MÁRIO MONTAUT
CHICO BUARQUE CARIOCA

Até pensei que é lenha, é fogo, é foda estar atrás só de Serra Leoa na distribuição de renda. E sonhei que um detento no CDP de Vila Independência ouvia Outros Sonhos entre hits do PCC executados nas rádios penitenciárias, a pedidos via Tim e Claro, que se um passarinho espanhol cantarolava esta melodia eu já me derretia em razões de Gerald Thomas dizendo que Chico é essencialmente " love" , e também repetitivo, velho como um Magritte colando os seus murais de som em cores, linhas, círculos melódicos desde A Banda ouvidos; mas com que maestria Luiz Cláudio Ramos arranjou tais citações musicais, que quase dão, razão ao Tinhorão, e ao próprio Chico, que evidencia neste disco o fim da canção como forma de representação social legítima. E contrariando todos os princípios sentimentais da minha constituição de raízes pequeno-burguesas, rebelando-me e afrontando pensamentos, emoções de primeira hora, confesso acreditar que a canção se esgotou, se exauriu, perdeu sua capacidade de comoção a curto ou médio prazo, o que numa obra como Carioca significa, no mínimo, que já não é popular. Fala Penha, fala Irajá, fala Santo Eduardo, Encantado, Jardim Ângela, Grajaú, Paciência, Cipó, Marcilac, Meriti, Madureira, Capão Redondo, Joaniza, teu hip-hop, fala na língua do rap, que entusiasma, mas não é Música, a que quer nos manter vivos, e tem muito, muito, muito a dizer, mais que a palavra e todas as artes, este termômetro da vitalidade do ser, que já não é o mesmo em 2006, e nunca se desconheceu tanto, numa inconsciência de rato, que rói a roupa, que rói a capa do rei do morro, de rato ruim, rato que rói a rosa, que ri do roto, mas vital, é um sobrevivente, de Vigário Geral a São Paulo PCC de maio pelos Jardins, Vilas e Centros de Detenção Provisória em chacinas e rebeliões. Dá o que pensar a riqueza melódica do samba-jazz, quase artificial não fosse o sopro encantado da preguiça que desliza esquinas, mil buzinas, imagina orquestra e Felicidade sim, Jobim, que a vida é bela, o sol, a estrada amarela, e as ondas, e as ondas, e as ondas, e as ondas de La Mère a Wave quebrando em Lenine, Mano Brown, Marcelo D-2, Gabriel Lôraburra, Maria, Madalena, Madre De Calcutá, Madonna, Mônica Salmaso faz cinema, ela faz cinema, ela faz cinema, ela faz cinema, e ela também. O sol ensolarará a estrada dela, a lua alumiará o mar, e a espinha dorsal do estupendo refrão sustenta qualquer invenção, desde que o samba é samba; e tudo passa pela linguagem musical e seu questionamento, mas não o dos musicólogos, pois há que se mergulhar fundo e descobrir as reais interligações harmônicas, melódicas, rítmicas, com as maravilhosas realidades prementes, terríveis do ser em abertura de novos canais e a radical utilização das novíssimas antenas de um certo individualismo, uma vez que o exercício da mais rica cidadania ainda estaria mui distante das necessidades expressivas da gente, mesmo em outros sonhos, porque Os Sonhos Da Música São Outros; e as Fontes Da Inspiração nunca estiveram tão perto e tão longe da praça pública, relembrando Nietzsche e seu nobre pupilo Dalí, mais atuais e necessários do que nunca; se bem me lembro que Chico adora Fellini e Buñuel, com o qual se sente ainda "mais em casa", numa entrevista dada a uma belíssima aluna do professor universitário que descobriu harmonias revolucionárias em sua música, mas desistiu de entrevistá-lo, após vários recados em sua secretária, sem sucesso. Também, com tantas atrizes, imagina se o libidinoso carioca teria paciência para falar de música, com homem, e erudito! Morro de rir com tanto veneno, e as ondas, e as ondas, e as ondas, e as ondas; porque era ela, porque era eu, mas para quem sabe olhar, a flor também é ferida aberta, e não se vê chorar. Naturalmente ela sorria. Em Rio Das Ostras. Na virada de ano, e hoje aceito melhor a atoladinha da garotada funk de subúrbio; peitinhos assaz, bundinhas assim. Ecce Homo. Chico Buarque Carioca. Duro na queda, desfila natural, jovelho, redundante, imortal, revelador. Eis a MPB. Bolero Blues, Renata Maria, Leve, e Sempre, a menina que cruzar de volta o arco-íris, Imagina.

( Mário Montaut)

MÁRIO MONTAUT é brasileiro, paulistano, de ascendência italiana, espanhola, indígena, moura, francesa e outras. Desenvolve uma sequência de composições que vêm à luz, já em dois trabalhos: "Bela Humana Raça", Dabliú, 1999, e "Mário Montaut: Samba De Alvrakélia", a sair nos próximos dias pelo selo MBBmusic. São muitos anos de vivências artísticas, num panorama que inclui Dorival Caymmi, René Magritte, Manoel De Barros, João Cabral De Melo Neto, Borges, Chico, Caetano, Gil, Dalí, Fellini, Buñuel, Webern, Cartola, Breton, Blavatsky e muitos amores mais, indispensáveis à sua criação, que abarca, além das canções, poemas, textos, roteiros e outras coisas interessantes. Mário Montaut é basicamente um parceiro de todos os seus contemporâneos e ascendentes, humanos ou não, saibam eles ou não. Índios, Negros, Europeus, Sem-terra, Brisas, Baleias, Maremotos, Chuvas, Livros, Discos, Beijos e Trovões Em Todas As Roseiras. Atualmente grava um disco de parcerias suas com o poeta Floriano Martins, onde a talentosíssima intérprete Ana Lee canta grande parte do repertório. Mário Montaut é um pouco de tudo isso. E muito mais, com certeza, pode ser descoberto em seus discos lançados, em suas tantas canções já gravadas, poemas, textos, e múltiplos achados.    
 
   

 

 

 


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