4 novíssimos poemas de
RICARDO DAUNT

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Advertência a um interdito
Mulher muda em tela de museu
Mão banhada de sol

Mulher muda em tela de museu
(uma investigação sobre a eternidade e o cotidiano)

O retrato mira-nos e remira-nos.
Nem mesmo pulsam
suas palavras inauditas.
Teriam sido palavras arredondadas
como seus lábios, se as ouvíssemos.
Deles transbordaria uma confissão inesperada,
como "perdi tudo, dissipei-me
no movimento contínuo da vida".
E é quase como se ao imaginar
falassem agora.

"Sou por ora apenas instrumento da luz
e do disfarce.
Melhor assim, meu corpo
fala sem falar com os lábios
e ama e desama sem a voz e o trato.
Não posso falar mais.
Minha boca está travada,
aprisionada no último gesto do pintor pré-rafaelita,
no último monossílabo impróprio
que ecoa de outro século.
Minha voz aglutina seu ímpeto
no rebrilho dos olhos
e no fogo das mãos,
uma, dorso, outra, palma.    
Meu espírito dança
imaginando o movimento de ambas.
Mas sofre, com a mordaça nos lábios,
a música eterna, ecoando da era em que vivi,
 boiando em meus ouvidos.
Sou agora o pranto da cor
e as formas em mim sempre belas,
jorrando dos holofotes.
Sinto que pedem que cante,
que vire o rosto para exibir
o colo e o pente de dançarina espanhola;
que me aproxime e deixe ver melhor
o rubi que é quase
um coração colado ao peito;
que deixe que toquem a carne
de meus braços e meu rosto empoado
e eufórico de danças e coquetismo
e arrebatamento.
Querem ver minhas sapatilhas
e meu tornozelo. Não posso mostrar
mais do que mostra o pintor.
Sou cor e movimento emparedados.
Exibição de falsa alma,
tantas vezes alma
quantas vezes pressentida.
Alma, em suma, mil vezes multiplicada."

O retrato mira-nos, espectadores,
e ao nos afastar dele
desenlaçamo-nos de seu silêncio
e de sua eternidade.
Nesse momento dilata-se ainda mais
o abismo do tempo entre nós,
que é uma espécie de essência
que goteja sobre as coisas
e muito especialmente
sobre o piso do museu.

Ao sair para a rua
somos novamente insulados
e tristes.
E temos novas dúvidas também.
Corremos para alcançar o tramway,
E tomamos nosso chá em casa,
ou tomamos o chá na confeitaria
da próxima esquina
e vamos para casa depois?

RICARDO DAUNT - escritor com vasta obra ficcional e ensaística, consolidada no panorama das letras brasileiras, capaz de perícia admirável no manejo da língua literária.

Autor de livros como Manuário de Vidal (1981, Anacrusa (2004), e T. S. Eliot e Fernando Pessoa: diálogos de New Haven (2004).
Contacto: ricdaunt@ig.com.br .

 

 




 



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