Traduções de
NICOLAU SAIÃO

Rapsódia LATINA em tom maior

9. Jorge Luís Borges (Buenos Aires, 1889 – Genebra 1986):
O forasteiro

Despachadas as cartas e o telegrama

caminha pelas ruas indefinidas

e nota leves diferenças a que não dá importância

pois pensa em Aberdeen ou em Leyden,

para ele mais vívidas que este labirinto

de linhas rectas, não de complexidade

aonde o leva o tempo de um homem

cuja vida verdadeira está bem longe.

Numa habitação numerada

fará depois a barba ante um espelho

que não voltará a reflecti-lo

e parecer-lhe-á que esse rosto

é mais inescrutável e mais firme

do que a alma que o habita

e que ao longo dos anos o vai lavrando.

Cruzar-se-á contigo em qualquer rua

e tu só notarás que é alto e grisalho

e que olha para as coisas.

Uma mulher indiferente

a tarde lhe dará e o que sucede

do outro lado de umas portas. O homem

pensa que esquecerá a sua cara e irá lembrar

anos depois, perto do mar do Norte,

a persiana ou a lâmpada.

Nessa noite, os seus olhos contemplarão

num rectângulo de formas passageiras,

o cavaleiro e a épica pradaria,

porque o Faroeste abarca o planeta

e espelha-se nos sonhos dos homens

que jamais o pisaram.

Na intensa penumbra, o desconhecido

crer-se-á na sua cidade

e surpreender-se-á ao sair numa outra

de uma outra linguagem e outro céu.

 

Antes da agonia

o inferno e a glória nos estão dados:

andam agora por esta cidade, Buenos Aires,

que para o forasteiro do meu sonho

(o forasteiro que fui sob outros astros)

é uma série de imagens imprecisas

feitas para o olvido.

 

 

 

 


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