MÁRIO MONTAUT
Pira d'água

Rosa

Rigor do moinho

Pira d’água

Sentimento

De 1 objeto que ela fez pra nossa casa

Rigor do moinho

Por que rumores o moinho desentortou?
Girava, girava...
mas aquela quina não pegava o milho,
não pegava o arroz;
qualquer grão de meu filho vivia o suplício da terrível integridade.
Só minh’alma pulverizando-se ao vento,
que levava também minhas lágrimas ao rio,
já enchendo-se de cereais.
O sol era amargo naqueles dias.
Provávamos o sabor da luz contrariada;
hoje,
cumpre-se novamente o salmo quase perdido,
E o Senhor é meu pastor
porquanto engordem bois
e o ruído da madeira se faça ouvir na rocha molhada à beira do rio.
Os mercados mais felizes
e alaúdes dedilhados à sombra da macieira
tão somente embalam os cânticos da questão
irrespondível,
e nos apraz vê-la ao vazio do ninho
d’onde um pássaro voou;
por quais milagres desaleija-se um moinho,
quando perfeito rigor da primavera?

De 1 objeto que ela fez pra nossa casa
Peneira
a mina evaporando ouros
integração de posses árduas
Mulher
amor e trigo
faz
o céu e filho azul
sonhar milênios
faz Mulher
peneira e mãos,
o vidro e a prata da janela
a ponte entre a terra e pedras lapidadas
este recipiente quase dói
sabor das luzes
cacos de língua
cuspindo Música e Japão fora de hora
no barro,
na lã,
na linha equatorial do medo
tão livre és
agulha e pés
as hóstias do nosso reino,
Silêncio Real
e um beijo absoluto se desfaz
a sua aura
friezas de um fogo que arde fêmeo
por mais que me aproxime a delicada mão
cópulas do milagre estou
abóbodas que filtram
o planeta respira
luxos rústicos figos
Calor das coisas que ela ama inconsútil
insipiente
A inútil solidão com graça campônea
sentimento que reflete
1 objeto
descuido fértil
na escolha dos elementos
demora oculta e livre
pensamentos da Mulher
confecção
sólidas preces
doçura ríspida do encanto índio
sonoro ventre que de longe escuto abrir
o outro mundo já
desnuda o fogo que se eleva doce e o mar reflete
MÁRIO MONTAUT é brasileiro, paulistano, de ascendência italiana, espanhola, indígena, moura, francesa e outras. Desenvolve uma sequência de composições que vêm à luz, já em dois trabalhos: "Bela Humana Raça", Dabliú, 1999, e "Mário Montaut: Samba De Alvrakélia", a sair nos próximos dias pelo selo MBBmusic. São muitos anos de vivências artísticas, num panorama que inclui Dorival Caymmi, René Magritte, Manoel De Barros, João Cabral De Melo Neto, Borges, Chico, Caetano, Gil, Dalí, Fellini, Buñuel, Webern, Cartola, Breton, Blavatsky e muitos amores mais, indispensáveis à sua criação, que abarca, além das canções, poemas, textos, roteiros e outras coisas interessantes. Mário Montaut é basicamente um parceiro de todos os seus contemporâneos e ascendentes, humanos ou não, saibam eles ou não. Índios, Negros, Europeus, Sem-terra, Brisas, Baleias, Maremotos, Chuvas, Livros, Discos, Beijos e Trovões Em Todas As Roseiras. Atualmente grava um disco de parcerias suas com o poeta Floriano Martins, onde a talentosíssima intérprete Ana Lee canta grande parte do repertório. Mário Montaut é um pouco de tudo isso. E muito mais, com certeza, pode ser descoberto em seus discos lançados, em suas tantas canções já gravadas, poemas, textos, e múltiplos achados.    
 
   

 

 

 


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