RICARDO DAUNT
Os seguidores imediatos do movimento do Orpheu

Antes de dar início a este ensaio será oportuno fazer alguns esclarecimentos. O primeiro deles é sobre o sentido que estamos emprestando ao termo seguidores. Considero seguidores órficos aqueles autores (1) que a partir de 1915 (com publicações antes de 1915, ou não) e até o advento da revista Presença, em março de 1927, publicaram, no âmbito da ficção, da lírica, do texto de intervenção ou ensaístico, obra que de um modo ou de outro venha denotar influência órfica de qualquer matiz e intensidade.

Em segundo lugar, o termo seguidor não leva em consideração o grau de fidelidade do autor, expresso por seu percurso literário após 1915, nem antes -- e visa apenas apontar a ocorrência, mesmo que ocasional e fortuita, de um e outro traço órfico na produção édita desse ou daquele autor, entre as datas assinaladas.

Convém ainda observar que os textos que comparecem aqui, sempre um de cada autor, têm, por assim dizer, um mero caráter antológico, pois, diga-se expressamente,  não foi nosso intuito propiciar ao leitor um contato com o universo de obras de seguidores órficos, o que exigiria um trabalho diferente deste, com outros objetivos e proporções, mas apenas registrar nomes de autores que, no período acima demarcado, e a partir de textos arbitrariamente selecionados, comprovaram haver aderido, mesmo que provisória e eventualmente, a um ou mais programas de arte órficos.

O primeiro nome que gostaríamos de assinalar, iniciando assim o rol de seguidores órficos é Fernando Carvalho Mourão, cujo poema "Sepultado" acusa, já no primeiro verso, evidente influência da lógica do paulismo à Sá-Carneiro:

Houve palácios dentro em mim, quando eu
Erguia os braços para Deus e via
O olhar do próprio deus, formando o céu
Azul, daquele azul que canta o Dia!

Mas quando veio ao mundo a Noite Escura
Os meus olhos cerraram-se... ceguei,
E vi como era negra a Desventura
Que em vôo etéreo e louco abandonei!

Inda quis procurar dentro de mim
A porta dos dragões, mas o jardim
Tinha-se transformado num deserto...
Os palácios, agora confundidos,
Tombaram todos sobre os meus sentidos,
E, sob as ruínas, despertei do Incerto! (2)

Em 1916, João de Souza Tavares publica um conjunto de poemas  na  revista  Centauro  que,  como já referimos em outra passagem, denotam evidente influência sensacionista- interseccionista (3).

Dentre os 6 poemas que ali publicou, apenas numerados, escolhemos o terceiro, um soneto em que sensualismo e religiosidade estão presentes.

Tua presença é o vago...
No vago vives suspensa...
E eu na terra sou o lago
onde vês tua presença...

Roça por mim teu afago,
se o teu olhar se condensa
no espelho vago do lago
onde vês tua presença...

E passa, baça, por mim,
tua boca desbotada,
mordida, despedaçada...

Polidos como marfim
roçam teus seios pelos meus...
E ao nosso olhar desce Deus... (4)

A alterização e uma sensibilidade semelhante àquela de Sá-Carneiro estão presentes nos versos abaixo de Américo Cortes Pinto, que, contudo, deixam escapar o idealismo religioso característico dos poetas saudosistas:

Romeiros de Ideal
Meus gestos peregrinos se exilaram...
Tiniram luz em longes de cristal
E em espelhos de mentira se espelharam..

Contrito,
Minha alma traz Jesus-Crucificado!
Senhor meu Deus! O meu desejo em grito
Cegou de luz meus olhos de abismado...

Orgulhos e vaidades que eu ergui
Caíram de tão alto aos pés de ti,
Jesus!

Senhor! Senhor! Tua presença em mim
Quebrou-me as altas Torres-de-Marfim
Em estilhaços de luz! (5)

Cortes Pinto melhor resolve sua adesão ao modernismo -- e à estética órfica -- no poema "Ironia bucólica", em que se ocupa de dessacralizar e combater o lirismo tradicional, contrapondo ao seu temário, a estesia do antilirismo, debruçada sobre o banal e o cotidiano e alicerçada por um enunciado propositadamente descuidado:

Meus bons amigos: -- o pensar é uma canseira
Que não vale para vós o esforço que a produz,
Por isso vou cantar os gados, a lareira,
O mar e a lavoura, as águas mais a luz...

