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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
CASSANDRA - VOX FEMINA TRAGICA
I - CASSANDRA, DE FRIEDRICH SCHILLER
 

A alegria enchia os átrios de Tróia,

Antes de a grande cidadela cair,

Por todo lado, soavam hinos de júbilo,

Em cordas de ouro a luzir.

As mãos de todos repousam, cansadas,

Após a lacrimosa contenda (1),

Porque o Pélida (2) glorioso a bela filha

De Príamo pede em casamento (3).

 

E, coroada de loureiros tenros (4),

Em festa a multidão se agrupa,

Para os templos se encaminha,

No altar do Timbreu (5) se ajunta.

Num abafado torpor, nas vielas,

Espalha-se a báquica alegria,

E, no abandono da sua dor,

Apenas um coração triste surgia.

 

Sem alegria, na abundância alegre,

Votada ao desamparo e só,

Em silêncio, vagueava Cassandra (6),

Nos bosques de loureiros de Apolo.

Nas profundezas mais obscuras

Procurava refúgio a vidente (7)

E, tirando a faixa de sacerdotisa (8),

Irada, exclamou, veemente:

 

"A todos se abrem as portas da alegria,

Todos os corações são abençoados,

E os pais venerandos esperam

A minha irmã, de noiva, adornada,

Só eu tenho de me penar sozinha,

Pois de mim se aparta o doce enlevo (9),

E, a aproximar-se das muralhas,

Vejo a destruição em seu segredo (10).

 

Um archote vejo a brilhar,

Mas não na mão de Himeneu (11),

Para as nuvens se encaminha

Mas não é oferenda ao céu (12).

Alegres se aprontam os festejos

Mas, num augúrio funesto,

Já escuto a disputa dos deuses

Que os destruem cruelmente.

 

E das minhas queixas desdenham,

E escarnecem da minha dor,

Só, tenho de levar para os desertos

O meu coração sofredor,

Sendo pelos ditosos evitada

E para os felizes um escárnio!

Severamente me castigaste,

Pítico (13), tu, malévolo deus!

 

Para anunciar o teu oráculo,

Por que me enviaste à cidade,

Onde habitam os cegos eternos (14),

Se tenho o espírito iluminado?

Porque me levaste a ver

O que não me é concedido mudar?

O determinado tem de acontecer,

O temido tem que se aproximar.

 

De que serve levantar o véu (15),

Onde a tragédia se ameaça?

A vida vivemo-la no erro,

E o conhecimento é a morte.

Leva, oh!, leva a triste claridade,

Leva de mim o seu brilho sangrento!

Terrível é ser arauto fatal

Do teu conhecimento.

 

A minha cegueira, dá-ma de novo

E o seu sentido alegre, obscuro.

Não mais cantei canções felizes

Desde a tua voz asseguro.

Deste-me o futuro de presente,

Mas privaste-me do momento,

Levaste-me as horas felizes da vida.

Toma de volta o teu falso presente!

 

Jamais com as grinaldas nupciais

Os meus fragrantes cabelos coroei,

Desde que, ao desventurado culto (16),

No teu altar me consagrei.

A minha juventude foi só choro,

E apenas conheci a desilusão,

Cada rude anseio do meu ser

Ruiu no meu sensível coração.

 

Alegres se preparam os festejos,

Tudo, à minha volta, ama e vive,

Da juventude de alegres prazeres

Resta-me o coração destruído.

Em vão me aparece a Primavera,

Para alegrar a terra festiva.

Para quem a vê, nos seus abismos,

A quem poderá alegrar a Vida!

 

Felicito a ditosa Políxena,

Com seu o coração ébrio de ilusão,

Pois ao melhor dos Helenos (17),

Núbil, espera dar a mão.

Orgulhoso, o seu peito eleva-se

O doce anseio quase enlaça

Nem a vós, celestiais, lá em cima,

Ela inveja, em seu abraço.

 

E também o vi aquele, que o meu

Coração ansioso escolhe (18).

Iluminados pela chama do amor,

Os seus belos olhares suplicam.

De bom grado partiria com o esposo,

Para o calor da minha casa,

Mas, à noite, há uma sombra estígea

Que, entre ele e mim, se insinua.

 

Todos os seus pálidos fantasmas

Me envia Prosérpina (19),

Por onde erro, por onde vagueio,

Há espectros que me esperam,

Na juventude de alegres folguedos

Interpelam-me cruelmente,

Num tumulto aterrador,

Nunca posso estar contente.

