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Maria do Sameiro Barroso
MINHO
As duas irmãs

Nos vitrais obscuros, o poema é inseparável do corpo, súbita cicatriz, marca obstinada, vocábulo do ser, grinalda errante, único porto a habitar a solidão interdita. Sei-o agora, revendo a história de uma solidão partilhada. Há meses, na Exposição do ouro tradicional de Viana do Castelo, vi uns brincos compridos, adornados com flores de ouro e pequena turquesas, exactamente iguais a uns brincos que a minha tia Assunção usava, quando saía, com os seus olhos verdes, irradiantes de juventude. Com os brincos, sóbria e elegante, trazia a marca de origem da sua pertença minhota.

Um par de brincos, duas irmãs. Ela e a minha mãe eram inseparáveis. Por vezes, a vida é assim, uma alma dupla, uma toalha de estrelas, uma noite de grilos, uma canção a duo.

Quando era criança, o meu pai, tinha que nos deixar por longos períodos. Então, a minha mãe chamara para junto de si a sua irmã mais nova, que chorara copiosamente no dia em que a minha mãe casara, inconsolável pela inevitável separação. O meu pai fora carinhoso com ela, confessou-me a minha mãe, há pouco tempo, quando, durante uma das minhas estadias em Braga, revisitávamos os recantos preciosos da minha infância perdida.

Por vezes, a vida ignora a as hidras dolorosas, as lagunas insones, convoca buganvílias, girassóis, e, na sua alegria inocente, ergue-se, com os gladíolos, as açucenas e alarga-se às margens sempre brancas de irisadas margaridas.

Os dias passavam, nessa magia calma, nessa torrente obscura ou nessa fronte incendiada. Junto ao poço, coberto de heras, encimado por um limoeiro frondoso, no fundo do quintal, perturbava-me a profundidade das águas, mas logo me distraía a baba de algum caracol indolente que se passava.

O tempo suspendia sobre mim, os seus relógios secretos, imprimia sobre mim, os seus ritmos de luz, as suas paragens de sombra. A lua, por vezes, surpreendia-me, não era de prata, mas um corpo aurífero, envolto num enorme círculo de subtil neblina de ouro.

Nos aromas de névoa, nada escrevia. Pensava nos laços tenros do amor que derruba fronteiras e dissolve os limites precisos da escuridão adiada.

Quando chegava o meu pai, regressando de paragens distantes: Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Ilha da Madeira e, finalmente, Lisboa e Braga. A alegria, há tanto tempo preparada, era indescritível. As crianças, eu e o meu irmão, sentiamo-nos uns príncipes, mimados com prendas, trazidas de um país longínquo. Chegava sempre muito moreno, envergando calças claras, uma camisa branca, trazendo os olhos protegidos com óculos escuros.

Depois deliciava-nos com as suas histórias de macacos, cobras, leões, crocodilos, hipopótamos. Falava das picadas, das cubatas, da terra vermelha, das girafas, das acácias, dos cheiros intensos, da floração exótica. Acompanhávamo-lo, entusiasmados, no seu périplo, felizes de o termos, agora por largos meses, junto a nós.

Falava das cidades, das baías onde o mar se espraiava, das esplanadas coloridas, do whisky, do gindungo, do caju, do camarão.

Esta e outras palavras que usava, passaram a fazer parte do nosso vocabulário: o cacimbo, o mata-bicho, o machibombo, o mitombo, as biquatas.

Por essa altura, eu queria ter um macaco, para encenar a minha selva. Ia crescendo em mim o poema, o cheiro da terra, a flor desmedida, a futura cicatriz, obstinada e sóbria, com as suas brechas de sangue pulsando no seu ouro submerso.

Naquele tempo, percebo-o agora, a vida era um trevo, um amuleto precioso, uma ponte imaculada, um augúrio de boa sorte.

No jardim, eu e o meu pai colhíamos rosas, laranjas, morangos, enquanto a minha mãe colhia legumes e o jardineiro tratava das árvores, plantava flores e aparava as sebes. Os dias corriam lestos, lentos, nas tardes de sol, sob o céu acetinado.