Ides ver neste poema descuidado
Cheirando a madressilva, a terra e a maresia,
As enxadas cavando e os sulcos do arado,
E as cartas que um Manel screveu a uma Maria...

Para escrever canções deste feitio,
Dão-se férias à cabeça e ao nervoso,
Basta beber dum trago este ar sadio
E deixar correr a pena que é um gozo...

Isto não é sylva exotérica -- está dito
Mas sempre é bom fazer estes reparos -
Para os raros apenas não foi escrito,
Mas sim apenas pros que não são raros...

Isto é um poema feito num momento
-- E feito de propósito para vocês!
Pegai lá -- não precisais de ter talento
E basta saber ler em português. (6)

Nesse mesmo número da revista Ícaro vamos encontrar alguns sonetos de João Cabral do Nascimento. Com exceção do derradeiro, os dois primeiros denotam certa influência do simbolismo-paulismo, que fica mais patente ainda nos versos abaixo:

Adoro tanto este lugar! e sei-o
quase de cor, que tudo olvido; e penso
muitas vezes, que o mundo vasto e imenso
é que anda ao meu redor, e eu fico a meio.

Outras cousas estanhas sonho e creio.
Consigo alhear-me. A névoa, qual incenso,
vem subindo do rio e é agora um lenço
de alvura e de perfumes todo cheio.

Não compreendo como há tanta gente
que ignora a minha vida, e está contente...
Doce paisagem, muito verde e em curvas...
E todas estas tristes ironias
componho-as a sorrir, olhando as frias
águas, que pelo rio descem turvas.(7)

Impregnações sensacionistas também estão presentes nos versos de Cabral do Nascimento, como na passagem seguinte, já cotizada acima: "a névoa, qual incenso, / vem subindo do rio e é agora um lenço de alvura e de perfumes todo cheio".

Mais tarde, o poeta refundirá motivos decadentes, como o mito de Narciso, ou o de Electra, injetando, neles, sensualismo -- mas o tema ainda frutífero do encontro/perda amoroso/a permitirá ao autor produzir seus melhores frutos (8).

Antonio Ferro foi um dos editores da revista Orpheu. Talvez o mais jovem dentre os que deram corpo à revista. Não obstante, só estrearia em 1918, com o volume poético O ritmo da paisagem (9). 3 anos depois, publicaria um livro de frases, Teoria da Indiferença (10), mas é em Leviana (11) que encontramos uma forte influência proveniente em parte da produção órfica de Almada-Negreiros -- e, em grande parte, fruto de um contato com a prosa de ficção de Almada-Negreiros pós-órfica, ou seja, de um contato com aquelas obras posteriores ao advento de Portugal Futurista, caso da novela A engomadeira, bem como do conto "O cágado".

Assim, em Leviana iremos revisitar o coloquialismo de Almada, sua desmistificação escritural, vários outros expedientes narrativos seus (mormente aqueles que não revelam sua aproximação do futurismo), como o comentarismo (com suas freqüentes interpo-sições de matéria opinativa ou de sentido moral, em meio ao entretecer ficcional) e o fragmentarismo, numa disputa sempre acirrada contra a convenção social, em que se serve do jogo de palavras e de uma propensão para o absurdo (esta, sim, originada na adesão ao programa futurista). Um trecho da novela de Antonio Ferro, mesmo porque reproduzi-la na íntegra não seria possível, pode  ilustrar, em parte, o que dizemos:

A Leviana falava muito. Inundava-me de palavras, de risos, de gestos. Tinha guizos na alma. A sua boca era um baile de máscaras, um baile de máscaras torpe onde as palavras, em tangos histéricos, caíam, umas sobre as outras, bêbadas, às gargalhadas...

Toda ela era movimento. A sua presença, mesmo quando não falava, era um grito. O seu sorriso era uma falena de asas salpicadas que, em vôo sobre o seu corpo, ora descansava na papoila sangrenta dos seus lábios, ora  no  salgueiral  das sobrancelhas a marginar-lhe os olhos, ora nos solitários dos seus dedos... As suas palavras caíam sobre o meu tédio como uma chuva miudinha, a refrescá-lo. A sua alegria era um pombal na Hora-Asa em que as pombas abalam para o céu...

