Paulo Azevedo Chaves

Poemas homoeróticos

A todos amei, todos são bem-vindos

“E se você não puder ser você mesmo, de que adianta ser qualquer outra coisa?”
Memórias, Tennessee Williams

Quantos passaram e se esvaeceram
nos recônditos da memória?
Rostos vagos, fantasmagóricos,
corpos desmembrados, etéreos
no delírio de sonhos desconexos.
Passeei com Pierre Protti em Londres,
vaquinha francesa no curral de Sua Majestade.
Dizia a putinha: “Perdes as plumas, meu caro”.
E isso por eu, seu macho, estar ficando calvo.
À noite comia seu cu, em forma de boceta peluda
enquanto ele me ofendia e ria de mim, putana!.
Também comia a bunda de Peter na mesma cidade,
escutando sonatas de Beethoven em discos de vinil
num flat classe média do bairro boêmio de Chelsea
Ele gostava e pedia mais. Latin lover tem que comer.

De volta ao Brasil, fui muitas vezes penetrado (enfim!)
por Jaime Vieira Félix, moreno, magro, bem dotado.
Parecia Osama Bin Laden bem jovem, suave e machão.
Explode em mim, meu amor bandido gente fina!
Ele era cheio de tesão e ciúme nas baladas de Copacabana.
Rio de Janeiro, década de 70, anos felizes, inconseqüentes...

Coitos calientes voltam em flashes nos sonhos...
Amores nebulosos, antigos, dispersos, aqui e ali
-- Paris, Londres, Rio, Recife ou São Paulo.
Eles perambulam nas ruas da urbe, perdidos,
ou estão desfeitos sob a terra em sepulturas?

A rola marrom-café com cheiro de amêndoa
de Marcelo me toca e excita na madrugada.
Requiescat in pace, meu doce olindense
roludo e suave sobre meu dorso estático!

Quantos passaram por minha vida, gozaram
deixando como legado lembranças, saudade!
Amores agora revisitados em meus sonhos:
sem paixão, fugazes,interrompidos, falhos...

Que espectro virá esta madrugada, sutil e descalço?
A quem esperar? Por quem chorar? Que bunda lamberei?
Que rola vou chupar ou vai me enrabar incorpórea?
Que boca vou beijar sem dentes e saliva acre?
Que nome em sonho direi baixinho, inaudível?

Que importa quem? A todos amei, todos são bem-vindos.


* De Poemas Homoeróticos Escolhidos (Ed.digital, ISSUU,2012)

A Gioconda (ou Mona Lisa)

Dizem que a Gioconda

era na verdade um varão

e que seu velado sorriso

tem prosaica explicação:

sob a seda e o brocado,

uma súbita ereção.

NOTA. Existem  várias versões sobre a identidade da pessoa que posou para a pintura A Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Uma das versões, levantada por peritos da Itália, afirma que o modelo é na verdade um assistente do Mestre, que teria tido com ele uma relação ambígua. Nome do jovem: Gian Giacomo Caprotti, mas conhecido como Salai. O autor desta tese é Silvano Vicente.

Foi a partir da tese de Silvano Vicente que escrevi o poema A Gioconda, que integra o livro digital Os Ritos da Perversão e Outros Poemas, lançado, há dias, em versão digital e que pode ser acessado para leitura flash player no site ISSUU, na Internet.

Show masoquista de dois jovens ianques

W.Sado e P.Masoch exibem seus talentos extraordinários:

Peter arria a bunda lubrificada no gargalo da Budweiser

e Willliam enfia o punho cerrado no cu gozante do parceiro.

“O yeah, O yeah, baby!”

As flores do mal

No corpo em decúbito dorsal

penetração de falo ou punhal?

Ao seu lado As Flores do Mal.

Sexo perverso

Já não quer os raros homens que amou

apenas aqueles transitórios que mamou

-- essa perversão do amor!

Paulo Azevedo Chaves nasceu no Recife, em 1936. Advogado, jornalista e poeta, assinou no Diário de Pernambuco, nos anos 70/80, a coluna cultural Poliedro e, de meados dos anos 80 até 1993, a coluna Artes e Artistas, no mesmo jornal. Entre 2002 e 2004, assinou artigos bimensalmente na seção Opinião do Jornal do Commercio (PE). Livros publicados: Versos Escolhidos (Ed. Pirata,1982, traduções); Trinta Poemas e Dez Desenhos de Amor Viril (Pool Editorial Ltda., 1984, traduções); Os Ritos da Perversão (Ed. Comunicarte,1991,poesias); Nus (Ed.Comunicarte,1991, coletânea de poesias); Réquiem para Rodrigo N (Ed.do Autor e digital, 2011, prosa e poesia); Poemas Homoeróticos Escolhidos (Ed. digital,ISSUU, 2012); Os Ritos da Perversão e Outros Poemas (Ed.digital, ISSUU, 2012).

 

 

 

 




 



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