NICOLAU SAIÃO

AS CRÓNICAS EVENTUAIS
2. Quem tiver ouvidos que ouça

   O meu amigo Ricardo faz-se entender por gestos. Claro, já perceberam: o Ricardo é surdo-mudo, o que à partida constitui uma barreira razoável. Mas ele não se deixa limitar. Vivo e esperto participa no que o rodeia, seja brincadeira ou conversas. Convirá dizer que este meu amigo está à beira dos 7 anos mas entende muita coisa. Por exemplo: que as outras pessoas também podem entendê-lo a ele. E vai daí o Ricardo chilreia e gesticula com grande poder de comunicação. Por detrás de cada orelhinha ostenta uma prótese auditiva, que ele nem calcula ser descoberta de truz de um senhor austríaco que preferia trabalhar em objectos pacíficos. Ora, importa-lhe lá saber isso! O que ele quer é correr, pontapear uma bola, dar largas à sua exuberância.

  Daqui a uns tempos o Ricardo irá para a Escola e terá possibilidades de não se ver marginalizado, incomodado ou mesmo estorvado, como em tempos antigos sucedia. Pois que, apesar de tudo, teve a sorte de nascer no nosso tempo. Dantes – digamos: há cinquenta anos, por exemplo -  ele seria provavelmente alcunhado de o mudo, ou de o mouco. Ficaria eventualmente analfabeto. Mais tarde alguma moçoila, quiçá seduzida pelos seus olhos límpidos, nunca se esqueceria contudo - ou os papás lho lembrariam - que pessoa assim não era futuro e mais que toma e mais que deixa, a panóplia clássica de quem sabe o que quer e para onde vai moça casadoira. 

   Resumindo: se os instrumentos sociais que hoje existem não falharem, por incúria ou desinteresse, esta criança poderá viver uma vida não muito diferente dos seus companheiros sem "handicap".

   Há dias fui de passeio. Viagem curta mas que deu para muita coisa interessante, uma vez que esta nação, em certos casos, não é tão má como isso - ou as pessoas por ela. Ainda tem aspectos e coisas quotidianas que nos animam e nos consolam. Por exemplo, uma bem preparada terrina de enguias na região ribeirinha de uma pequena povoação do centro do país, onde me detive para almoçar e na qual a fraternidade não se mediu em termos sensaborões. E que tem duas padarias, três cafés, duas vendas. Terra onde não se vive mal e se pode jornadear com sossego.

  Ora num destes cafés, quando as ditas enguias estavam passando ao estreito de vários convivas, calhei de olhar para a televisão, suscitado por um comentário acerbo vindo de um senhor bem vestido abancado a outra mesa com outros senhores bem vestidos. E vi que estavam a falar de Pablo Picasso, pintor de muitas celebradas maravilhas mas que, segundo o dito cavalheiro, só fazia cagádas – conforme disse apontando o écran, num vernáculo despejado e sem respeito pela indumentária própria e os ouvidos alheios.

   Mas estará o leitor a perguntar: onde é que isto se liga com o Ricardo, qual a articulação entre um rapazinho surdo-mudo e um dos maiores pintores do século vinte, o ilustre autor de “A pesca em Antibes” e tantos outros quadros esplendorosos? Nisto, que a meu ver é comovente: quando o conheci em casa de uns familiares eu tinha nas mãos uma obra sobre Picasso. E logo, curioso e vivo, ele veio até mim e com as suas mãozitas de infante folheou, admirou, maravilhou-se com tanta maravilha. E, com o dedo polegar erguido em gesto tácito de efeito garantido, me asseverou silenciosamente que tudo aquilo era porreiro.

  Pois é... É que o Ricardo não fala mas vê. E sabe ver! Talvez mais tarde, quando fôr adulto, saiba mesmo que neste ano da graça de 2009, enquanto lá fora se têm multiplicado, desde meados do ano transacto, as recensões e homenagens a Picasso p'los 35 anos do seu falecimento, no país onde reside continua a haver muitos senhores bem vestidos mas despejados que não gostam da cultura viva, actuante e suscitadora.   Ao contrário desses excelentes cidadãos, o Ricardo sabe que não basta ver e ouvir com os olhos e os ouvidos de fora, assim como não basta falar de papo nos areópagos caseiros.