 

E vejo brilhar a espada assassina (20),

E os olhos da morte brilham,

Nem à direita ou à esquerda,

Posso escapar ao pesadelo.

Não posso voltar os olhos,

Sabendo e olhando; sem parentes,

Tenho de cumprir o meu destino,

Caindo em terra de outras gentes (21)".

 

E ainda se ouvem as suas palavras,

Escuta! Num estrépito confuso,

Lá longe, nas portas do templo,

Jaze morto o grande filho de Tétis!

Éris sacode as serpentes (22),

Todos os deuses fogem

E nuvens de trovões abatem-se

Sobre Ílion (23) estrepitosamente.

 

Kassandra

Freude war in Trojas Hallen,/Eh die hohe Feste fiel./Jubelhymnen hört man schallen/In der Saiten goldnes Spiel./Alle Hände ruhen müde/ Von dem tränenvollen Streit,/Weil der herrliche Pelide/Priams schöne Tochter freit.//Und geschmückt mit Lorbeerreisern,/Festlich wallet Schar auf Schar/Nach der Götter heil'gen Häusern,/Zu des Thymbriers Altar./Dumpferbrausend durch die Gassen/Wältzt sich die bacchant'sche Lust,/Und in ihrem Schmerz verlassen/War nur Eine traur´ge Brust.//Freudlos in der Freude Fülle,/Ungeselig und allein,/Wandelte Kassandra stille/In Apollos Lorbeerhain./In des Waldes tiefste Gründe/Flüchtete die Seherin,/Und sie warf die Priesterbinde/Zu der Erde zürnend hin://«Alles ist der Freude offen,/Alle Herzen sind beglückt,/Und die alten Eltern hoffen,/Und die Schwester steht geschmückt,/Ich allein muß einsam trauern,/Denn mich flieht der süße Wanh,/Und geflügelt diesen Mauern/Seh ich das Verderben nahn.//Eine Fackel seh ich glühen,/Aber nicht in Hymens Hand,/Nach den Wolken seh ich´s ziehen,/Aber nicht wie Opferbrand./Feste sehe ich froh bereiten,/Doch im ahnungsvollen Geist/Hör ich schon des Gottes Schreiten,/Der sie jammervoll zerreißt.//Und sir schelten meine Klage,/Und sie höhnen meinen Schmerz,/Einsam in die Wüste tragen/Muß ich mein gequältes Herz,/Von den Glücklichen gemieden,/Und den Frölichen ein Spott!/Schweres hast du mir beschieden/Pythischer, du arger Gott!//Dein Orakel zu verkünden,/Warum warfest du mich hin/In die Stadt der ewig Blinden,/Mit dem aufgeschlossnen Sinn?/Warum gabst du mir zu sehen,/Was ich doch nicht wenden kann?/Das Verhängte muß geschehen,/Das Gefürchtete muß nahn.//Frommt´s den Schleier aufzuheben,/Wo das nahe Schrecknis droht?/Nur der Irrtum ist das Leben,/Und das Wissen ist der Tod./

Nimm, o nimm die traur´ge Klarheit,/Mir vom Aug den blut´gen Schein!/Schreklich ist es, deiner Wahrheit/Sterbliches Gefäß zu sein.//Meine Blindheit gib mir wieder/Und den fröhlich dunkeln Sinn./

Nimmer sang ich freud´ge Lieder,/Seit ich deine Stimme bin./Zukunft hast du mir gegeben,/Doch du nahmst den Augenblick,/Nahmst der Stunde fröhlich Leben,/Nimm dein falsch Geschenk zurück.//Nimmer mit dem Schmuck der Bräute/Kränzt ich mir das duft´ge Haar,/Seit ich deinem Dienst mich weihte/An dem traurigen Altar./Meine Jugend war nur Weinen,/Und ich kannte nur den Schmerz,/

Jede herbe Not der Meinen/Schlug an mein empfindend Herz.//Fröhlich seh ich die Gespielen,/Alles um mich lebt und liebt/In der Jugend Lustgefühlen,/Mir nur ist das Herz getrübt./Mir erscheint der Lenz vergebens,/Der die Erde festlich schmückt,/Wer erfreute sich des Lebens,/Der in seine Tiefen blickt!//

