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MÁRIO MONTAUT
LANÇA "SAMBA DE ALKRAVÉLIA"
Entrevista de Luiz Alberto Machado
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LUIZ - Em primeiro lugar, Mário, vamos falar de você: origens, a trajetória até chegar na música, o que ouvia, sua formação, o momento antes da chegada do primeiro disco, enfim, como foi que a música chegou até você?

MÁRIO - Luiz, eu não diria que cheguei à música, mas a música veio a mim de tantas maneiras! Pelo canto de minha mãe, do meu pai, pela bandinha que tocava no coreto de Serra Negra, onde morei quando criança. Marchinhas de carnavais sempre brincados, e as rádios, com músicas populares, óperas. Meu pai adorava cantar ópera sob o chuveiro, para minha alegria e um desespero também meio que alegre da vizinhança, que se divertia com aquilo, pois afinal, com toda sua musicalidade, ele nunca teve lá "um vozeirão" (rs). Sempre estive cercado de música. Nunca, em época alguma, consegui dissociar minha vida da música, que estava sempre, em todo lugar: nos meus sonhos, nos cantos da feira, nos corais de igreja, nos discos de Chopin, Chico Buarque, Roberto Carlos, Tchaikowsky, Beatles, Beethoven (na vitrola), na música nordestina que proliferava com a chegada em massa de tanta gente que vinha a São Paulo trabalhar nas obras do metrô, lá pelo final da década de 60, início da de 70. Sou Paulistano, e morei em Serra Negra, de 1 a 3 anos e meio, quando voltei para cá. Então Luiz, nunca senti um marco musical divisório, em minha vida. A música sempre esteve comigo, em tudo que fazia, em tudo o que faço. Aos 12 anos ganhei um violão, aos 13 comecei a compor. Jamais consegui viver a música como carreira, como projeto, por mais que uma obra musical, e seus consequentes desdobramentos, como por exemplo os discos que lhe enviei, sejam fontes inesgotáveis de uma felicidade grande demais para ficar só comigo. Daí o Desejo, a Necessidade Da Partilha.  

LUIZ - Quais as influências que levaram chegar até o Mário Montaut autor, compositor?  

MÁRIO - Descobri, lá pelos meus 11 anos, e quase que simultaneamente, Chico Buarque, Chopin, Beatles, Dorival Caymmi, Tchaikowsky e Beethoven. Roberto Carlos eu já conhecia, e gostava muito, aliás, aprecio até hoje, o enorme talento desse grande artista, que tem lá seus lampejos geniais. Agora, essenciais mesmo, definitivos, do ponto de vista artístico, foram esses outros nomes, que me calaram mais fundo, a princípio. E as referências foram se multiplicando, e não apenas em música, mas em todo tipo de arte, que em mim, de um modo ou de outro sempre confluiu para a música. Hoje ouço música em Debussy, René Magritte, Pound, Stravinsky. Uma tela de Max Ernst não me é menos música que Máscara Negra, de Zé Keti. Embora continue sendo um eterno devoto de Santa Rosa De Pixinguinha.      

LUIZ - Seu primeiro trabalho lançado foi "Bela Humana Raça", lançado em 1999. Fala de como se processou a feitura, a escolha do repertório, a composição das músicas, até chegar no disco pronto.  

