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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
CASSANDRA - VOX FEMINA TRAGICA III
III

No séc. III a. C., as profecias de CASSANDRA foram tema de um longo poema de LÍCOFON. Este, nascido entre 330-325 a. C., em Cálcis, na Eubeia. Este autor viveu na Eubeia, em Atenas e em Regium, sendo autor de várias tragédias. O Alexandra ou CASSANDRA foi escrito por volta do ano 295 (1). Mais tarde, LÍCOFRON foi atraído pelo brilho intelectual de Alexandria, onde foi contemporâneo de CALÍMACO e supervisor das comédias, incluídas na nova biblioteca (2).

O poema é constituído pelo relato de um mensageiro. Após o nascimento de PÁRIS- ALEXANDRE, altura em que, segundo algumas versões do mito, CASSANDRA começou a revelar os seus dons proféticos (3), PRÍAMO, temendo os dons proféticos da filha e as zombarias dos Troianos, manda-a encarcerar numa torre, vigiada por um guarda e encarrega a um mensageiro a tarefa de registar as suas profecias, que lhe são depois comunicadas. O poema estende-se por 1474 versos jâmbicos de poesia críptica, numa linguagem cujas raízes são as dos textos sibilinos e da linguagem oracular. É um texto de difícil leitura, pois a sua linguagem é sobrecarregada de símiles, utiliza informações geográficas, mitológicas e genealógicas, por vezes confusas e difíceis de identificar e, para dificultar ainda mais utiliza 518 hapax legomena (palavras não documentadas ou desconhecidas, em obras gregas) e 117 palavras, que aparecem no poema, pela primeira vez (4). Escrito na altura da Primeira Guerra Púnica, narra as primeiras vitórias romanas, em solo grego e antecipam o tema: a glória de Roma, que será cantado três séculos mais tarde, por VIRGÍLIO, na Eneida. Nesta obra, CASSANDRA é referida, bem como o seu noivado com COREBO, logo desfeito, pela morte deste, que não evitou a morte, ao recusar-se a acreditar nas suas profecias e no Canto III, no qual ENEIAS salienta como a profetisa predissera os feitos heróicos da sua raça, numa altura em que ninguém acreditava nela.

O poema Alexandra constitui um documento histórico importante, pois reflecte a o impacto que a conquista dos reinos helenísticos pelos Romanos provocara nos seus contemporâneos (5). Em termos literários, foi muito apreciado pelos amantes da poesia, na Antiguidade. Um dos seus admiradores foi o Imperador Adriano: Naquela noite leu-se uma peça bastante abstrusa de Lycofron, de quem eu gosto por causa das suas loucas justaposições de sons, de alusões e de imagens, do seu complexo sistema de reflexos e de ecos. um jovem colocado à parte escutava aquelas estrofes difíceis com uma atenção ao mesmo tempo distraída e pensativa, e eu pensei imediatamente num pastor no fundo das florestas, vagamente sensível a qualquer obscuro grito de ave (6). O grito de ave é uma referência aos primeiros versos do poema, nos quais o mensageiro, introduzindo o tema, conta como CASSANDRA, após um grito confuso, profere palavras selvagens, imitando o discurso da escura esfinge. Por este excerto do romance de MARGUERITTE YOURCENAR, Memórias de Adriano , podemos perceber que, embora difícil, o texto era apreciado pela sua beleza, poesia e pela força da sua carga profética. Num outro texto sobre Lícofron, Lycophron et la poèsie cryptique embora refira a quase ilegibilidade do poema, em certos passos, traduz alguns excertos, de inegável beleza, salientando que esta poesia não pode deixar de lembrar poetas modernos, na linha de GÔNGORA ou RIMBAUD (7). A fama de LÍCOFRON e do poema Alexandra entendeu-se até à época bizantina, tendo constituído estímulo para a exegese aos eruditos, que se exercitavam a descodificar a sua linguagem enigmática.