Selig preis ich Polyxenen/In des Herzens trunknem Wahn,/Denn den Besten der Hellenen/Hofft sie bräutlich zu umfahn./Stolz ist ihre Brust gehoben,/Ihre Wonne faßt sie kaum,/Nicht euch Himmliche dort oben/Neidet sie in ihrem Traum.//Und auch ich hab ihn gesehen,/Den das Herz verlangend wählt,/Seine schönen Blicke flehen,/Von der Liebe Glut beseelt./Gerne möcht ich mit dem Gatten/In die heim´sche Wohnung ziehn,/Doch es tritt ein styg´scher Schatten/Nächtlich zwischen mich und ihn.//Ihre bleichen Larven alle/Sendet mir Proserpina,/Wo ich wandre, wo ich walle,/Stehen mir die Geister da./In der Jugend frohe Spiele/Drängen sie sich grausend ein,/Ein entsetzliches Gewühle,/Nimmer kann ich fröhlich sein.//Und den Mordstahl seh ich blinken,/Und des Mörders Auge glühn,/Nicht zur Rechten, nicht zur Linken/Kann ich vor dem Schreknis fliehn,/Nicht die Blicke darf ich wenden,/Wissend, schauend, unverwandt/Muß ich mein Geschick vollenden,/Fallend in dem fremden Land» ­//Und noch hallen ihre Worte,/Horch! Da dringt verworrner Ton/Fernher aus des Tempels Pforte,/Tot lag Thetis´ großer Sohn!

Eris schüttelt ihre Schlangen,/Alle Götter fliehn davon./Und des Donners Wolken hangen/Schwer herab auf Ilion .

FRIEDRICH SCHILLER, Sämtlische Werke , I Band, Insel Verlag, Berlim, 1991, pgs. 521- 525

 
II*

«La mort se cache ici dans les replis
dans les replis du songe» (25)
ROBERT BRÉCHON

O poema Cassandra, de FRIEDRICH SCHILLER, foi escrito no início de Fevereiro de 1802 e publicado no Taschenbuch für Damen für das Jahr 1803 . GOETHE planeava escrever um poema épico, denominado Achileis, que teria por tema o casamento de AQUILES e POLÍXENA. O assunto foi tema da conversa, nas cartas, trocadas entre os dois poetas. A 19 de Março de 1799, SCHILLER referiu que esperava que o poema de GOETHE estivesse terminado no Outono desse ano (26); contudo, GOETHE acabou por não o concluir. Da partilha de ideias, resultou o poema Cassandra de SCHILLER. A primeira menção ocorreu numa carta que SCHILLER enviou a GOETHE, a 11 de Fevereiro de 1802, na qual SCHILLER se lhe referiu como pequeno poema ( kleines Gedicht ) (27), que terminou em 9 de Setembro. Enviou-o então a KÖRNER, comentando que talvez o seu amigo esperasse mais do que o mero tratamento lírico do tema (28), que poderia ser objecto de uma tragédia e, enviando-lhe o poema, que designou como insignificância (Kleinigkeit) , expressou o desejo que este lhe talvez lhe pudesse inspirar uma melodia. Parece que o poema teria sido do seu agrado (29).

KÖRNER respondeu em 19 de Setembro, concordando em relação ao potencial dramático do tema. Numa primeira leitura, teria desejado um tratamento dramático, pensara mesmo num plano para uma representação musical - os preparativos festivos no templo, nomeadamente o coro dos Gregos e dos Troianos, constituiriam um material magnífico para uma ópera. Só que não havia um desfecho satisfatório para o drama. O verdadeiro final, a destruição de Tróia, pareceu-lhe pouco adequado a uma tragédia. O tratamento lírico do tema parece-lhe, pois, mais consentâneo e sublinhou a feminilidade tocante, sem a desvantagem da força (die rührende Weiblichkeit ohne Nachteil der Kraft), que SCHILLER emprestara à figura de CASSANDRA (30).

O poema foi sempre referido por SCHILLER como kleines Gedicht , que, no entanto, o incluiu nas suas baladas. Esta classificação não é pacífica, tal como BENNO VON WIESE esclarece (31), pois, a sua estrutura é diferente das outras baladas e não contém qualquer mensagem didáctica.