MÁRIO - Vicente Thiné, grande amigo e parceiro em muitas composições, co-produziu esse disco comigo. São 15 músicas que compus, quatro delas em parceria com o Thiné. É um álbum que aborda a Raça Humana, um tema, diria, inabordável (rs), e paradoxalmente inevitável. E isso só pode ser feito através de canções de um lirismo transbordante, mas que em instância alguma se dissociou de Santa Ironia, essa nosssa Suprema e Única Redentora em algumas causas (rs). O disco é um jogo musical e poético aberto a todo ouvinte que esteja disposto a se divertir e se desesperar pelo labirinto em espiral, que certamente começa bem antes do cd e vai para muito além dele. A grande maioria das pessoas que ouviram Bela Humana Raça, deixaram transparecer vivências de beleza, perplexidade, prazer, desconforto, esperança, desnorteamento. E sinto-me realizado por esse tento. O álbum é realmente um caos (rs). Mas um caos prenhe de saúde, de pulsão vital. Mais do que a qualidade artística, que muitos disseram ter fruido em muitas canções do cd, o ímpeto maior foi o de levar uma doce inquietação, um belo desnorteamento, uma serena quebra de certezas. E em função de tudo isso, pequenos textos "explicativos" no encarte, e os talvez abusivos efeitos de sonoplastia (o Mário Carvalho, arranjador do disco, que o diga!!!-rs) para contrabalancear a excessiva harmonia que poderia reinar em certas instâncias.Você ouve no álbum, "Castelo", que compus em 1977 e "Que Horas São", feita poucos meses antes da concepção do disco. Você contempla as magias plásticas de Regina Izumi Hasegawa, responsável pela capa e ilustrações do encarte. E nada disso aconteceria sem a generosidade de José Carlos Costa Netto, da Dabliú, que lançou essa doideira sem interferir em nada, e além disso, ampliando o leque cromático, que pelos padrões da Dabliú, não comportaria nossas intenções visuais.    

LUIZ - Nesse "Bela Humana Raça" há um forte apelo à natureza, ao ser humano e à liberdade. Fala um pouco da proposta desse trabalho.    

MÁRIO - Acredito que o ser humano, trabalhando no que quer que seja, é sempre apenas um parceiro de todos os seus contemporâneos e ascendentes, humanos ou não. É muito estreita para mim essa visão autoral que descarta nossas parcerias com semelhantes de todas as eras e geografias, bem como as parcerias com todas as brisas, maremotos, raios, chuvas e trovões em todas as roseiras. Longe de qualquer naturalismo de butique, digo com certeza que me é difícil saber se a influência mais incisiva em determinada composição, vem de uma canção beatle, do canto agônico de uma baleia que imagino nunca ter ouvido, de um índio ou de um sem-terra chacinado. Ingenuidade e prepotência seria proclamar aqui a hierarquia irrevelável da vasta trama ao nosso redor. Aceito minhas cumplicidades com tudo o que conheço e com tudo o que desconheço. Uma coisa não existe em arte: "Invenção".    

LUIZ - Agora você lança "Samba de Alkravélia". Como foi que surgiu a idéia desse novo trabalho?  

MÁRIO - Simplesmente partilhar algumas canções que venho fazendo ao longo de todos esses anos, e de uma forma mais livre, sem nenhum lance conceitual. E canções de amor, canções místicas, canções oriundas de inquietações filosóficas que felizmente não chegaram às músicas em forma de filosofices. E fui nesse trabalho, agraciado pelos arranjos de Cássio Gava, que sem interferir em uma simples nota de melodia, em uma simples harmonia, soube, respeitando a total integridade de cada composição, elevá-las a patamares impossíveis sem a sua rara, mágica participação. E assim como em Bela Humana Raça, contei com minha grande amiga Regina Izumi Hassegawa, que fez também toda a arte de capa e encarte do disco. E das indeléveis participaçòes vocais de Ana Lee. E das deliciosas intromissões cantantes de Sônia, minha mulher, e Aura, minha filha. Só que dessa vez, o trabalho da Regina só poderá ser apreciado na minha nova página da internet, que está quase on-line. O único selo disposto a lançar o álbum, a MBB, só aceitou fazê-lo nos padrões visuais da gravadora, e eles não abrem mão mesmo, de tais padrões. Pena, mas a Regina foi a primeira a entender, e inclusive, a estimular o lançamento do álbum nessas condições, deixando suas maravilhosas aquarelas para a internet. Enfim, sendo hoje Sábado De Aleluia, lembro a respeito desse episódio e de tantos outros: "A César o que é de César, e a Deus o que é de Deus".    

LUIZ - Ouvindo seus trabalhos, a gente logo encontra uma identidade própria com uma heterogeneidade rítmica. Fala um pouco sobre isso aí.      

