Nova Série

 
 

 

 

 

 

 

NICOLAU SAIÃO

"Uma realização dos portugueses"

    Fartaram-se de nos dizer que a "última exposição mundial do século" era, se calhar como a tropa, o "espelho da Nação" - e falavam verdade! Muitos de nós, por lucidez ou ingenuidade, ou teimosia, não queríamos acreditar. Podia lá ser!

    E, vai-se a ver - afinal era mesmo! Confessemos, no entanto: era difícil de engolir. Mas a rapaziada esmerou-se. E fez-nos curvar a cabeça, inda que a custo.

   Um milhão e trezentos mil, para já. A verba faz-me sonhar...E outros ainda sonharão mais, mas deixemos esse detalhe por agora. Ah! valente João Caldeira!

    Na TV, dois homens sérios e de discurso eficiente (entre eles o talentoso doutor Eduardo, o grande estruturalista), propõem-nos um raciocínio eficaz: são coisas da vida, pois então! E se os italianos ou os espanhóis pensam que se podem rir do "affaire", eles que olhem para os lares: também por lá anda uma bendita corrupção. E é verdade.

   Embora os corruptos, pobres deles, estejam sempre do mesmo lado. Experimente o leitor ser corrupto - vai ver que não consegue! Porque é preciso andar-se no sector certo: chefe de contabilidade, um (deus me perdoe!) director-geral, por aí as hipóteses são várias e aliciantes por cá. E viva a modéstia - olhem se fôsse em estilo Balzac...

   Ainda que já entradote (do lado dizem-me mesmo que até já morto) o poeta Castilho, que tinha experiência de poderosos, deu-se ao trabalho de elaborar uma nova versão do seu famoso poema que tem como quadra bem marcada "Da parte, madrinha/de Deus vos requeiro/Casai-me hoje mesmo/com Pedro Gaiteiro.". E segue a peça:

Madrinha, senhora

sabei que também

eu lá fui à Expo*. E vi, vi as gentes

o Oceanário, garotos em fila, polícias

e reis. Um tipo pernalta Inglês, me disseram

pessoal fardado: generais, ministros

e muita alegria

e melancolia

alguns alentejanos para dar côr local

e Vasco da Gama

e Álvares Cabral

a fingir que estavam ali a férias. Madrinha

da parte

de Deus vos requeiro: casai-me hoje mesmo

com João Caldeira.

Madrinha, não quero

não quero o Cavaco

nem o Engenheiro

nem o Marques Mendes

que é muito onzeneiro (aqui, se calhar

devia haver outro adjectivo, mas

faz-me falta à rima)

e então é assim: não quero o ministro

(Costa) que dança em terreiro

nem quero o banqueiro (a não ser

que seja masoquista, o que sempre dá jeito)

com seu gibão largo

de arminho e cordeiro

nem o conselheiro (Espada)

rostinho trigueiro

que faz tanta inveja

a muito vaqueiro

Já não sou Anita

sou executiva (secretária, dactilógrafa)

bailando ao pandeiro

sou a senhor ´Ana

que mora no oiteiro

(ou seja, numa das

sete colinas da feliz Lisboa, mas

o poema tem de sair com ritmo e então

é assim)

já sou mulherzinha

já trago sombreiro

quer seja manhã

quer seja ao serão

e sei deitar contas à vida, portanto

da parte, madrinha, de Deus

vos requeiro

casai-me com o doutor tantos de tal e se não

puder ser

dai-me ao menos a subida honra de apertar a mão

ao Mega Ferreira

ou então

permiti-me um ósculo nas barbas venerandas

do Prado Coelho

mas se inda assim não fôr viável, madrinha

ao som do tambor (digamos, a pança do doutor)

vos requeiro

casai-me assim que o conseguirdes

com João Caldeira

Casai-me no monte

casai-me no mar

casai-me na serra

ou até mesmo numa igrejinha em Sintra, com flores

de laranjeira, que eu sou de boas famílias, mas

marido pretendo

de humor galhofeiro

que saiba como é

o som do dinheiro

que viva por festas

co´o tamborileiro

que não seja pobre (ou sequer remediado, que a vida

apesar do Euro não está para graças)

secretário de Estado

herói marinheiro

(não o Torres Campos, coitado

que é sério, careca e, segundo dizem

nem é filiado na Maçonaria), com ar sobranceiro

e com belo cargo

que sempre é melhor, que em ele assomando

logo se alvorote

o lugar inteiro, madrinha

comigo romeiro e romeira

casai-me já hoje

ou então, podendo ser e não dando muito trabalho

amanhã ou depois 

com João Caldeira

 

NOTA - O A. não foi à Expo. Trata-se pois da chamada "liberdade poética".

Poema e bonecada de  nicolau saião

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.  

Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc.   

Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).    

No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).       

Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).  

Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”. 

Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz), “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil), “Revista Decires” (Argentina), “Botella del Náufrago”(Chile)...  

Prefaciou os livros “O pirata Zig-Zag” de Manuel de Almeida e Sousa, “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras), “Estravagários” de Nuno Rebocho e “Chão de Papel” de Maria Estela Guedes (Apenas Livros Editora). 

Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Co-coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003. 

Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).  

Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.  

Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.  

É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

Blog : Ablogando, em: http://ab-logando.blogspot.pt/