A estrutura do poema assenta num monólogo de CASSANDRA, que se desenvolve entre dois pólos dramáticos intensos: o casamento de POLÍXENA, irmã de CASSANDRA, e a iminente destruição de Tróia. O pano de fundo histórico confere à balada características dramáticas e traços épicos específicos. Os quadros de felicidade externa que observa alternam, desde o início, com os quadros que a capacidade de vidente de CASSANDRA vão projectando, desfiando, diante de nós, a sua visão solipsista, que nos transportam às aporias da vida, da verdade e do ser.

A estrofe inicial espelha o júbilo e a alegria, motivadas pela festa de casamento que, em breve, se vai celebrar e com o qual terminará a guerra de Tróia (32). Na primeira estrofe, a multidão ébria de alegria, dirige-se para o templo de APOLO, onde a boda se vai celebrar, enquanto CASSANDRA se dirige sozinha, para os bosques de loureiros de APOLO. Na estrofe final, a festa está destruída, AQUILES está morto. Sob os olhares de ÉRIS, a deusa da discórdia, Tróia está em chamas, todos os outros deuses fogem e a guerra, sob as nuvens negras que, sobre ela se abatem, conhece o seu final trágico. Entre as duas cenas, desenvolve-se o monólogo de CASSANDRA, que tudo sabe e que a tudo assiste, desde o início. Nele, escutamos o seu lamento, em relação a APOLO e à infelicidade da sua vida. Todos se alegram: os pais e a irmã, que aguardam o noivo. Só ela tem que se isolar pois vê a destruição que se aproxima. Observa um sinal de fogo, mas não é de altar, ou de oferenda. Os Troianos troçam dela, não acreditam nas suas profecias e evitam-na (33).

Não é referido o envolvimento amoroso com APOLO, ou a sua recusa hierogámica para com o deus. É o próprio conhecimento da verdade, a sua missão de vidente, que lhe traz tristeza e amargura e que destrói completamente toda a alegria dos seus dias. Oscilando entre a esperança e a almejada paz, que o casamento entre POLÍXENA e AQUILES trará e que constituirá uma solução pacífica para o conflito, surge, no final o anúncio do morte do Pélida, com as consequências catastróficas que esta acontecimento assume.

CASSANDRA preferia então nada ver, a fim de poder ser feliz. Enquanto os outros festejam, ela vê a vida em seus abismos. Como sacerdotisa de APOLO, não se poderia casar, e, devido ao culto a que preside, só lhe compete ser porta-voz de notícias tristes. O monólogo adensa-se e o seu tom torna-se, cada vez mais e sombrio. CASSANDRA gostaria de casar, tal como POLÍXENA; esta está muito feliz, a ponto de nem invejar os deuses. Todavia, os espectros de PROSÉRPINA surgem, entre CASSANDRA e o amado (COREBO; OTRIONEU?)(34). O terrível final aproxima-se.

Tudo sabendo e a tudo assistindo, impotente, resta-lhe aceitar o seu destino: morrer, juntamente com AGAMÉMNON, às mãos de CLITEMNESTRA, em Micenas, longe da sua pátria (35). Falha pois a possibilidade de uma solução pacífica para a lacrimosa contenda (tränenvoller Streit). AQUILES, o grande herói, é traído e a solução pacífica falha. Toda a história mítica vai sendo actualizada, em função do horror final que, para SCHILLER, constituíram a morte de AQUILES e a destruição de Tróia, acontecimento tão terrível, que põe os próprios deuses em fuga, deixando um quadro de devastação, que nem mesmo os deuses querem testemunhar. A morte de AQUILES significa o ruir de um mundo cultural em destruição (36).

Não há nada que CASSANDRA possa fazer para impedir o desfecho trágico que se avizinha. A infelicidade de CASSANDRA surge pré-determinada. Para HANS-GEORG WERNER, o problema hermenêutico que se coloca, no poema, é saber se SCHILLER coloca o acontecimento em consequência de um deus malévolo ( arger Gott), ou se o assunto se pode transportar para um âmbito mais geral (37). Pois, não sendo mencionada por SCHILLER a parte do mito referente à punição de APOLO, a profetisa interroga-se sobre a razão do que lhe acontece: Por que me enviaste à cidade onde/Habitam os cegos eternos, se tenho/ Se tenho o espírito iluminado?). Só sabemos que: Nur der Irrtmum ist das Leben/Und das Wissen ist der Tod. (A vida vivêmo-la no erro/E o conhecimento é a morte ( Dein Orakel zu verkünden,/Warum warfest du mich hin/In die Stadt der ewig Blinden,/Mit dem aufgeschlossnen Sinn/).