MÁRIO - Olha Luiz, meu trabalho possui vertentes líricas, místicas, surreais, possui um grande sentido de busca, da qual eu mostro apenas o que penso encontrar(rs). E não só como artista, mas como pessoa, sinto-me na obrigação de contrariar um mercado que busca mais do que nunca a velha miséria estética rebatizada de "homogeneidade". Isso é desculpa mercadológica endossada por um servilismo (a)crítico prestando favores à nossa desintegração, cujos primeiros indícios são ouvidos em Música, e principalmente no que ainda se teima em chamar de música popular. Talvez haja realmente uma "Íntegra Homogeneidade Relativa"(rs) em Jorge Benjor, e em poucos outros. O resto é falácia mercadológica de um universo em "cultura big brother".      

LUIZ - Há, notadamente, uma aproximação do seu trabalho com a poesia. Como você processa essa ponte?  

MÁRIO - Eu não me sinto exatamente um músico, um poeta, no sentido em que tantos de meus amores artísticos o foram, tão ampla e legitimamente. A lista aqui seria infindável. Sinto-me na verdade, um animal estranho, em constante cio expressivo, que por sorte, tem lá os seus significativos teores musicais e poéticos. E confesso que hoje leio mais poesia, vejo mais quadros do que escuto música. Com o diferencial de não conseguir contemplar uma tela ou poema que não estejam imbuídos de música. E essa eu tento traduzir. Em música, poesia, pintura, mergulho intensamente em poucas obras. Por limitações de tempo e necessidades de síntese. A multiplicidade de nossa era é maravilhosa, mas confesso que quanto mais ela cresce, mais rigoroso me torno em minhas autolimitações. A inconcebível multiplicidade desta era internética faz milagres, mas bem pode, em alguns casos, levar à flacidez, a formas tão gelatinosas que não resistem sequer aos 15 proféticos minutos de Warhol.    

LUIZ - Aproveitando o papo sobre poesia, você está desenvolvendo um trabalho com o poeta Floriano Martins. Em que pé está esse trabalho?

   

MÁRIO - Olha Luiz, o trabalho está lindo. As sete composições inspiradas no poema "Sombras Raptadas", do Floriano, estão prontas. Foram sete parcerias nossas. E temos ainda várias outras, que estamos escolhendo para concluirmos o repertório do disco. A Ana Lee interpreta lindamente grande parte da obra, quase toda a "Sombras Raptadas", que é uma revisitação a mulheres bíblicas do velho e do novo testamento, através de perspectivas altamente eróticas, políticas, religiosas, entre outras. Fazemos alguns duetos. E certamente ela cantará outras coisas a serem incluidas no disco. O Floriano já contatou diversos atores, artistas plásticos, fotógrafos de peso para a participação na peça. "Sombras Raptadas" é obra escrita para teatro. E o disco está ficando belíssimo. Algumas das canções entrarão de brinde em minha nova página da net.

 

LUIZ - Como você está vendo a receptividade ao seu trabalho musical?  

MÁRIO -  As pessoas que tem acesso a ele, estão me amando e-ou odiando cada vez mais (rs). É um trabalho de grande passionalidade e radicalismo. O Floriano Martins, por exemplo, convidou-me à parceria que realizamos atualmente, após ter ouvido minhas canções. Já o Luiz Antonio Giron, escreveu uma crítica fabulosa na Gazeta Mercantil, jornal de São Paulo, por volta de março de 2000. Ele começou dizendo: "Um álbum bizarro, a começar pela capa que nos remete a...é no mínimo um cd indeterminista...o fato é que ainda não há ouvintes para essa música". Luiz, eu tive um orgasmo ao ler aquela matéria. E vou lhe dizer o porquê. Na mesma página ele comentou outros álbuns da "Trama", mas dizendo aquelas coisas, tipo, "um disco com simpáticas canções e arranjos refinados", frases que se esquecem antes mesmo de se terminar a leitura da resenha. Já no meu foi diferente (rs). E para um disco tão complexo, não poderia ter sido melhor. Tenho certeza de que se tivesse (e fosse de minha índole) pagar algum escriba para resenhar a obra, solicitaria algo muito próximo do que o Giron escreveu. Mas mesmo com grana, duvido que o cara fosse escrever com tamanha competência (rs). Mas a receptividade no geral tem sido muito boa. Entra em algumas rádios, por enquanto não muitas. Mas já está, além da Rádio USP e do Expresso 2222, do Gil, prestes a adentrar outras emissoras. E o importante Luiz, é que eu não sobrevivo de música. Portanto continuarei absolutamente fiel à minha consciência, independente de quaisquer resultados. E além desse álbum de parcerias com o Floriano, já tenho muita coisa gravada para um quarto e um quinto cd, que talvez acabe virando um duplo. Por enquanto, o título é "Álven Jérra".    

