4 novíssimos poemas de
RICARDO DAUNT
Para a posta restante, por favor
Advertência a um interdito
Mulher muda em tela de museu
Mão banhada de sol
Mão banhada de sol

No ramerrão costumeiro,
caminho em silêncio
pela rua do bairro.
Um distendido conforto provisório
fala em meus gestos iguais,
como se eu tivesse aprendido algo.

Estou nu,
assim as árvores
e os pássaros,
os prédios e as alcovas
bem abrigadas.
Temo ser alvejado
por uma bala perdida
ou um beijo de traição,
e prossigo a despeito
de olhares oblíquos,
lançados através do
cortinado roto de janelas ociosas.

O final de minha rua
desemboca em um largo.
Vazio, quase sempre,
por onde cruza o vento.
Nos dias quentes o sol
cresta o paralelepípedo do calçamento,
banha meus pés,
os chapéus dos raros transeuntes --
e escorre pelo piso,
perseverante e dominador.

Entrego-me à luz.
Sento-me sob a idéia de uma árvore
que não há.
(Os fundilhos sobre a guia da rua.)
E escrevo,
com a lâmina da palavra,
enquanto o suor
goteja no papel e em minha perna.
Não sei que nome pronuncia o astro,
nessas ocasiões.
Não importa.
Está lambendo o suor
de minha mão agora,
incendiando minha pena
e forjando a primeira frase
de um dia sem inaugurações.

RICARDO DAUNT - escritor com vasta obra ficcional e ensaística, consolidada no panorama das letras brasileiras, capaz de perícia admirável no manejo da língua literária.

Autor de livros como Manuário de Vidal (1981, Anacrusa (2004), e T. S. Eliot e Fernando Pessoa: diálogos de New Haven (2004).
Contacto: ricdaunt@ig.com.br .

 

 




 



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