O conhecimento da verdade transforma-se na triste claridade (traur'ge Klarheit) e o presente de APOLO torna-se um falso presente (falsch Geschenck) , que a priva de todas as alegrias da juventude e da vida e lhe inviabiliza a sua realização como mulher, casando com aquele que o meu coração ansioso escolhe (Den das Herz verlangend wählt) . Mas a felicidade desvanece-se, ameaçada pelas sombras do Estige, consumando-se tudo numa cena de espectros, que traduzem a destruição e a morte: Todos os seus pálidos fantasmas me envia Prosérpina ( Alle bleiche Larven sendet mir Proserpine ).

O archote de HIMENEU, destinado a presidir ao casamento de POLÍXENA, em breve também se transforma no braseiro destruidor da cidade em chamas. Tudo alterna, no poema, escrito em versos trocaicos, com rima cruzada: a vitória, a destruição, a alegria, a tristeza, a morte, a vida, a verdade, a ilusão, o feminino, o masculino, restando a morte de AQUILES, a destruição de Tróia e a destruição emocional da mulher - CASSANDRA, apresentada na sua feminilidade comovente (rührende Weiblichkeit), que KÖRNER salienta na carta, já referida.

Representando o lado dos vencidos, a figura de CASSANDRA reúne todos os topoi literários de sofrimento e miséria. O poema denota todo o pessimismo histórico que se apodera de SCHILLER, nos últimos anos da sua vida (SCHILLER virá a morrer em 1805), após ter escrito a trilogia Wallenstein (1797-99) (38).

No prefácio aos Textos sobre o Belo, o Sublime e o Trágico , do autor , TERESA RODRIGUES CADETE aponta uma das linhas-chave para a compreensão da visão estética de SCHILLER: «A educação estética tem em vista preparar o indivíduo para o belo e através do belo, em situações de felicidade, para o sublime e através do sublime em situações de desgraça (...) para a inevitabilidade da morte.» (39).

Este poema assume uma grande importância na recepção posterior que é feita à figura, pois, é a partir dele que a personalidade de CASSANDRA ganha autonomia e consistência psicológica (40). Retirada do seu contexto habitual: o regresso à Grécia, como cativa, profetizando a sua morte e a de AGAMÉMNON, SCHILLER vai recriar a sua personagem num outro contexto: as bodas de POLÍXENA e AQUILES, narradas nas Fábulas de HIGINO, encenadas num novo contexto, gerindo uma forte carga emocional, onde confluem o trágico, o sublime e o poético.

No texto referido, TERESA RODRIGUES CADETE esclarece: Embora o autor privilegie o sublime, precisamente pela sua indelével proximidade com o trágico, ele nunca perde de vista o mosaico global da estética. Por isso mesmo ele prevê, para situações de insuportável tensão, a acção moderadora do belo (41).

Num outro poema Das Siegfest (42) (A festa da vitória), um Trinklied (canção de beber), de tom anacreôntico, publicado em 1804, no Taschenbuch für Damen, CASSANDRA surge, junto às outras cativas troianas, que se despedem, pesarosas, da sua terra natal, enquanto os gregos, celebrando a vitória, se preparam para embarcar para a Grécia.

O poema aponta outro aspecto que virá a ser desenvolvido na literatura posterior: o preço que os vencedores têm que pagar pela vitória. Mesmo, para quem vence, a vitória tem um preço. A guerra tragara os melhores: AQUILES e PÁTROCLO, do lado grego, e HEITOR, do lado troiano, e nem todos os que se preparam para regressar, terão um acolhimento feliz. CALCAS invoca ATENA; ULISSES, inspirado pela deusa, prevê o final de AGAMÉMNON, sucumbindo às mãos de sua mulher CLITEMESTRA, porque o sacrifício de sua filha IFIGÉNIA precisa de ser vingado. CASSANDRA surge, a concluir o poema, expressando uma atitude de aceitação do destino humano: o homem, continuamente ameaçado pela adversidade, não pode fazer mais que viver o Carpe Diem :

De pó é todo o ser terreno

Como a névoa entre as colunas,

Todos os grandes terminam,

Só os deuses ficam de pé.»