[...]
A Leviana tinha um grande desprezo pela minha arte: "Sabes fazer versos? Melhor era que aprendesses a dançar." Esse desprezo, longe de magoar o meu orgulho, lisonjeava-o. As mulheres que têm relampejado na minha vida, devo-as aos meus versos, esses versos de que eu não tenho a responsabilidade, que vivem hospedados na minha alma, como boêmios numa trapeira. Só a Leviana gostou de mim  sem os meus versos que foram, para ela os meus únicos defeitos, que são, na verdade, os meus únicos defeitos... A Leviana nunca me tomou a sério, eu nunca tomei a sério a Levina. No entanto, as nossas bocas abriam-se para rir e fechavam-se num beijo (12).

A instabilidade da unidade psíquica do sujeito de enunciação lírico e o motivo órfico do vôo, como sua resultante, posto que meio de transporte órfico para um não-aqui e um não-agora (escapismo que é, por sua vez, produto de uma inconformidade do sujeito lírico com o status quo), está presente no sensacionista Antonio Souza. Assinalemos alguns versos de seu poema "Hora de redenção".

Mas sobre mim, de bruços
As sombras do que fui se desesperam
Em raivas e soluços
Querendo voltar à vida que perderam!
[...]

E eu sou assim a estranha criatura
Que sente viva as mortes que morreu,
E através duma pávida tortura
Da terra vai subindo para o céu!
[...]

É um mar alto e revolto a minha dor
Que em negras ondas se alevanta!
Mas sobre ele o meu sonho criador
De asas brancas abertas voa e canta

Porque uma estrela santa que eu adoro
E creio que me guia
Conta no céu as lágrimas que choro
E vai rezando: Padre-Nosso, Ave-Maria!...(13)

Vieira de Almeida compreendeu bem a herança interseccionista lírica e simultaneísta plástica que os mentores do Orpheu transmitiram  à  posteridade; soube, ademais, expe- rimentar a estesia do Orpheu no plano da emoção em que a hipersensibilidade aparece mais aflorada. O poema sensacionista-interseccionista "Neve" é prova disso:

Neve faiscante. Luar dormente.
Neve. Altas Nuvens. Noite imensa.
Toda luar, a neve algente.
Toda nevada, a lua intensa.

Luz de milagre, incerta e nua;
Lumínio assombro, inquieto e leve;
Neve ascendente à nívea lua;
Luar desfeito em fria neve.

Noite e mudez. Lua tristíssima.
Vago fulgor da lua fria.
Lento livor da neve alvíssima.
Silêncio e luz, em litania.

Angústias côncavas, neblíneas;
Silêncio feito de ânsia viva;
Chão em desmaios de glicínias.
Súplica de almas em ogiva.

O leito imenso alvinitente
Para um sombrio e amargo sono!
Esperança aflitiva, já no poente!
Desejo lento, já no outono!

Noite e mudez. Luar dormente.
Nuvens no céu em curso breve.
Toda de neve, a lua algente.
Toda luar... a neve... a neve... (14)

A sensibilidade de Sá-Carneiro parece haver influenciado Salema Vaz, conquanto o poeta não se defina claramente por um dos inúmeros ismos, com suas combinações e derivações, preferindo, em "Marcas, olhando os dedos nus", a difícil lição de combinar a veia ainda do ultra-romantismo com a sensibilidade decadente que diretamente herdou:

Heráldicas safiras, que vos fiz?
Esmeraldas d'esperança, onde vos pus?
De astrais brilhantes, que é da casta luz?
E onde sangrais, meus bélicos rubis?

Perdi-vos para sempre! A sorte o quis!
Choram por vós meus pobres dedos nus...
Como um vitral precioso nos seduz
De Laura o lácteo corpo onde fulgis!

Tudo o que eu tinha, Amor, tudo te dei.
Sou pobre como Job e como um Rei
Fui pródigo de bens e d"Honrarias!...

