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Maria do Sameiro Barroso
MINHO
Viana do Castelo

As palavras, prendê-las na ficção tua pele, na aragem

de lava, onde o rio e o mar se encontram,

nas túmidas labaredas das encostas reclinadas.

As palavras, prendê-las, possui-las, arrancá-las,

na língua, nos crustáceos, nas ânforas, nas serpentes

marinhas, no culto dos deuses ctónicos,

entre estátuas de guerreiros lusitanos,

num castro da Idade do Ferro.

 

As palavras, as tuas rosáceas de silêncio, o teu rumor

de jóia milenar.

Em Santa Luzia, sob a lua vidente, atravesso a rede

claríssima da tua aragem fresca e suave.

Nos teus remos, nos teus ciclos, escuto a febre,

os seus teares, tecendo a alquimia que os fios do silêncio

assombram.

No rumor das tuas parias e falésias, retumbam a sombra,

a luz, as inscrições de névoa.

 

Num dia que de ti retive, o meu nome era um aroma frágil,

encimado por roseirais de pedra.

Junto de um torque da Idade dos Metais,

o meu coração transformava-se num amuleto

de ouro e filigrana.

 

Por mão alheia, percorria a génese, as gemas, a loucura,

a chama suicidária.

Para ser barco, faltava-me o fogo límpido a brilhar no céu.

Para ser corpo, faltava-me ser desejo, rio,

desenho oculto, amplexo de luz, na fronte lodosa,

coberta de violoncelos verdes.

Para ser barco, faltava-me o mar, o vestígio, o abraço,

o teu arabesco branco, desperto na labareda dos anseios.

 

Para ser pedra, faltava-me a tua fronte, coroada

de súbitas esmeraldas.

Para ser flor, sempre me faltaram os penedos,

os búzios, salpicados na claridade da espuma.

Para ser arco, sempre me faltaram as rédeas

para conduzir a garupa do sonho.

Para ser nome, sempre me faltou o crânio sincopado,

fendido na orquídea branca de um esqueleto de bruma.

 

Para ser poema, faltava-me o teu canto, o teu corpo pétreo,

etéreo.

Para ser asa, faltava-me a nesga, o céu, a Senhora da Agonia,

as festas, os arraiais, a alegria do povo.

Para ser gesto, fímbria, movimento apenas,

faltava-me a tua sombra inquieta, o teu recinto núbil,

ou os lábios verdes do teu beijo a eclodir

entre pontes e glicínias,

a florir no vórtice dulcíssimo

 

da tua carícia de mimosas.

In Viana a Várias Vozes, Autores não vianenses escrevem sobre o Município, Edição comemorativa dos 750 anos do Foral da Cidade, Org. Fernando Canedo, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo, 2009, pp. 65-66.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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