No cavalo do cavaleiro,

Nos barcos, pairam os medos,

Do amanhã nada sabemos,

Vivamos então o presente. (43)

Para SCHILLER, a arte prefigura o grande manancial das suas energias. Embora se movimente numa área multidisciplinar, que engloba a poesia lírica e dramática, a filosofia, a história e sua formação médica de base, é para a arte que todo o seu ser converge, tal como confessa a KÖRNER, em 25 de Maio de 1792, quando se preparava para escrever a trilogia Wallenstein: Encontro-me agora cheio de impaciência para iniciar algo poético. Na realidade é apenas na arte que sinto as minhas forças. Na teoria tenho sempre que de atormentar com princípios (44).

CASSANDRA contém toda a força do mito. Para PAULY WISSOWA, A figura de Cassandra é uma criação dos poetas ( Die Gestalt der Kassandra ist eine Schöpfung der Dichter) ; é fácil seguir o seu percurso através da literatura (45). O dom da profecia é a característica de CASSANDRA que mais fascina os poetas (46). Na Antiguidade, CASSANDRA é mencionada, pela primeira vez, na Ilíada (XIII, 424), sendo apenas exaltada pela sua beleza, a propósito de OTRIONEU, que viera de Cábeso, para combater ao lado dos Troianos. Em troca teria pedido a PRÍAMO a mais bela das suas filhas . PRÍAMO teria acedido, mas OTRIONEU foi morto por IDOMENEU. Na Odisseia , no Canto XI, é já referida como profetisa, pelo fantasma de AGAMÉMNON, durante a catábase de ULISSES. Na XI Ode Pítica (por vezes, denominada Pequena Oresteia , porque trata do regresso de AGAMÉMNON e o seu assassínio por CLITEMNESTRA, no regresso à Grécia), PÍNDARO refere que a CASSANDRA é vítima do ciúme de CLITEMNESTRA (47).

Na peça Agamémnon, de ÉSQUILO (48), CASSANDRA explicita como adquiriu o dom: Foi o profeta Apolo que me deu este poder , Mas: Depois de dar o meu consentimento enganei Lóxias (vv. 1208 ) . CASSANDRA recusa APOLO, que dela se enamorara, quando a vira, um dia, no culto do templo. Este ensinara-lhe as artes da profecia, em troca do seu amor. Após a sua recusa, o deus puniu-a, condenado-a a que ninguém mais acreditasse nas suas profecias: Ninguém mais acreditou em mim, depois que cometi esta falta . ( vv. 1201). Desta forma, CASSANDRA fica isolada e condenada ao sofrimento. A sua figura expressa a perplexidade do homem face ao destino que o transcende. Ao ganhar acesso à capacidade de prever o futuro, prerrogativa dos deuses, CASSANDRA não ascende ao mundo dos deuses e permanece no plano humano.

Quando a desgraça sobrevem, Tróia cai e AQUILES morre às portas do templo. No seu túmulo, POLÍXENA é degolada por NEOPTÓLOMO. As sombras, onde passa a mover-se, prefiguram o Hades, para onde transitará: Oh! as núpcias de Páris, que destruíram todos os seus! Ó Escamandro, rio da minha pátria! À tua beira, ai de mim, cresci, tu me criaste. Mas agora é junto ao Cocito e nas margens perfiladas do Aqueronte que parece que eu, muito em breve, cantarei as minhas profecias. ( vv. 1156-60). Digno de nota é o seu caracter heróico e a aceitação do seu sofrimento, patente no diálogo com o CORIFEU, quando este lhe pergunta por que não foge, se já sabe o que a aguarda: Mas se é verdade que conheces a sorte que te espera, porque é que, como uma novilha conduzida por um deus, avanças assim corajosamente para o altar? (vv. 1296-98) Ao que CASSANDRA responde: Quando o tempo está maduro, não há modo de escapar, nenhum modo estrangeiros! (vv. 1998-99 ).

A figura de CASSANDRA leva-nos para aspectos mais obscuros da personalidade humana. APOLO, o deus luminoso, é também LÓXIAS, o epíteto que refere a característica obscura do deus, ligada às profecias. Com efeito, APOLO, o deus da loucura profética, inspira a chamada mediunidade apolínea (49), cujo objectivo é o de conhecer o futuro, bem como os segredos ocultos do presente.

