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MÁRIO MONTAUT
LATO SENSO, ou:
DOS ÓCULOS DE MAGRITTE

 

Magritte morreu em agosto de 1967, e a viúva, Georgette, vendeu grande parte de seu ateliê, nos anos 80. Linda McCartney comprou muitas dessas coisas para dar de presente de Natal a Paul, que começara a pintar em 1983. Ele ficou eufórico: "Foi fabuloso. Eu uso o cavalete. Da primeira vez, fiquei muito intimidado, imensamente. Nem sabia o que colocar na tela, que ganhei com alguns pincéis, a paleta e uma mesinha de pintura com gaveta e prateleira. Tudo de Magritte. Mas aí pensei: 'O que ele teria desejado? Que eu a usasse. Vá em frente, meu filho. Pinte!' Também tenho os óculos de Magritte. Recentemente mandei consertá-los porque são tão fabulosos. Quer dizer, eles são ícones. E sabe o que mais? São ótimos quando não consigo ler as letras miúdas".

Esse é o velho Paul, chegando aos 64, e, parece, de um jeitinho bem diferente da canção ("When I'm sixty four").

Paul McCartney conheceu René Magritte em meio ao furacão cultural que devastava Londres, em 1965. No ano anterior, abrindo a exposição americana do pintor, disse André Breton: "Tudo quanto Magritte fez representa o culminar daquilo que Apolinnaire descreveu um dia como 'o verdadeiro senso comum'- ou seja, o dos grandes poetas".

Viajamos por 64, 65, 66, 67, passando pela explosão beatle, pela morte de Breton, pelo nascimento de Sg. Pepper e pelo falecimento de Magritte. E nos anos 60 (honra ao número) é bom lembrar que o compositor russo Tchaikowsky, aos 5 aninhos, e quase um século antes escreveu, em francês, um poeminha surreal intitulado "A velhice de um homem que fala sonhando na idade de 60 anos". Lembrar também que em 1965, John Lennon e Paul McCartney compuseram "Norwegian wood", sobre a qual Paul comentou: "Entrei, e ele (John) já tinha este primeiro verso, que era brilhante: 'I once had a girl, or should I say, she once had me'. Era tudo que ele tinha, não havia título, não havia nada. Eu disse: 'Ah, bom, ah-ah-ah, pois é...' E a canção se compôs sozinha. Tão logo a gente tenha uma grande idéia, elas tendem a se compor sozinhas, desde que a gente saiba como compor canções".

Em total afinação com essas palavras de Paul, Ricardo Reis segredou a tal Pessoa, Fernando:

"....Que, quando é alto e régio o pensamento

Súbita a frase o busca

E o 'scravo ritmo o serve."

Confidências Eletivas!

E já sou mui próximo d'1 suspiro de Goethe, quando ouço triste, compondo-se neste canto, rabiscos misteriosos de assinatura cruel, talvez única verdade, (pessoal?) distendendo-se, alongando-se, espalhando-se num balé de incógnitos signos a verterem todo o sangue que a alma anônima não tem.

(Mário Montaut)

 
MÁRIO MONTAUT é brasileiro, paulistano, de ascendência italiana, espanhola, indígena, moura, francesa e outras. Desenvolve uma sequência de composições que vêm à luz, já em dois trabalhos: "Bela Humana Raça", Dabliú, 1999, e "Mário Montaut: Samba De Alvrakélia", a sair nos próximos dias pelo selo MBBmusic. São muitos anos de vivências artísticas, num panorama que inclui Dorival Caymmi, René Magritte, Manoel De Barros, João Cabral De Melo Neto, Borges, Chico, Caetano, Gil, Dalí, Fellini, Buñuel, Webern, Cartola, Breton, Blavatsky e muitos amores mais, indispensáveis à sua criação, que abarca, além das canções, poemas, textos, roteiros e outras coisas interessantes. Mário Montaut é basicamente um parceiro de todos os seus contemporâneos e ascendentes, humanos ou não, saibam eles ou não. Índios, Negros, Europeus, Sem-terra, Brisas, Baleias, Maremotos, Chuvas, Livros, Discos, Beijos e Trovões Em Todas As Roseiras. Atualmente grava um disco de parcerias suas com o poeta Floriano Martins, onde a talentosíssima intérprete Ana Lee canta grande parte do repertório. Mário Montaut é um pouco de tudo isso. E muito mais, com certeza, pode ser descoberto em seus discos lançados, em suas tantas canções já gravadas, poemas, textos, e múltiplos achados.    
 
   
   

 

 

 


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