Hoje... ai de mim!... Quisera reaver
Meu coração, que tu levaste, a arder,
Por entre coruscantes pedrarias! (15)

O   longo   poema   sensacionista-interseccionista-futurista "Manucure", de Sá-Carneiro, terá sido, muito provavelmente, um dos modelos, se não o principal,  que  Fortunato Velez tomou de empréstimo para compor a estridente melodia anti-lírica, de vozes e ruídos citadinos, tecido que vai urdir o poema "Paris de França; excerto de Paris movimento e cor":

Que raiva! tanta gente
emerva! Mais ainda: encoleriza, enfarta!

Vá mais depressa! passe...
Não passa! Um raio a parta!
Ora o estupor da velha, aqui a pisar ovos!
................................................................................
Não compro! Não me mace!
-- Clemenceaus com movimento...
Que tal está o do invento! -
.................................................................................
E a pescar rapazes novos...
Cróia velha! Canastrão!

"L'Intran...sigeant..."

Quatro"sous"! Ora o ladrão!
Vê-se bem que sou estrangeiro...

E esta! Sempre a esbarrar com "poilus"!
Vitrines de latão com trapos de cem cores...
Apliquem-lhe o letreiro:

TARTARINS  METRALHADORES
COM QUATRO ANOS DE  CAÇA,
QUEREM SER  ADMIRADOS
POR TODA A GENTE QUE PASSA.

Nanja eu que os admire.
....................................................................................
"Viens..."
....................................................................................
Qual "viens" nem meio "viens", deixa-te disso!
...................................................................................
E as luzes do boulevard,
via-láctea burguesa
de lamparinas a par!

E o Louvre a evocar uma tragédia obscura...
-- Lupanar dos Valois
com exposição de pintura! -

"Oh! pardon Monsieur..."

Arre que é bruto!
Não se pode parar ao pé desta canalha!

A tal senhora de luto
lá foi sentar-se agora no Café...

-- Aquele velho no Braibant, não falha! -
Vamos lá sentar também
para ver como isto é.
.............................................................................
"Garçon, vite!"

A beberagem não presta,
e a madame... "Je m'en vais".

Gosta mais de Americanos,
os tais soldados guerreiros
da marca U. S. A.
Os Sem-Pavor das máquinas Smith,
Cavaleiros da Ordem do Guindaste
que vai estendendo o braço para cá.
..................................................................................
 Zut! Zut!
o "autobus"
apesar da ligeireza
faz um garulho infame de Babel!
Mas digam lá com franqueza,
- se isso é coisa que lhes sobra --
daqui, não les parece a torre Eiffel
um exemplar de ferro e aço em obra?

Também pode lembrar
um monstruoso A sobre alvenéis
realizando a forma
dum grande pesa-papéis.
.................................................................................
"Oh c'est rigolot!"
-- Um árabe a passar de manto e de turbante. -
..................................................................................
"C'est rigolot..." a dona sirigaita
nada conhece além do paletot.
Julga que o mundo é a França ou é farsante.

Odeio tudo isto! É bem de ver,
se já não tenho na algibeira um "sou"
nem um cigarro!

Oh Portugal! Café Martinho! Oh Tu!...

Que horrível ditadura esta "purée"!
Agonizo no sonho e no bulício...
Escorreu-me a sorte sem deixar resquício!

Entro na sombra enfim do Chatelet.
.....................................................................................
Do Chatelet!... (16)

No mesmo ano de 1922, Castelão D'Almeida publica "Canção rubra", de um lirismo sensacionista que em vertigem labora na direção da fragmentação do eu, explora a alteridade e a inconsciência, para finalmente se revelar como um ser de excessão, semelhante ao que já antecipara o sujeito lírico de muitos dos poemas de Mário de Sá-Carneiro.

Deste longo poema de Castelo D'Almeida, registramos alguns trechos abaixo.

Vibra a pandeireta em contorções lascivas.
Em requebros fulvos, curvas sucessivas.
Bailarinas nuas arabescamente,
Num cantar dolente
Todo rendilhado em movimentos mágicos,
Têm amrgos trágicos
No enrugar das bocas.
Bailarinas loucas, bailarinas loucas,
Com sapateados no mourisco pátio.

[...]