O recurso a imagens animais, utilizado largamente pela quase totalidade dos poetas clássicos, foi estudada, neste poema, por MARIA ISABEL REBELO GONÇALVES que considera ser o mais original, na utilização deste recurso. CASSANDRA é identificada com a pomba (vítima frágil de uma ave de rapina, ou de um lobo, representado por ÁJAX, por quem é violada. Este tema é bastante representado na arte da Antiguidade (8). A andorinha, que simboliza a linguagem profética ininteligível, é outro animal com o qual CASSANDRA é identificada (9).

A figura de CASSANDRA, como portadora de más notícias, como figura negra que é preciso afastar, acentua-se, sem dúvida, a partir do poema de LÍCOFRON. JORGE LUÍS BORGES, no seu estudo sobre as kenningar, alusões enigmáticas da poesia islandesa que se propagaram pelo ano 100, considera-as: uma das mais frias aberrações que as histórias literárias regista, pelo seu carácter demasiado insólito e artificial. Chama-lhes desfalecidas flores retóricas , que associa e, sem dúvida, se assemelham aos artifícios retóricos utilizados pela perversa CASSANDRA do negro poema de Lícofron (10).

Entre os séculos XIV a XVI, a figura de CASSANDRA é assimilada aos chamados Sibylenbücher, colectâneas de ditos proféticos populares (11), sendo prática comum a sobreposição de CASSANDRA a figuras sibilinas (12). Entre nós, há ecos destes livros populares em GIL VICENTE, no Auto da Sebila Cassandra, que foi representado no mosteiro d'Enxobregas, nas matinas do Natal. CASSANDRA é a virgem, que, pela sua capacidade profética, é detentora dos mistérios primordiais, tendo sido assimilada à VIRGEM MARIA (13).

Ao nível da ópera, no séc. XIX, CASSANDRA foi a figura central dos primeiros dois actos da ópera Os Troianos de BERLIOZ(1803-1869). O libreto foi adaptado pelo próprio compositor, a partir da Eneida de VÍRGÍLIO. Desde criança, BERLIOZ muito apreciava esta obra, por influência de seu pai. Fascinava-o a atmosfera heróica do mundo antigo. Os dois primeiros actos, constituem a primeira parte da ópera, narram a tragédia de CASSANDRA, durante a queda de Tróia, sendo exaltado o amor entre ela e COREBO (14). A segunda parte: Os Troianos em Cartago, trata o tema da tragédia de DIDO. É uma obra monumental, com passagens que se coadunam bastante com o poema de SCHILLER, 12º estrofe(15), quando CASSANDRA diz a COREBO, no final do III Quadro do I Acto: Eh bien! Voilà ma main/Et mon chaste baiser d´´epouse/Reste! La mort jaluose/Prépare notre lit nuptial demain (16). O tema do homem, entrincheirado na sua cegueira, ou vítima do seu insondável destino, está patente, no II Acto, na Cena IV, quando, chegando à Grécia e perante o destino que a espera, exclama: Il senso delle cose!/Ah! Sono sì come spettri senza nome (17).

No início do séc. XX, é tema de uma ópera DE VITTORIO GNECCHI(1876-1954). Escrita entre 1901 e 1903, inspira-se na peça Agamémon de ÉSQUILO , que era muito do agrado deste compositor. O libreto, da autoria de LUIGI ILLICO e do próprio GNECCHI, utiliza antigas melodias helénicas, que GNECCHI recriou uma ópera moderna e cheia de vitalidade (18).