A peça Agamémnon , de ÉSQUILO, foi alvo de fervorosa admiração por parte de SCHILLER, tendo feito parte de um projecto de tradução (do francês) após ter traduzido a peça Ifigénia na Áulide, de EURÍPIDES e largas passagens de As Fenícias (50). Em carta à sua noiva, CHARLOTTE VON LENGEFELD, SCHILLER escreveu, a respeito de Agamémnon : : A ela quero dedicar todo o meu esforço, porque esta peça é uma das mais belas criações que alguma vez saíram da cabeça de um poeta (51).

A figura de CASSANDRA, reduzida a presa de guerra, consolida-se, na peça de EURÍPIDES As Troianas (52), onde a virgem consagrada a APOLO enlouquece, com o peso do sofrimento, que a destruição de Tróia a da sua família acarretam. A sua pessoa e a sua personalidade são aniquiladas. CASSANDRA deixa de ser a sacerdotisa, a mulher respeitada, para ser apenas um despojo de guerra, concentrando, em si, todo o sofrimento que a humanidade é capaz de infligir a si própria. AGAMÉMNON amá-la-á, é certo, mas esse facto atrairá maior acrimónia por parte de CLITEMNESTRA. A loucura de CASSANDRA é a expressão de uma clarividência, que acentua o sofrimento atroz, sendo amargamente sublinhado através da paródia sobre os seus esponsais com AGAMEMNON. É relevante o facto de CASSANDRA ser uma princesa real e uma sacerdotisa do deus APOLO, ocupando, por isso, uma posição social elevada, da qual é totalmente destituída. Segundo WOLFGANG SCHULLER (53), as mulheres nobres possuíam importância política, mantendo quase uma posição semelhante à dos homens. Este facto é confirmado pelas esculturas e pelas pinturas da época. Também as poetisas, que entraram em concursos de poesia, em pé de igualdade com os homens, possuíam um estatuto semelhante. Exemplo disso é CORINA (54), poetisa arcaica da cidade de Tanagra, que escreveu cinco livros (dos quais sobreviveram alguns fragmentos), epigramas e poemas narrativos, não tendo estes não chegado até nós. CORINA participou em concursos poéticos, em pé de igualdade, com PÍNDARO, tendo-o derrotado por cinco ocasiões (55).

As sacerdotisas também mantinham uma posição privilegiada, na sociedade, sendo a função de sacerdote desempenhada, tanto por homens, como mulheres. Esta situação verifica-se, no período homérico e no período arcaico, tendo-se prolongado, no período clássico. É certo que transformações ocorridas, determinaram a secundarização da mulher na sociedade, durante esse período, embora não da forma assustadora, que habitualmente se pensa, segundo o autor. A existência de mulheres, como sacerdotisas manteve-se, e o acesso ao cargo de sacerdotisa continuou a fazer-se, como se fazia anteriormente, com as mesmas prerrogativas detidas pelos homens, pois: os deuses são conservadores (56). Segundo este autor, esta situação também se verificou, durante a época romana. Este opinião é corroborada por LOUISE BRUIT ZAIDMAN, que, referindo-se ao sacerdócio e aos serviços de culto femininos, esclarece: O que imediatamente salta à vista é o contrate entre o lugar subalterno, ainda que estrategicamente importante, reservado às mulheres no culto público, e o papel que nele desempenham as sacerdotisas. Eleitas ou tiradas à sorte como os sacerdotes, elas ocupam em certos casos um lugar de primeiro plano e recebem, como eles, a sua parte de honra na partilha do sacrifício (57). Em Roma, tal como refere JOHN SCHEID, As Vestais e o fogo sagrado de Vesta estão ligados ao próprio destino de Roma. Nenhum sacrifício público pode ser celebrado sem a sua colaboração, (...) Tal como as Vestais e os seus ritos, as profecias da Sibila eram indispensáveis ao funcionamento de Roma, visto que permitiam que os magistrados e o Senado resolvessem todas as crises maiores e restabelecessem a paz com os deuses, embora a participação da mulher nas restantes áreas da vida religiosa estivesse, de uma forma geral, subordinada aos homens (58).

 
 
 
Publicado no Boletim de Estudos Clássicos, Nº 41, Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, Coimbra, Junho, 2004, pgs. 83-102.
Salvo menção em contrário, as traduções do alemão são de nossa autoria. BEC, Nº 42, Coimbra, Dezembro, 2004, pgs. 199-214)
*Ao Dr. NUNO SIMÕES RODRIGUES, queremos manifestar o nosso vivo reconhecimento pela bibliografia que nos forneceu, bem como as pistas bibliográficas e sugestões de leitura.

 




 



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