Silêncio sepulcral. Alheamento
Do meu pensamento
Das coisas naturais.
Ouço as passadas imateriais
Da multidão silenciosa.
Nos lábios brancos da vaporosa,

Etérea  bailarina,
Pôs nódoas negras a nicotina.

Não existo por mim, nem para mim:
Tenho alma de Arlequim.
Serpentinas de fogo, azul-violetas,
Adejam sobre mim quais borboletas
Sugando-me a razão de ser Alguém.

Beijos perdidos no anseio do Além;
Alma perdida no Vago.
Lágrimas caem no mistério mago
Da face estóica. Esfíngico martírio!...

Adoro as espirais do meu delírio:
Nas asas do seu doido espiralar,
Estou dentro de mim, sem me alcançar.

Fox trot infernal;  destrambelhados
Sons de violinos maguados;
Contatos sensuais da minha carne virgem
Com as filhas sangüíneas da vertigem.

[...]

Esqueço tudo ao querer lembar-me tudo;
Apenas tenho braços como escudo.

[...]

Eu, já não sinto o bulício
Da loucura humana:
Todo Eu sou um Outro, que se irmana
Comigo em negra inconsciência.
Brilha em meus olhos a fosforescência
Do cadáver do meu Eu.
O coração adormeceu.

[...]

Meus irmãos; eu sou o Singular,
O Imperfeito, o Ímpar, o Sem-par;
O Vagabundo, o Peregrino;
O que nasceu sem Destino...
Eu sou a noite dum sonho;
Nem de mim próprio disponho
[...] (17).

Em 1923, Bruges D'Oliveira publica o poema "Duas canções". A  plasticidade  pictural  dos primeiros versos,  em que os substantivos "luar", "rua", "céu" e "olhar" se interpenetram, fundindo planos espaciais e induzindo um novo sentido antinatural ao quadro, ilustra uma vez mais o fato de o simultaneísmo e o interseccionismo serem sinônimos.

I

O luar inunda a rua
E a mim inunda-me o luar:
A rua o luar da lua
E a mim a do teu olhar.

Então, minha alma estremece!
E eu não sei, Aluz do luar,
Se é do céu que o luar desce,
Ou sobe do teu olhar...

II

Nesta ausência e nesta dor,
Ó bem do meu coração,
Mais do que amor, este amor,
É uma religião.

Creio em ti, ó rosa triste.
Como um cristão quando crê
Em Deus, que sabe que existe
Mas no entanto não vê...(18)

No início de 1924, Adelino de Palma Carlos publica, em um número de Alma Nova, o poema "Ascensão", em que lampejos do léxico interseccionista de Sá-Carneiro aparecem aqui e ali ("sinto que beijo a ânsia doutro beijo"; "olhos-auroras"; "preces ruivas"):

Creditam beijos, delirantes, vagos,
Na doida orquestração do meu desejo...
E quando beijo os teus cabelos magos
Sinto que veijo a ânsia doutro beijo...

Agora cresce a ronda dos afagos,
Vagos e Magos -- Triunfal cortejo!
E teus olhos-auroras são dois lagos
Onde se espelha o teu amor, sem pejo!...

Hóstia de carne, alçada nos meus braços.
Num ritual bizarro, em que os abraços
São preces ruivas de missal antigo,

Ergo-te assim numa ascensão de glória,
E o nosso amor é grito de vitória
Nos meus lábios famintos de mendigo!... (19)

José Castelo de Morais imprime "Névoa" (20), poema em prosa, que examinamos em outro ensaio:"Notas sobre Orpheu 3". De Castelo de Morais, dissemos que sua sensibilidade é tributária em parte das correntes preparatórias do modernismo, a elas acrescentando um tom alucinatório que comunica com o vertigismo dislexical de Raul Leal, sua mais saliente influência no âmbito do Orpheu.

Manuel de Souza Mendes Pinheiro, que utilizava o pseudônimo de Gil Vaz, traz a lume, no final de 1924, 'Quatro sonetos' onde o ser depara às vezes a inexeqüibilidade da relação amorosa, como em "Redoma", em que entre os amantes "pesa o silêncio como nuvem densa" e "o medo se levanta", prenunciando um dos  topoi da lírica moderna: a incomunicabilidade; outras, como em "Amor",  a entrega é um vórtice onde os amantes se afogam como náufragos; nesses momentos Gil Vaz resvala pelo ultra-romantismo. Será contudo com "Espectros", outro poema incluído nesse quarteto, que o autor visitará, conquanto sem persistência, o sensacionismo de matiz semelhante ao de Sá-Carneiro:

Inundam-se os meus olhos, onde mora
A tua sombra esfíngica de ausente,
E o teu sangue do teu  sangue me devora
Este corpo em delírio eternamente.