LUIZ - Como você vê a renovação da música brasileira? que nomes você destaca? Há, realmente, renovação ou tudo é um palco para mesmices?    

MÁRIO - O último compositor que considero realmente grande, gigante, é o Djavan. E ouso dizer que suas reais dimensões são subestimadas, uma vez que ele surgiu solitário, e não numa época da mpb, repleta de figuras geniais, e todas, reforçando uma a outra, direta ou indiretamente, tudo e todos fomentando o crescimento da música brasileira. E o mesmo se dava no mundo todo, com Beatles, Stones, Hendrix, Zappa. Djavan foi um caso à parte. Outra Estrela Solitária. Sina e Açaí já estão ao lado das grandes canções brasileiras de todos os tempos. Cássio Gava, arranjador de "Samba De Alvrakélia", possui um interessantíssimo trabalho de composições, lançado em dois álbuns, "Rapsódia Paulistana", e "Dois", ambos lançados pela Dabliú. Walter Garcia, de quem Ana Lee gravou muitas composições em seu primeiro cd, é também compositor brilhante. Ele tem um modo de pensar, de fazer música, muito, muito distinto do meu, mas pelo que pude apreender de sua obra, nas várias audições do cd da Ana Lee, Walter Garcia é um dos artistas mais inspirados que ouvi ultimamente. E nele, inspiração, em momento algum se contrapõe a elegância, contenção, e outras características afins, que alicerçam criações das mais passionais que ouvi nos últimos tempos. Agora, tem muitos "inquietos", como o Lenine e o Moska, que estão sempre a buscar. E a busca já é ótima em si mesma. Saudável. Mas acredito, como Picasso, que em arte a gente deve revelar os achados da busca. E esses, infelizmente são poucos. De qualquer forma, os artistas e a indústria cultural não podem parar, só que eu é que não vou ficar ouvindo isso. Se não tenho tempo para ouvir todos os Pixinguinhas, todos os Zappas, Bachs e Cartolas da vida, não vou mesmo me deixar envolver por tramas mercadológicas. E nunca é demais lembrar, Luiz, que arte não é ciência. Você passa muito bem, ouvindo o que não se esgota em poucas vidas, até que saiba, sinceramente, em sua cabeça, coração e entranhas, da existência de algo que realmente valha a pena. E quando isso ocorre, quem tem antenas fatalmente saberá.  

LUIZ - Você encontra espaço para o novo compositor no mercado?    

MÁRIO - A maioria dos "compositores" pensa muito no mercado, e muito pouco nas composições. Essa postura precisa ser radicalmente invertida enquanto ainda há chance para alguma composição. Se não der para viver de sua próprias composições, é melhor sobreviver em outra área, mas nunca prostituir o mais sagrado: a arte. E nestas paragens não existe meio termo não. É até bíblico: "Os mornos, eu vomitarei da minha boca". Essas alusões bíblicas, Luiz, antes que me compreendam mal, são aqui utilizadas tão somente em função de suas altíssimas poeticidades. Não afirmo ou nego crença alguma.      

LUIZ - Fala agora dos projetos que você pensa para futuro na sua carreira.  

MÁRIO - Ora, não vejo uma única frase proferida nessa entrevista que já não seja parte do projeto que desenvolvo, e que não existe apenas quando pego no violão, quando me sento ao piano, ou seguro o caderno e a caneta. Mas especificamente falando, pretendo continuar criando o que julgo essencial, e partilhar tudo com quem esteja disponível. Dentro de minhas possibilidades e limitações. Sem fazer nada que lese a essência do que sou, do que possibilita a existência de uma obra. Essa nossa conversa foi assaz estimulante, Luiz. Um abração gigante para você, extensivo a todos os seus amores, suas obras, suas crias. Isso é o que importa.  

   
   

 

 

 


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