RICARDO DAUNT

Sobre algumas raízes profundas do
Movimento do Orpheu

20. Pessoa e a poesia inglesa

Sabe-se que na altura em que Pessoa escreveu suas coloborações para a revista A Águia , não poderia ter manuseado a antologia de Herbert Grierson sobre a poesia metafísica inglesa do século XVII, simplesmente porque a referida coletânea, já mencionada, veio a lume nove anos depois; por motivo idêntico, não teria lido o último volume da obra Minor poets of the Caroline Period , de George Saintsbury, que só saiu em 1921, mas provavelmente tinha conhecimento de que Johnson referira-se no Lives of the poets (1) a alguns nomes da escola de Donne de maneira muito peculiar -- e, mais ainda, tivera Pessoa contato direto, provavelmente já em seus anos de liceu em Durban, com essa matriz poética que coincidentemente foi também decisiva leitura para T. S. Eliot, como este, aliás, em diversos momentos -- e diferentemente do poeta português --, reconheceu publicamente (2).

Será possível considerar a hipótese de que a menção, feita por Pessoa, da existência de uma lírica com as características por ele apontadas (e que são, inegavelmente, de ordem metafísica) nos versos de Pascoais, Beirão, Junqueiro e Cortesão, depois do que acabamos de analisar, nada tenha a ver com a estética de poetas como Donne, Crashaw, Marvell, Cowley, Aurelian Townshend e Edward Benlowes? Certo que não.

Se por um lado é também forçoso concordar que os poetas portugueses mencionados por Pessoa de fato se constituem na primeira geração de poetas metafísicos de Portugal (e esta é mais uma contribuição pessoana, embora velada), o que não exclui, logo se verá, a possibilidade de encontrarmos um solitário poeta português metafísico de outra geração, anterior, é inegável que ao anunciar a chegada vindoura de um Super-Camões, que iria com grande imaginação pensar e sentir por imagens, conferindo à poesia daquele país um grau de objetividade jamais alcançado por ela, aprimorando e completando aquele trabalho encetado por Pascoais, Cortesão, Junqueiro e Beirão, Fernando Pessoa não apenas deixou claro para a posteridade que o lugar do Super-Camões seria seu (e foi), como também se autodenominou metafísico sem dizê-lo.

Se o leitor quiser, antes de prosseguirmos, realizar algumas investigações adicionais por conta própria, nessa linha tenuemente tracejada por Fernando Pessoa, examine o ensaio "The metaphysical poets" (3) , ou ainda este outro, "Andrew Marvell" (4) . Em seguida, proceda ao exame de "Elegia do amor" de Pascoais, ou de "O sonho", de Beirão, seguindo a trela estirada pelo poeta português; evidentemente não deve deixar de reler seus artigos publicados n A Águia . Desemboque imediatamente a seguir no interseccionismo pessoano e tome por exemplo os versos do primeiro poema de "Chuva oblíqua". Volte ao século XVII e leia, digamos, "Twicknam Garden", de Donne, ou "On a drop of dew", de Marvell.

Depois disso, o leitor poderá concordar com Pessoa que a raiz da estesia do transcendentalismo panteísta -- e em grande parte a que assiduamente subsidiou certa vertente órfica da obra poética pessoana -- alimenta-se da seiva dos metafísicos, e, tanto quanto nós, ficará intrigado pelo fato de Fernando Pessoa jamais ter exposto à luz do dia sua grande fonte de inspiração. Ao contrário, tem-se a impressão de que planeou ocultá-la.

Argumentará o leitor que isso não é de todo verdade, que não há ocultamento algum, posto que a influência da poesia inglesa em Pessoa é evidente e indiscutível. Ele foi educado sob os auspícios do mundo colonial britânico; seu primeiro poema foi escrito em inglês e suas últimas palavras que já sem fala, no leito de morte, transpôs para o papel, foram estas: " I know not what tomorrow will bring ".

Ademais, Pessoa produziu vasta obra em língua inglesa. Os "35 sonnets" foram congeminados em 1913 ou 1912, e publicados em 1918. "Antinous", de 1915, "Inscriptions" (cuja fatura é de 1920) e "Epithalamium", de 1913, compõem respectivamente, English poems I, II e III -- e prestam notável tributo àquele idioma; e em 1920, publicou o poema "Meantime" na prestigiosa revista inglesa The Athenaeum , no número que veio a lume a 30 de janeiro daquele ano.

Outro argumento sobre a franqueza pessoana quando se trata de expor seu profundo débito para com a cultura inglesa é o fato de Fernando Pessoa, em sua carreira literária, jamais haver desistido de se apresentar como poeta inglês, vindo a publicar, em Portugal, Na Contemporânea de março de 1923, em seu número 9, o poema "Spell".

"Antinous", acrescentará o leitor, não apenas é escrito em inglês como amolda-se ao esteticismo britânico, a despeito de conservar certa dicção da poesia romântica inglesa, como assevera Jorge de Sena (5). Se não se deve descartar o fato de que em Portugal poemas longos como esse não eram novidade, haja vista Junqueiro, Gomes Leal, Eugênio de Castro e Pascoaes, é inegável que a tradição inglesa oferecia "uma massa triunfal de poemas longos da mais vária espécie" (6) que o atraiu para submeter seu estro à prova.