No céu azul o sol é uma espora
D'oiro rútilo; e sabe toda a gente
Como o tempo galopa sem demora,
E o coração, que o acompanha, sente.

O tempo foge, alguma coisa fica
Que nos vem perturbar de quando em quando
Como um perfume de madeira rica.

Cego que foste, és hoje cinza e Deus;
E, ao lembrar os teus olhos, vou lembrando
As cegueiras que pairam sobre os meus! (21)

Gil Vaz realizará, contudo, no soneto "Inverno", publicado em 1926, uma mais bem sucedida aproximação com Orpheu, explorando aí a estesia da anulação do eu, cuja consciência se dissipa no esquecimento pleno:

Os calendários mentem! Afinal
Tudo morreu... E a dança de S. Vito,
Dos ramos nus, fez-te soltar um grito
Que vibrando varou todo o cristal.

Tens surpresas, és muito desigual.
Ninguém me vê alegre nem aflito:
Indiferente, apenas acredito
Que tudo nesta vida é natural.

Já me não prende a mais festiva palma.
São manequins os sonhos que desmembro
E se dissipam nesta fria calma.
Dia de crepes, luto de Novembro...
O fim do mndo, aqui, na minha alma.
-- Já não devo sofrer porque não lembro! (22)

Mário Saa, em 1924, publica 2 poemas na revista Athena, dentre os quais destacamos "Versos frios", 27 quadras que recordam o coloquialismo conceitualista almadiano, com a conseqüente desliricização e banalização do poema. Um trecho:

Todo o retrato pintado
é pra nós uma visão,
que pode ser ilusão
no caso de o retratado

não ser de nós conhecido;
que, quando a gente o cohece,
o seu  retrato aparece
como um retrato obtido.

Mas se a gente nunca o viu,
sobre o retrato tecemos
uma coisa que não vemos,
que pra nós nunca existiu.

Deste modo o retratado
é um vulto pressentido
mas nunca por nós sentido;
portanto pra nós errado;

que pode ser verdadeiro
ou coisa nunca existente
um nada que de repente
existisse por inteiro;

um nada que nos surgisse,
que a gente visse e não viu,
um vulto que se sumiu
e nunca mais se sumisse(..) (23)

Por último, assinalamos o poema "A cor dos sons", de Judith Teixeira, impresso na Contemporânea, em maio de 1926. Nele a autora acolhe a máxima pessoana que defende que "a base de toda arte é a sensação" (24). Mesmo embalada por este mote, Judith Teixeira não logra o mesmo resultado do outro poema que vimos de assinalar, fazendo sua lira descambar para um tom rebarbativo de pieguismo amoroso. Registremos, apesar disso, alguns versos:

Só ontem surpreendi
a cor dos sons
Enquanto eu dançava,
leve, grácil, turbada e radiosa
na tua face gloriosa
acendiam-se flamas dos mais vivos tons!

Recordo-me de notas tão ardentes
como flavas abelhas,
Tão rúbidas e escarlates
que as curvas airosas dos meus longos braços
lembravam-me açafates
de rosas vermelhas!

Os violinos subiam
crispando queixas
(..)

E em redor tombava, roxamente,
a cor arrefecida
do cinzento rosmaninho
algente e maguada...
A tua cabeça heráldica
pendia
numa saudade esguia,
estilizada!

Findara tudo...
Saímos
muito enlaçadas
[...].

Depois, no silêncio morno
da minha alcova,
as minhas mãos trêmulas e nuas,
perdidamente presas às tuas,
... luarentas e alongadas.
[...] (25).

Já no desfecho deste pequeno ensaio, havendo arrolado pouco menos de duas dezenas de seguidores -- na maioria das vezes pouco fiéis aos postulados órficos --  podemos de imediato concluir que o Orpheu não ecoou, nos anos que se seguiram a sua desmobilização, tão fortemente como parecia vocacionado.

