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Maria do Sameiro Barroso
MINHO
As duas irmãs

À memória do meu irmão,
Severino Jorge Reis Barroso

Gostava que a minha vida fosse um poema puro, escrito sobre as águas, um conto perfeito, uma estrela de sal e não este crepúsculo carregado de naufrágios, suspensos da vertigem negra, contida na secreta conjugação das vozes.

Por isso, escrevo, até chegar a essa ilha, a esse rio, escrevendo as linhas, plano a plano, em busca das lâmpadas, das luzes, dos orifícios, revolvendo essa arca de cinza que me traz a escrita, a seiva, o verde, o musgo brilhante, as árvores odorosas, o fulgor retumbante das neblinas do Norte.

Algures, nos pontos nocturnos, um rio, um extenso caudal de lírios escuros.

Nos pontos de partida, as pontes, os cais, a infância, uma fotografia de meu pai, levando-me ao colo. Eu tinha um ano. A minha mãe, ao lado, aconchegava-me o casaco. Sempre foram ventosas as praias do Norte. Passávamos o Verão, na praia, junto a esse primeiro cais que nunca mais esqueci.

Quando tinha três anos, o meu irmão nasceu. Voavam os insectos sobre os frutos, a minha mãe tinha acabado de fazer a geleia e a marmelada, num dia claro de uma esplendorosa tarde de Setembro.

As férias passaram então a ser na Apúlia, entre carros de bois, transportando sargaço. Na praia, havia os passeios entre as rochas, as pulgas saltitando na areia. Saltitávamos nas pocinhas, brincávamos com o balde e a pá e, na maré baixa, procurávamos pequenos búzios e beijinhos, pequenos caurins, que coleccionávamos, como preciosos talismãs. Jogávamos ao prego. À tarde, sobretudo quando soprava a nortada, entretínhamo-nos a jogar às cartas, com outras crianças e duas famílias vizinhas que quase já desapareceram, nesse tempo, longínquo e feliz.

Em Braga, havia rios, moleiros, açudes, noras, lugares esplêndidos, ofícios antiquíssimos, alternando com o sargaço da Apúlia, as fanecas de Fão, o vento e a maresia.

Eu e o meu irmão crescíamos. Ele tinha uma intensidade invulgar nos olhos. — O menino troca os olhos —, diziam à minha mãe. Mas não. Consultado o médico, não havia estrabismo nenhum, apenas um olhar tão intenso, que iluminava os prados, os jardins, as janelas e se incendiava em ouro puro, perseguindo o rasto das violetas solares. Não sabia então que essa intensidade o ameaçava.

Quando tinha dois anos, a minha mãe comprara-lhe um fatinho de malha branco, com um capuz de aviador. Ficava lindo, o pequeno aeronauta. Era uma criança alegre e viva, que enchia de luz a minha vida.

Mais tarde, entrados já na adolescência, o rio e o mar juntavam-se, na foz do rio Âncora.

Alguns anos mais tarde, já passado esse tempo, já então devassado por rupturas irreparáveis, acampámos em Caminha, na foz do rio Minho. Em frente, os muros sobranceiros de Espanha, tão amada pelo meu pai que lá estudara, na sua infância e juventude. Fizera já opções irreversíveis, transitara de Letras para a Faculdade de Medicina. Ia já no quinto ano. Há muito, terminara para mim o tempo de folguedos.

Foram as últimas férias que passei com o meu irmão. A intensidade do seu olhar, as pombas ou as borboletas que dançavam nos seus olhos tinham-no levado ao convívio das nuvens. Começara por fazer pára-quedismo. Depois entrara pelo voo livre e tirara o brevet. Fazia-o por gosto.

Que procuraria tão perto das nuvens, pensei tantas vezes. — É um silêncio absoluto, uma libertação total, uma paz, uma felicidade indescritível — dizia.

E se o pára-quedas não abrir —, perguntei-lhe, aflita. Ele, então, com a sua simplicidade natural, explicava-me que não havia nada a temer, que havia sempre um pára-quedas de reserva que abriria, caso o pára-quedas principal não abrisse.

Olho, ainda arrepiada as suas fotografias, tiradas a 4 500 metros de altura, nos sessenta segundos, em que ele e os colegas, num abraço fraterno e alado, davam as mão, descendo à velocidade vertiginosa de 200 quilómetros por hora, até atingirem os 3 000 mil metros, altura em que o pára-quedas abria e então, confortavelmente desciam, por mais cinco ou seis minutos, à velocidade de 20 quilómetros, à hora.

Na realidade, nada de anormal aconteceu, nos seus saltos em queda livre. As suas vivências no Aero-Club de Braga, em Palmeira, os pára-quedistas animando as festas do Alto Minho, com os seus saltos e acrobacias eram-lhe altamente gratificantes. Fazia o que gostava. Pouco antes das férias em Caminha, levara-me a dar uma volta de avião, sobrevoando a cidade e os arredores, num pequeno Cessna. Eu tinha medo, claro, de voar num avião assim tão frágil e artesanal, mas a sua presença tranquilizava-me.

Mas, as suas actividades envolviam algum risco, sempre o soube. Todos sabíamos, em casa e ficávamos com o coração apertado quando ele partia feliz, rumo ao Aero-Club, onde íamos ter, muitas vezes, ao fim da tarde.

No ano seguinte, após as férias, que, dessa vez passara com a namorada, numa praia de Espanha, preparava-se para casar.

Num domingo soalheiro, como tantos outros, numa rotina banal, foi experimentar uma avionete de instrução, com dois comandos, que tinha sido oferecida ao Aero-Club. A pequena aeronave falhou duas vezes, mal acabara de descolar, a pouca altura. Aos dois pilotos, não foi possível controlá-la. O outro sobreviveu. O meu irmão faleceu pouco depois da queda, num helicópetro de emergência, a caminho do Hospital de São João, no Porto. Tinha vinte e cinco anos e uma luz imperecível nos olhos.

Recém-licenciada em Medicina, tudo procurei, tudo quis saber, mas o mistério dos seus olhos tudo me ocultou. Mais tarde, comecei a escrever. Compreendi Rilke e os anjos exilados que habitam a terra.

Sei que a minha vida não é um poema flutuando nas águas, entre um fio, um rasto, uma pluma, pressentida na cintilação obscura, sibilina que algum rio me traz. Sei das algas insondáveis, das vozes absurdas, na terra, habitada por aves tranquilas, tumultuosas, fontes mágicas e sei que procuro, a maior parte das vezes, esquecer o meu irmão, tanto me fere ainda a intensidade mágica e luminosa dos seus olhos.

Só este ano, voltei a Caminha e entrei pelas fronteiras com Espanha, agora tão acessíveis. Recordei esse último Verão. Olhei o rio, esse extenso caudal de lírios escuros, esse ardor, essa praia de águas mornas e areia fluvial. Lembrei-me do seu nome:

— Minho. O rio Minho.

— É o meu rio, gritei, atordoada. Minho é o meu petit-nom familiar. Foi assim que o meu irmão me começou a chamar, quando tinha três anos, pela primeira vez.                                                                    

In Um rio de contos, Antologia Luso-brasileira, Org. Celina Veiga de Oliveira, Victor Oliveira Mateus, Prefácio Francisco Nunes Correia, posfácio lauro Moreira, Editorial Tágide, Lisboa, 2009, pp. 168-170.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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