Ao nível do teatro, CASSANDRA é um tema tratado, em múltiplas peças de teatro, na Alemanha, no séc. XX (19). Ao nível da ficção, há também inúmeros romances, dos quais destacamos CASSANDRA da autoria da romancista da antiga República Democrática alemã, CHRISTA WOLF (20). O romance, publicado em 1983, segundo HELENA GONÇALVES DA SILVA: configura uma antevisão trágica da dissolução do estado da RDA (...) - a profetisa Cassandra que já ninguém escuta que já ninguém quer ouvir -, a certeza da morte como futuro inevitável encontram expressão numa poética de auto-identidade .(...). Sob a forma de um longo monólogo interior autobiográfico, Ch. Wolf projecta na marginalização da heroína, tida como louca as dificuldades, apreensões e mágoa da sua relação com o poder político da RDA, agravadas desde o caso Biermann. Na sua condição de prisioneira de Agamémnon, a caminho da execução, Wolf dá voz às premonições de um futuro de "exílio" dentro da Alemanha, já que de certo modo ele não deixará de concretizar-se, em consequência das acusações humilhantes de que vai ser alvo depois da reunificação, quando são tornados públicos os seus vínculos à Stasi. Num registo emocional dominado pelo medo - uma das palavras-chave do texto -, Wolf revela ter plena consciência do fim iminente da RDA, da sua própria impotência e dos perigos que a aguardam (21).

A fonte utilizada por CHRISTA WOLF foi Os Mitos Gregos do romancista inglês ROBERT GRAVES. Uma comparação com o seu material permite ver o que ela negligenciou, valorizou ou alterou. A autora chama a atenção para o facto de ROBERT GRAVES compilar variantes dos mitos de períodos diferentes e que revelar preferência por variantes mórbidas e abstrusas. De particular interesse é o material sobre as transformações do matriarcado. Os Gregos representam o conquistador patriarcal que veio a destruir a paz cretense e, com ela, toda sociedade harmónica e matriarcal, onde a descendência era matrilinear e as rainhas eram as soberanas que veneravam a Grande Deusa (22). Os Gregos são apresentados como falsos, assassinos e traiçoeiros. Foi esta concepção que CHRISTA WOLF. seguiu. Há alterações significativas, em relação ao tema clássico, nomeadamente no tratamento da figura de ENEIAS que CHRISTA WOLF escolhe, pela sua neutralidade, ideia que recolheu em ROBERT GRAVES. Segundo este autor, ENEIAS mantivera-se afastado da guerra, longe de Tróia, no estreito de Dardanelos, tendo-se mantido "neutro", durante os primeiros anos da guerra. Após AQUILES ter devastado as suas terras, juntou-se aos Troianos. Para ROBERT GRAVES, HEITOR foi "a mão"(a força militar) de Tróia, ENEIAS, de quem se viria a tornar o único sobrevivente, a sua "alma". Assim, contrariando a tradição, CHRISTA WOLF coloca ENEIAS num campo neutral (23). e inventa algo absolutamente novo que é a sua relação de amor com CASSANDRA (24). Outra contribuição importante para a história da Mulher na Antiguidade é de BACHOFEN Das Mutterrecht (25).

ENEIAS simboliza o masculino, na sua versão positiva, ao contrário de AQUILES que simboliza todo o poder masculino que oprime e subjuga a mulher. O horror de CHRISTA WOLF diante de AQUILLES, a besta, transfere-se para CASSANDRA que é o símbolo por excelência da mulher aniquilada no mundo dos homens, cuja voz é: individual, e, mais do que individual, solitária e incompreendida, como refere MARIA ALZIRA SEIXO (26) que, repensando as premissas narrativas do romance do nosso tempo, vê, no romance de CHRISTA WOLF, CASSANDRA: A profetiza, consciência infeliz de uma civilização que ela adverte e que nela descrê, sobrevivente troiana na chegada à Grécia, ponte para a sensibilidade moderna (...) (27).