Isso se deveu a vários fatores. O primeiro deles diz respeito às mortes trágicas de inúmeros integrantes, de capital importância para o sucesso do movimento, como Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Souza-Cardoso. O segundo diz respeito ao fato que seus grandes mentores remanescentes, como Almada e Pessoa, tomaram caminhos diversos. O último, depusera notoriamente suas armas após a morte do melhor amigo e se voltava para a construção de sua poderosa obra poética. Almada-Negreiros, na posição de último porta-voz do Orpheu, embora impetuoso e de personalidade cintilante, estava absorvido pelo Futurismo; sua obra seguia caminho diverso da de Fernando Pessoa, com quem poderia unir forças. Há ainda um terceiro fator, e diz respeito à evicção quase que imediata, e em massa, dos demais membros do movimento, logo após a iminente descontinuidade da publicação da revista Orpheu. Isto ocorreu quer porque faltava força de aglutinação para  manter orfistas unidos, quer  porque,  ainda,  suas vidas literárias demandavam um curso menos revolucionário e combativo.

Assim é que, atenuando-se abruptamente a influência  do Orpheu  no  cotidiano  português, este  teve  que esperar vários anos para ser analisado, compreendido e reabsorvido; mais precisamente até o  movimento literário que se articularia a partir de 1927, em redor da revista Presença, cujo vigor ensaístico e o entusiasmo pela modernidade seriam benéficos para a fixação  definitiva  do momento do Orpheu na vida artística e literária de Portugal.

(1) Deixamos de investigar, no âmbito das artes plásticas, os eventuais seguidores do Orpheu, embora seja inegável o mérito de qualquer pesquisa que vier, no futuro, a assumir tal empreitada, de modo a fornecer subsídios adicionais sobre a herança órfica e sua influência na arte contemporânea.

(2) MOURÃO, Fernando Carvalho -- Sepultado. Alma Nova. Faro e Lisboa, ano 1(8): 4, maio 1915. Este mesmo poeta, como frisamos anteriormente, publicaria no ano anterior um poema interseccionista, desenvolvendo um pathos semelhante ao que predomina nos versos de Sá-Carneiro. Cf. id. -- Visão cega. A Renascença. Op. cit., p 12-3, fev. 1914.

(3) TAVARES, João da Silva -- 'Poemas da alma doente'. Op. cit., p. 83-8.

(4) Id. -- III [Tua presença é o vago (....)] p. 86.

(5) CORTES PINTO, Américo -- [ Romeiros do Ideal [...]]. Ícaro.Coimbra, ano 1 (1): 24, jul. 1919.

(6) Id. -- Ironia bucólica. Ícaro. Coimbra, ano 1(2): 35-6, out. 1919.

(7) NASCIMENTO, João Cabral do -- [Adoro tanto este [...]]. Ibid., p. 50.

(8) Cf. id. -- [Oh lembrança de amor (...)]. Phoenix Renascida.Coimbra (1): 8, jul. 1921:

Oh lembrança de amor, oh viridente
flor de outonais jardins, cortada cerce,
que eu vi nas minhas mãos desvanecer-se
Como uma vã teoria insubsistente,

aonde páras? Insistentemente
teu cheiro, como o dum doirado alperce,
tão perturbante enlevo ainda exe4rce
junto de mim, que não crera ausente!

Oh  alma de jasmim, oh luminosa
esfera de cristal, qimera de oiro,
saudade de há muito pressentida!:

No fuste enlace a morte piedosa
veio, e não sei qual ness sonho loiro,
qual foi de nós o que ficou sem vida?

(9) FERRO, Antonio -- O ritmo da paisagem. Lisboa, s. ed., 1918.

(10) Id. -- Teoria da indiferença. 2. ed., Lisboa, H. Antunes, 1921.

(11) Id. -- Leviana. 4. ed., Lisboa, Roger Delraux, 1979.

(12) Ibid., p. 13-7.

(13) SOUZA, Antonio -- Hora de redenção. A Águia. 2. série., v. 20: 12, jul.-dez. 1921.

