprio enquanto os fazia, pareciam, apesar disso, insípidos, não trabalhados, unilaterais. No dia seguinte tem-se sempre uma terrível vontade de os refazer.

Por isso, quando acabo um poema encerro-o numa gaveta durante vários dias, em seguida retiro-o e vejo imediatamente os defeitos que nele se escondiam.

Trabalho muito fatigante.

Como fazer versos,
Vladimir Maiakowski

 

2. " Ah, mas o que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), __ são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, tem que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos, em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, __ em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós a não compreendemos (era uma alegria para outro__), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros,__ e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas."

Os cadernos de Malte Lauridge Bridge,
de Rainer Maria Rilke

 

3. " Nos umbrais desta página recebo o poema que chegou de longe, duma memória escura, voluntária, atravessando lama, sono, olvido...."

" Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no Outono (o mesmo voo morto, vegetal) e pousa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema."

“... e no entanto/ se eu chamasse/ quem dentre os homens me ouviria/ sem palavras?"

Trabalho poético,
Carlos de Oliveira

 
Se aparentemente, a inclusão de citações de dois poetas (refiro-me aos dois primeiros) de experiências tão diferentes só poderia conflituar, esse conflito não é senão aparente, e uma leitura atenta pode dar-nos conta da sintonia existente. O papel do tempo, a importância da reescrita, a maturação do processo criativo, a insatisfação permanente do autor, em suma, o trabalho, que de modo nenhum se opõe à inspiração, porque de trabalho interior se trata também. Inspiração e trabalho, apenas as duas faces da mesma moeda.
 

 




 



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