Um outro romance, Presságio de Fogo, de MARION ZIMMER BRADLEY (28), publicado em 1987, narra a Guerra de Tróia, pela voz de CASSANDRA. Esta assume uma importância que nunca obtivera na Antiguidade. É através dela que a autora faz passar toda a história da guerra (recriada com muita liberdade),.depurando, na sua acuidade profética, toda a acção, em toda a sua extensão com o passado, dominado pelo matriarcado e o culto da grande Deusa, integrando todas a rupturas que o domínio micénico trouxeram. Há uma aceitação, embora algo contrafeita, das novas relações de poder instaladas. As serpentes da grande Deusa deram lugar às serpentes de APOLO. CASSANDRA, a princesa real e sacerdotisa de APOLO, conviveu com as amazonas e vai procurar a cura para as serpentes do seu templo, a Cálcis, ao templo da grande Deusa, onde reina, ainda segundo a tradição matrilinear, a rainha IRMANDRA. Os impulsos bélicos de ambos os lados são condenados e a autora, seguindo talvez CHISTA WOLF mantém a relação amorosa entre CASSANDRA e ENEIAS, que a aceita e acredita nas suas profecias. Só que, nesta narrativa, este não é o único que sobreviverá, pois CASSANDRA sobreviverá a CLITEMNESTRA, que é também sacerdotisa da grande Deusa. Assim, a autora contrapõe um final positivo à tradição do seu destino inexorável e fatal, como que redimindo a própria história da Mulher e a sua figura continua a ser ponto de partida para posições contra a guerra.

Tal como salienta ROSEMARIE NICOLAI, a tragédia grega As Troianas (415 a. C.) fora escrita para alertar os gregos para o perigo de uma expedição à Sicília, que envolvia um grande perigo. Apesar da advertência de EURÍPIDES, a expedição realizou-se (29). No nosso tempo, as guerras também continuam, apesar das advertências. CASSANDRA, tal como surge no poema de SCHILLER Das Siegfest (A festa da vitória), continua a ser o contraponto, em relação aos vencedores. Embora não seja possível abolir as guerras, vale sempre a pena advertir os vencedores do preço que irão pagar pela sua ambição e a sua glória. Por isso, CASSANDRA continua a ser representada, em inúmeras peças de teatro. Para ITZIAR PASCUAL: La gran antagonista del héroe tradicional, del devorador de ambiciones, ciudades e fortunas, es sin duda Cassandra. Cassandra, la última y la primera, la hija de una tierra destruida, la extrangera, el botin de guerra, la fragil memoria y el saber del provenir nunca acatado y siempre advertido, seria por tanto el contraponto a las glorias de Agamenon, el guerrero dispuesto al sacrificio de la propria hija, el que pisa la alfombra púrpura, aquel que deseaba escarmentar a Troya e acaba arrasándola (30).

Como aliada dos deuses, prevenindo-nos afinal dos perigos da nossa hybris, CASSANDRA continua a congregar toda a força do seu mito, que vai sendo continuamente actualizado e reformulado, aglutinando, à sua volta, reflexões sobre o feminismo e os direitos das mulheres (31). Ao assumir o seu individualismo e ao desenvolver a sua capacidade reflexiva, dá nome a um fenómeno psicológico da sociedade da globalização, denominada síndrome de CASSANDRA (32). Com o avanço tecnológico e a cada vez maior informação, a o termos perdido a segurança estrutural das sociedades antigas, ficamos sem "casulos protectores" e vagueamos numa insegurança ameaçadora, pois não acreditamos nas nossas previsões.

Assim, porta-voz dos desígnios do destino, consciência funesta dos vencedores, alertando-nos para os perigos do nosso solipsismo e individualismo, ou ajudando a reconstituir a história das mulheres e a visão feminina do mundo, dizemos, com ROSA MONTERO:

Porque hay una historia que no está en la historia

y solo se puederescatar aguzando el oído y

escutando los sussurros de las mujeres (33).

Em CASSANDRA, a profetisa, a mulher, continuamos a procurar a voz niveladora, o sentido das coisas, a inevitabilidade do destino ou os espectros sem nome, na imanência da sua vox femina tragica.

 
 

Publicado no Boletim de Estudos Clássicos, Nº 42, Associação Portuguesa de Estudos Clássicos, Universidade de Coimbra, Dezembro de 2004, pgs.. 199-214.

Salvo referência em contrário, as traduções do alemão são de nossa autoria.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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