Sabe-se que o epitalâmio, de origem grega, é uma canção nupcial, como Dionísio de Halicarnasso registra em sua Retórica . Os latinos fizeram uso dele, adaptando-o à tradição das festas fesceninas (em que à época das colheitas, homens adolescentes cantavam versos obscenos). Tal costume teve lugar também em festas matrimoniais e entre os romanos (quando então os versos fesceninos vieram a corresponder ao que na Grécia se denominava himenaios , ou cântico processional, que nada mais era do que um cortejo de vozes que acompanhava os nubentes até a soleira da alcova, atirando-lhes gracejos indecentes). Tanto a origem grega, mais cultivada, quanto a romana desembarcaram na Renascença. Pessoa optou pela alternativa fescenina, mas não tirou de vista o fato de que John Donne e Ben Jonson também foram adeptos do epitalâmio.

Os sonetos ingleses de Pessoa, se por um lado revelam que a matriz das rimas é a do correlato shakespeariano, a sintaxe, fato que não escapou a Jorge de Sena, é metafísica (7), portanto o argumento de que o poeta português escamoteou a influência metafísica em sua poesia não pode se sustentar, objetará o leitor. Se de fato tinha Pessoa o intento de fazer desaparecer as pegadas de seu trajeto de aprendizagem metafísica, bastaria deixar de publicar seus poemas ingleses.

Não é bem assim: a poesia metafísica inglesa a que Sena se refere na introdução aos Poemas ingleses é, não há dúvida, aquela justamente praticada pela geração de Donne, uma vez que Fernando Pessoa em seus versos ingleses apenas se limitara, de modo algo esquemático e artificial, a experimentar, anacronicamente, aquilo que Donne e seguidores já haviam realizado no século XVII (8). No entanto, a herança metafísica, com todo seu lastro de degenerescência intelectual, que Pessoa fez aportar, com suas colaborações, paralelamente, ao movimento do Orpheu, não é de modo algum aquela que transpira (por mero exercício, digamos, diletante) de seus poemas ingleses, nem mesmo a que, já sendo efetivamente metafísica, Pascoaes, Cortesão e Beirão praticaram, mas uma outra poesia metafísica, uma poesia metafísica em estágio ulterior de desintegração do intelecto, como foi a de Laforgue com relação a de Crashaw. Como foi a de Donne com relação a de Dante. E sobre esse ressurgimento da poesia metafísica em Pessoa o poeta não disse uma só palavra.

Por conseguinte, é de se inferir, dentre muitas outras coisas, que a referida 'absoluta originalidade' e concepção de mundo inteiramente portuguesa, que Pessoa alegara certa feita possuirem os transcendentalistas panteístas, é uma cortina de fumaça a escamotear o legado metafísico transcultural atuante naqueles, bem como nele próprio.

 

(1) JOHNSON, Samuel -- Lives of the poets . The lives of the most eminent English poets: with critical observations on their works. London, T. Longman, 1794. (4 v).

(2) Aqui, por exemplo: "penso que se escrevi bem sobre os poetas metafísicos, foi porque foram poetas que me inspiraram. E se sou apontado por haver tido qualquer influência em promover um interesse mais amplo a respeito deles, foi simplesmente porque nenhum outro poeta anteriormente foi tão profundamente influenciado por eles quanto eu fui". ELIOT, T. S. -- "To criticize the critic", Em sua: To criticize the critic and other writings . New York , Farrar, Straus and Giroux, [1965], p. 22.

(3) ELIOT, T. S. --"The metaphysical poets". Em sua: Selected prose of T. s . e liot . Op. cit ., p. 59-67.

(4) Id ., "Andrew Marvell". Em sua: op. cit. , p. 161-71.

(5) SENA, Jorge de -- "Introdução geral". In : PESSOA, Fernando -- Poemas ingleses (obras completas de Fernando Pessoa). Lisboa, Ática, [c. 1972], (col. 'Poesia', v. 2), p. 69.

(6) Ibid ., p. 50.

(7) Cf. ibid. , p. 78.

(8) Maria da Encarnação Monteiro parece ter encontrado nos sonetos ingleses de Pessoa, tal como seu conterrâneo, algo cujo nome, contudo, ela parece desconhecer, mas que, como já sabemos, trata-se justamente da sintaxe metafísica que Sena apontou. Diz ela: "a verdade é que aquilo que em Shakespeare e em certo setor da poesia isabelina [...] é instrumento de expressar, por meio de argúcias do pensamento, as complexidades do sentir, reveste-se no poeta português de diverso significado, dado que abandona a esfera do sentimento ou parte da sensação para penetrar e se expandir largamente no mundo das idéias " (itálicos nossos). MONTEIRO, Maria da Encarnação apud SENA, Jorge de, loc. cit . Talvez Encarnação Monteiro tenha se deixado influenciar pela carta de Pessoa a Cortes- r odrigues, de 1914, na qual alude a uma adaptação moderna que fizera de uns sonetos de Shakespeare nos quais localizara uma complexidade que o atraíra. Tal adaptação tratava-se muito certamente dos "35 sonnets" -- e a complexidade a que Pessoa se sentiu atraído a modernizar havia sido vertida na poesia de Donne e de seus pares metafísicos, antes de Pessoa empolgá-la.

 
 
 

 




 



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