   Como diz um conhecido meu, às vezes as coisas acontecem mesmo sem que um fulano dê por elas. Seja na culinária, na pintura ou mesmo na política nacional.

  E, por acontecerem, talvez um dia nos vejamos definitivamente livres -  intelectual e socialmente, é claro – de senhores bem vestidos com a elegância verbal de carroceiros.

Nicolau Saião – Monforte do Alentejo (Portalegre) 1946. É poeta, publicista, actor-declamador e artista plástico.

  Participou em mostras de Arte Postal em países como Espanha, França, Itália, Polónia, Brasil, Canadá, Estados Unidos e Austrália, além de ter exposto individual e colectivamente em lugares como Lisboa, Paris, Porto, Badajoz, Cáceres, Estremoz, Figueira da Foz, Almada, Tiblissi, Sevilha, etc. 

   Em 1992 a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o prémio Revelação/Poesia ao seu livro “Os objectos inquietantes”. Autor ainda de “Assembleia geral” (1990), “Passagem de nível”, teatro (1992), “Flauta de Pan” (1998), “Os olhares perdidos” (2001), “O desejo dança na poeira do tempo”, “Escrita e o seu contrário” (a sair).  

  No Brasil foi editada em finais de 2006 uma antologia da sua obra poética e plástica (“Olhares perdidos”) organizada por Floriano Martins para a Ed. Escrituras. Pela mão de António Cabrita saiu em Moçambique (2008), “O armário de Midas”, estando para sair “Poemas dos quatro cantos”(antologia).     

  Fez para a “Black Sun Editores” a primeira tradução mundial integral de “Os fungos de Yuggoth” de H.P.Lovecraft (2002), que anotou, prefaciou e ilustrou, o mesmo se dando com o livro do poeta brasileiro Renato Suttana “Bichos” (2005).

  Organizou, coordenou e prefaciou a antologia internacional “Poetas na surrealidade em Estremoz” (2007) e co-organizou/prefaciou ”Na Liberdade – poemas sobre o 25 de Abril”.

  Tem colaborado em  espaços culturais de vários países: “DiVersos” (Bruxelas/Porto), “Albatroz” (Paris), “Os arquivos de Renato Suttana”, “Agulha”, Cronópios, “Jornal de Poesia”, “António Miranda” (Brasil), Mele (Honolulu), “Bicicleta”, “Espacio/Espaço Escrito (Badajoz),  “Bíblia”, “Saudade”, “Callipolle”, “La Lupe”(Argentina) “A cidade”, “Petrínea”, “Sílex”, “Colóquio Letras”, “Velocipédica Fundação”, “Jornal de Poetas e Trovadores”, “A Xanela” (Betanzos), “Revista 365”, “Laboratório de poéticas”(Brasil)...

 Prefaciou os livros “Fora de portas” de Carlos Garcia de Castro, “Mansões abandonadas” de José do Carmo Francisco (Editorial Escrituras) e “Estravagários” de Nuno Rebocho (Apenas Livros Editora).

   Nos anos 90 orientou e dirigiu o suplemento literário “Miradouro”, saído no “Notícias de Elvas”. Com João Garção e Ruy Ventura coordenou “Fanal”, suplemento cultural publicado mensalmente no semanário alentejano ”O Distrito de Portalegre”, de Março de 2000 a Julho de 2003.

  Organizou, com Mário Cesariny e C. Martins, a exposição “O Fantástico e o Maravilhoso” (1984) e, com João Garção, a mostra de mail art “O futebol” (1995).

   Concebeu, realizou e apresentou o programa radiofónico “Mapa de Viagens”, na Rádio Portalegre (36 emissões) e está representado em antologias de poesia e pintura. O cantor espanhol Miguel Naharro incluiu-o no álbum “Canciones lusitanas”.

  Até se aposentar em 2005, foi durante 14 anos o responsável pelo Centro de Estudos José Régio, na dependência do município de Portalegre.

     É membro honorário da Confraria dos Vinhos de Felgueiras. Em 1992 o município da sua terra natal atribuiu-lhe o galardão de Cidadão Honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de actividade cívica e cultural outorgando-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.