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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
A MÃO SEMEADA
É quase o corpo, movido pelos arados, cercado de agulhas

moribundas.

E a vida canta, inóspita, à beira de outras nuvens.

Pelas aras de cinza, nada me resta senão o voo invisível,

pelas margens da agonia,

e a noite incessante que me traz a terra, a espessura do sangue,

os caminhos frescos.

 

Agora sou o limite que emerge, o pulso, o grito,

o som que principia.

E chego, porque há novas harpas que se enredam nos dias.

Alguém me fala.

 

Sobre negros precipícios, há espelhos negros

e a vida mal definida que preenche as casas.

Algures os limoeiros florescem e reanimam a face lívida,

olvidada pela música.

 

Pelos tinteiros de luz, pinto estrelas de sombra.

As cinzas dormem e há novas raízes que se libertam,

pela mão semeada, adormecida.

É, pelo corpo, cercado de espelhos, que vivo e atravesso

o olhar, a assonância crescente, a semente do diálogo.

Alguém escutará o novo fulgor, o embate cego

contra os muros, a complexa ogiva.

 

Como uma lâmpada, caminhará a palavra,

pedra cintilante, nome e destino, vagido enigmático,

luzeiro obscuro, esporo de veludo,

 

coroado pelo vento.

 
In Palavras de vento e de pedras, Organização Pedro Salvado, Município do Fundão, 2006, p. 67.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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