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MARIA DO SAMEIRO BARROSO
OS PULSOS PUROS, OS CABELOS LENTOS

I ENCONTRO DE LITERATURA DO HOSPITAL DE SANTA MARTA
18 de Maio de 2006
MUSEU MACBRIDE . HOSPITAL DE SANTA MARTA

Aos Colegas da SOPEAM

 

A cidade tinha a cor, o coração algures.

A vida não estava nos textos, pergaminhos, num livro

equilibrado sobre a cabeça.

Algures, alguma deusa primordial protegia-me e a vida

pulsava, com as suas arestas lentas.

 

Eu era um sonoro vulcão, a cabeça desequilibrada,

uma haste de cinza rompendo a cabeça e o livro,

as chamas lacunares atravessando-me.

Fazia-me arqueóloga, com os pulsos puros e os cabelos lentos.

 

A vida não estava nas pedras, nem nos sarcófagos,

mas os mortos nasciam todos os dias,

inundando de neblina os jornais, cobertos de esporos frios,

as musas desequilibradas desequilibrando-me.

 

A minha vida era assimétrica, as minhas mãos confundidas,

entre filamentos de crisálidas.

 

Passavam por mim as musas delirantes.

E os mortos estendiam-se na cidade, como castanhas no outono.

A morte não estava nas locomotivas,

e eu aprendia a suturar, nos hospitais assépticos.

A minha vida cobria-se de orquídeas.

 

A morte escondia o seu seio. Havia gaze, iodo e mercúrio;

os meus olhos, uma genciana aberta de pássaros, neve.

E a vida não estava na arqueologia suturada,

nem nas saturadas invenções.

Mas as ânforas passavam, frenéticas.

Sonhava com Marco Aurélio. Provava o exótico garum.

Lia e suturava.

 

Cingia a cabeça, devorando as cidades interiores.

A arqueologia regressava, com todo o seu ouro.

A morte e a vida, os êmbolos inertes.

O terror regressava.

Pelos campos cirúrgicos o fogo surgia.

 

Renasciam as cinzas, no corpo sôfrego para segregar

as ervas e os violinos.

E a cidade tinha a cor, o coração algures.

As musas cirúrgicas passavam.

 

O Estige sorria, desdobrando canções, árvores frondosas

— os violinos sonhavam,

o mundo era uma canção iluminada, entre neve,

oxigénio, compostos iodados;

a Vida e a Morte, de mãos dadas, descobrindo os sarcófagos,

os Manes, as cidades interiores.

 

A Vida passava, leve e enigmática, como um teorema nocturno.

As estrelas soltavam-se.

Sabia de cor as violetas, a cor das cidades.

O Estige sorria.

A vida não estava nos textos, pergaminhos.

 

— A vida florescia, numa morna estação de neve e jornais.

Maria do Sameiro Barroso é licenciada em Filologia Germânica e em Medicina e Cirurgia, pela Universidade Clássica de Lisboa. Exerce a sua actividade profissional como médica, Especialista em Medicina Geral e Familiar.

Em 1987 iniciou a sua actividade literária, tendo publicado livros de poesia e colaborado em antologias e revistas literárias. A partir de 2001, a sua actividade estendeu-se à tradução e ensaio, tendo publicado, em revistas literárias e académicas.

Em 2002 iniciou a sua actividade de investigadora, na área da História da Medicina, tendo apresentado e publicado trabalhos, nesta área.

 




 



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