(14) VIEIRA DE ALMEIDA, Francisco Lopes -- Neve. Seara Nova. Lisboa, (1-12): 43, out.1921-abr.1922.

(15) VAZ, Salema -- Marcas, olhando os dedos nus. Alma Nova. Lisboa, 3. série. (2): 29, maio-jun. 1922.

(16) VELEZ, Fortunato -- Paris de França; excerto de Paris movimento e cor. Contemporânea. Lisboa, ano I, v. 1(2): 73-6, jun. 1922. No mesmo número da revista Contemporânea vamos encontrar, dentre outras colaborações, ainda um poema de José Bruges D'Oliveira, "Canção" (p. 52), mergulhado todavia no lirismo sentimental, ao lado de "Fim" (p.59), de Judith Teixeira e de "O lord" (p. 54), poema  publicado post mortem, de Mário de Sá-Carneiro. Bruges D'Oliveira dará prova convincente de adesão ao orfismo só um pouco mais tarde, como veremos. Judith Teixeira, ao contrário já agora dá mostras de haver compreendido a  mensagem  de  desencanto e sensibilidade exacerbada, legada pelos órficos, num poema em que a náusea da guerra ("asa negra") e a opiomania são as duas faces da contradição existencial. A última quadra do poema é sugestiva solução de linhagem simbolista: a sensação de dor se converte em sensação de som e cor.

Asa negra que esvoaça...
Negros dias ensombrados!
Roubaram-me toda a graça
aos meus olhos macerados.

Nevrótica, fim de raça...
Os meus nervos delicados
vão sucumbindo `a desgraça
dos tristes degenerados.

Trago nos nervos a morte!
Sou uma sombra em recorte
de tristeza e de ruína...

Virou dentro em mim a dor...
Só lhe perco o som e a cor
em orgias de morfina!

(17) CASTELÃO D'ALMEIDA -- Canção rubra. Contemporânea. Lisboa, ano I, v. 2 (1º. número especial): 31-3, natal de 1922.

(18) BRUGES D'OLIVEIRA -- Duas canções. Contemporânea. Lisboa, ano I, v. 3 (7): 16, jan. 1923.

(19) PALMA CARLOS, Adelino da -- Ascensão. Alma Nova. Lisboa, v. 2, 3 série (13-5): 12, jan.-mar. 1924.

(20) MORAES, Castelo de -- Névoa. Athena. Lisboa, v. 1 (2): 65-7, nov. 1924.

(21) Cf. VAZ, Gil  -- 'Quatro sonetos': Redoma; Amor; Ofélia;  Espectros.  Athena. Lisboa ,  v. 1 (2): 63, 63, 64 e 64, respectivamente, nov. 1924.

(22) Id. -- Inverno. Contemporânea. Lisboa, ano I, v. 4(2): 65, jun. 1926.

(23) SAA, Mário -- 'Poemas da razão matemática': Chácara do infinito; Versos frios. Athena. Lisboa, v. 1 (3): 105-6 e 106-8, respectivamente, dez. 1924.

(24) PESSOA, Fernando -- "[Sensacionismo -- 5]". Em sua: O banqueiro anarquista e outras prosas. São Paulo, Cultrix-Edusp, 1988, (sel. e introd. de Massaud Moisés), p. 252.

(25) TEIXEIRA, Judith -- A cor dos sons. Contemporânea. Lisboa, ano I, v. 4 (1): 41, maio 1926.

RICARDO DAUNT -- escritor com vasta obra ficcional e ensaística, é também poeta e pesquisador. Foi professor visitante na Universidade de Yale, e é doutor pela Universidade de São Paulo, com tese sobre Cesário Verde. Publicou, entre muitos outros títulos, Manuário de Vidal (1981), Anacrusa (2004), T. S. Eliot e Fernando Pessoa (2004), Poses (2005), e Obra poética integral de Cesário Verde (1855-86). Organização, apresentação, tábua cronológica e cartas reunidas por Ricardo Daunt (2006). Seu mais extenso romance, Migração dos cisnes, todo ele ambientado na Europa, e seu vasto trabalho sobre o movimento do Orpheu (em 3 volumes), A audácia do tédio. Panorama estético do Orpheu em Portugal, continuam inéditos em outubro de 2007.

 

 




 



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