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MÁRIO MONTAUT
Livrinho perdido

Acabei de esquecer no CDP (Centro de Detenção Provisória) de Vila Independência, em São Paulo, SP, um livrinho que amo: "Caos, Criatividade e o Retorno do Sagrado". Pior é que está esgotado. Livro de cabeceira que me ajuda mais a refletir sobre tanto que tenho feito do que muitos livros de arte, discos. Reflexões acerca da Teoria do Caos, por três figuras deliciosas. Um matemático, um físico, um biólogo. Já liguei pro CDP e ninguém diz Ter encontrado o livro. Se não encontro vira obsessão. Sei disso porque são triálogos do cacete. E embora nada de essencial tenha se perdido, o livro físico justifica essas essências que começam por delinear muito do incogitável, inconcebível ainda. Dizia Borges que só existem os Paraísos Perdidos mesmo. Então, namoradas que nos deixaram, discos, países, e nesse caso, livros perdidos, que bobear viram sonhos. Então, estou meio sozinho, e na ausência caótica passo a imaginar se é saudável, penso que é, amarmos obras que são... nossas??? Algumas falando de solidão, e curiosamente feitas a partir de vivências de grande plenitude, felicidade mesmo, e que resultam, tristes, embora de uma tristeza vigorosa, de um rigor lírico incomum, como no caso, "Divino Só", gravada no álbum "Bela Humana Raça", e "Ingatiaia", gravada no cd "Samba de Alvrakélia". É tanta solidão que toca em todo mundo, aliás, acaba por tocar em todo canto do planeta, e eu, tendo de trabalhar nas ruas, encontro gente, de todo tipo, e ainda que tendo de fazer visitas a Centros de Detenção Provisória, cultivo a felicidade das ruas e do contato amplo, com muita, muita gente, e sou tão feliz por isso, pelo vivo das ruas, que dedico a toda a trama conjurada para o esquecimento do meu livrinho, a letra de "Divino Só":

DIVINO SÓ

Canto silêncios há eternos sóis

Lanço ao abismo meus dominós

Pinto no alto de um céu irmão

Vermelhidão belinda

Invento o fogo de infernos reis

Benzo a bonança e cem mil vulcões

Dragões e corvos na minha mão

Gira Terra me esquece

Ao torpor das canas

Tomba sol me enaltece

Ao pingar das chamas

Desce musa me adoce

Ao tremor das plumas

Grilos ouçam minha prece

Ao vibrar na mutação

Sou tão deus quando sozinho

E adeus e adeus vou indo

Descongela cerejeira e vem

Dizer amém pro dia

Sou tão deus e sou caminho

E adeus e adeus vou indo

Desencanta a feira inteira e zen

Dizer ah! vem poesia

Míngua lua me enlouquece

Ao terror das Índias

Pomba-Gira me agradece

Ao cismar das linhas

Brilha estrela me enternece

Ao verdor das pulgas

Vênus ouça minha prece

Ao errar na translação

Sou tão deus quando sozinho

E adeus e adeus vou indo

Descongela cerejeira e vem

Dizer amém pro dia

Sou tão deus e sou caminho

E adeus e adeus vou indo

Desencanta a feira inteira e zen

Dizer ah! vem poesia

Crio rosários de infindos nós

Extrema benção extrema unção

Anjos e porcos na minha mão

(Mário Montaut- cd "Bela Humana Raça")

sim, dedico a toda a trama desse esquecimento, sejam pastéis de feira, cervejas, moças flertadas, melodias pedindo para serem quase adivinhadas nos acordes brotando da mais densa alegria, e palavras soltas, conversas intensas sobre os mais banais e eternos temas, em lugares do anonimato que nos brinda, fertiliza com a generosidade das vivências que nos dão, ali no âmago de solidões hiperpovoadas, canções como esta outra:

INGATIAIA

Voando a imensidão de Ingatiaia

Eterna ao sol é cio de pio em pio

De vez em quando o império é vã mortalha

E o canto dela flui por aí...

Voando a solidão de Ingatiaia

Compõe canção que o mundo não ouviu

De vez em quando vê Maracangalha

E o canto dela flui por aí...

Vai cantando, vai subindo

E voando assim

Vai cantando, vai florindo

E voando assim

Vai cantando, vai subindo

E voando assim

Vai cantando, vai tinindo

E voando assim

Voando a sagração de Ingatiaia

É pena que o castelo não a viu

De vez em quando bica a muralha

E o canto dela flui por aí...

(Mário Montaut- cd "Samba de Alvrakélia")

Salve Caymmi de Maracangalha, que assanha a ave que voa por Ingatiaia, e todos os labirintos de São Paulo, onde certamente, num cantinho, haverá de estar meu livro "Caos, Criatividade e o Retorno do Sagrado", que legitima, inclusive, a possibilidade de se amar o que se faz, sabendo não fazermos nada sozinhos. E quem puder que leia a obra que jamais esquecerei, e ouça as duas músicas que dedico a todos os seres em comunhão de solidões eróticas, ardentes, partilháveis. Com um beijo do Mário a todos.

MÁRIO MONTAUT é brasileiro, paulistano, de ascendência italiana, espanhola, indígena, moura, francesa e outras. Desenvolve uma sequência de composições que vêm à luz, já em dois trabalhos: "Bela Humana Raça", Dabliú, 1999, e "Mário Montaut: Samba De Alvrakélia", a sair nos próximos dias pelo selo MBBmusic. São muitos anos de vivências artísticas, num panorama que inclui Dorival Caymmi, René Magritte, Manoel De Barros, João Cabral De Melo Neto, Borges, Chico, Caetano, Gil, Dalí, Fellini, Buñuel, Webern, Cartola, Breton, Blavatsky e muitos amores mais, indispensáveis à sua criação, que abarca, além das canções, poemas, textos, roteiros e outras coisas interessantes. Mário Montaut é basicamente um parceiro de todos os seus contemporâneos e ascendentes, humanos ou não, saibam eles ou não. Índios, Negros, Europeus, Sem-terra, Brisas, Baleias, Maremotos, Chuvas, Livros, Discos, Beijos e Trovões Em Todas As Roseiras. Atualmente grava um disco de parcerias suas com o poeta Floriano Martins, onde a talentosíssima intérprete Ana Lee canta grande parte do repertório. Mário Montaut é um pouco de tudo isso. E muito mais, com certeza, pode ser descoberto em seus discos lançados, em suas tantas canções já gravadas, poemas, textos, e múltiplos achados.    
 
   
   

 

 

 


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