Ao domingo íamos à missa, de preferência ao Sameiro, de cuja Nossa Senhora, o meu pai, embora fosse de poucas rezas, era bastante devoto. Trazia sempre ao peito, uma medalha da Nossa Senhora que agora guardo, com emoção. Fora ele que me dera o nome, pois, tendo eu nascido muito débil, o meu pai, pedira à Senhora do Céu, que fosse minha madrinha e me concedesse a sua protecção.

No verão, íamos até Afife, Carreço, apanhar sol, ouvir o mar. Corríamos pelas praias, enfeitiçados pelos seus vastos areais e pelos seus penedos, penteados por longos fios de sargaço. Algo assustados pela imponente vastidão dos mares do Norte, eu e o meu irmão brincávamos nas poças de água, apanhávamos seixos, conchas róseas, delicadas, que juntávamos, com as nossas frágeis mãos de criança.

Na água, nos seus textos de luz, procurava talvez os peixes, as medusas, os desertos submersos, os anzóis perdidos, na estrela pura das suas âncoras afundadas. Depois, íamos até Viana do Castelo, onde a minha mãe gostava de comprar bordados e nos perdíamos, na mancha verde das suas tardes de azul e filigrana.

Nos caminhos, rodeados de amoreiras silvestres, havia carros de bois, lembrando os trajes tradicionais, o rosa, o vermelho, o negro e o verde, as cores intensas, fixadas nos quadros de Sónia e Robert Délauny.

O Minho sempre foi para mim uma metáfora verde, onde os quadros musicais flúem, ao som de concertinas, cavaquinhos, acordeões. Desenhá-lo, escrevê-lo, sempre foi para mim tornar visível o pensamento dos seus ventrículos de musgo, contraindo, nas águas, sua torrente de safira e rubis.

Por vezes, nas vagens da memória, a melancolia das suas florestas nocturnas instala-se e, sob os telhados de névoa, o coração estende-se, na refracção dos sonhos, em busca das âncoras de seda, das tatuagens do amor, da carícia juvenil.

Hoje, trago ainda as mãos vazias de chegar ao universo e os olhos cheios de infinito, quando perscruto esse, que é o umbigo do meu mundo, nas suas crateras incandescentes, abertas, por dentro das arcas luminosas e arejadas das minhas recordações.

Um dia, quando as laranjeiras floriam e as abelhas zumbiam, no jardim, onde os gatos e as lagartixas passeavam e os melros cantavam, a minha tia casou. Foi um casamento atribulado que não fez separar imediatamente as duas irmãs. A minha tia, cujo marido também se ausentava por longos períodos, permaneceu ainda algum tempo, junto da minha mãe. Depois, seguiu a sua vida, tendo ir morar um pouco acima, na mesma rua.

Quando saía, ainda usava os seus brincos compridos, ornados de flores e pequenas turquesas. A minha mãe costumava usar uns brincos mais sóbrios, em forma de flor, em coroa radiada.

Nesse tempo, adorava adornar-me com brincos de princesa, pulseiras de flores, rodeada de libélulas aquáticas. Sobre tábuas escurecidas, fabricava idiomas, sonhava com pérolas, galos degolados, em vésperas de festa. Em países distantes, voltejavam princesas, rodeadas de turbantes, trajes macios, morcegos, colibris, mercadores de venenos.

Nesse tempo, os rios desaguavam em Maio, os touros viajavam com o sol, os harpejos fluíam, em suas artérias rubras, o sol festejava o seu lume e as cerejeiras floriam de uma só vez.

Nos caramanchões de Verão, por entre as frestas de sol, pensava nos pássaros, nas redomas de cristal, na perenidade dos afectos e nas duas irmãs, quase gémeas, que continuavam a dar-se, como dois brincos inseparáveis, iguais, exactamente iguais a um par de brincos, na vitrina de ouro moderno, que vi no Museu Nacional de Arqueologia. 

In Viana a Várias Vozes, Autores não vianenses escrevem sobre o Município, Edição comemorativa dos 750 anos do Foral da Cidade, Org. Fernando Canedo, Centro Cultural do Alto Minho, Viana do Castelo, 2009, pp. 67-69.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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