Nova Série

 
 

 

 

 

 

PAULO AZEVEDO CHAVES
Um sorriso de felicidade

Eu o conheci numa ida ao supermercado próximo ao meu apartamento, na praia de Boa Viagem, no Recife. Ele era um repositor de mercadorias novato naquele estabelecimento. Concentrado, não olhava para quem estava à sua volta, de modo que tive de atropelá-lo com meu carrinho de compras para chamar sua atenção. No momento em que botei os olhos naquele mulato de vinte e poucos anos, másculo, um pouco mais alto do que eu, tive certeza de que iríamos para a cama e que aquela seria uma experiência maravilhosa. Quando bati de leve nele com o carrinho, o rapaz se virou com um sorriso:  

-- O senhor não olha por onde anda? Está querendo me machucar?  

A dica era perfeita e sem dúvida proposital.  

-- Ao contrário, estou querendo que você me machuque – disse-lhe com voz sexy, cheia de insinuações.  

( Na lista de compras, já tinha colocado meu nome, endereço e telefone).  

-- A que horas você sai? Que tal tomar um uísque em meu apartamento, bem pertinho daqui?  

--Você é bem direto, meu chapa. Não tem medo que eu lhe dê um murro e preste queixa por assédio?  

-- Não é na cara que eu quero que você me machuque, disse-lhe com ar insinuante, esquecendo-me que estava com 50 anos e que minha juventude e capacidade de sedução tinham ficado para trás.

Passei-lhe discretamente a lista com meu telefone e endereço.  

-- Vejo você mais tarde, disse-lhe com a convicção dos sedutores endinheirados.

 
 

Pouco depois de ter chegado em casa e arrumado a compras na dispensa e geladeira, o telefone tocou. Era Marcelo.  

-- O uísque já está pronto? Olhe, eu não posso demorar porque sou casado e moro longe, em Olinda.  

-- Em meia hora você toma o uísque e resolve o resto – disse-lhe pleno de insinuações.  

Com efeito, pouco tempo depois ele chegou. Eu o abracei e logo vi que ele era dos bons, pois senti a pressão de seu cacete duríssimo contra meu corpo. Na excitação, esqueci mesmo de lhe entregar o uísque, que já estava pronto na bandeja, sobre a mesa da sala de jantar.  

Fomos diretos para o quarto e rapidamente ele tirou as roupas, jogando as peças pelo chão.Eu fiz o mesmo, e segurei sua rola, que de tão grossa mal cabia em minha mão.  

Fazendo-me de gostoso, disse-lhe:

Não sei se vou aguentar, é grande demais...  

-- Com paciência ela vai entrar todinha.  

Eu vesti a camisinha na rola, lubrifiquei o cu e me deitei de lado na cama.

Ele deitou por trás de mim e os trabalhos começaram.  

A transa foi maravilhosa, como já esperava. Eu me masturbei e gozei enquanto ele também gozava. Marcelo era viril, potente e carinhoso – tudo que uma mona pode querer de um homem.  

-- E o uísque?-- perguntei-lhe depois que nos vestimos.  

-- Fica para a próxima vez. Minha mulher está para dar a luz a qualquer momento. Estou devendo muito dinheiro na maternidade – quanto você pode me dar agora?  

O tom era duro e ameaçador. Aquele cara doce e de voz acariciante desaparecera. Eu peguei as economias que tinha em casa e lhe entreguei.  

-- Só isso, seu fresco? Pensa que eu sou o quê? Me dê seu relógio, o cordão de ouro e o que mais tiver de valor  

Enquanto finalmente ele tomava o uísque, eu fui até a cozinha e, transtornado, peguei o facão de cortar carne no faqueiro. Eu o enrolei na camisa que levava na mão, a fim de esconder o volume, e me aproximei de Marcelo na sala. Perto da porta, ele já estava pronto para ir embora.  

-- Eis o que tenho para você. E num gesto rápido, enfiei o facão até o cabo em seu ventre. Ele olhou-me com ar de surpresa, enquanto levava a mão à barriga para retirá-lo. O que efetivamente fez, enquanto num gesto rápido e violento, o enfiou em meu ventre.  

Não pude fazer nada, pois ele era bem mais forte que eu. Então, ele puxou o facão, o sangue jorrou, e ele o enfiou pela segunda vez na mesma região. 

-- Toma, seu louco! -- disse-me com ódio.  

-- Louco por você, Marcelo – retruquei, baixinho.  

E ambos caímos no chão, abraçados e ensanguentados. Eu percebi que Marcelo morrera, pois não respondia aos estímulos, estava com os membros flácidos, olhos cerrados e seu coração parara de bater.  

E ali ficamos os dois, estirados no chão, até que no dia seguinte a faxineira chegou, logo cedo, e me encontrou com a rola de Marcelo na boca e um sorriso de felicidade estampado na face, como se estivesse mamando a teta farta de minha mãe.

 
 
Paulo Azevedo Chaves nasceu no Recife, em 1936. Advogado, jornalista e poeta, assinou no Diário de Pernambuco, nos anos 70/80, a coluna cultural Poliedro e, de meados dos anos 80 até 1993, a coluna Artes e Artistas, no mesmo jornal. Entre 2002 e 2004, assinou artigos bimensalmente na seção Opinião do Jornal do Commercio (PE). Livros publicados: Versos Escolhidos (Ed. Pirata,1982, traduções); Trinta Poemas e Dez Desenhos de Amor Viril (Pool Editorial Ltda., 1984, traduções); Os Ritos da Perversão (Ed. Comunicarte,1991,poesias); Nus (Ed.Comunicarte,1991, coletânea de poesias); Réquiem para Rodrigo N (Ed.do Autor e digital, 2011, prosa e poesia); Poemas Homoeróticos Escolhidos (Ed. digital,ISSUU, 2012); Os Ritos da Perversão e Outros Poemas (Ed.digital, ISSUU, 2012).
 

 

 

 




 



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