MANUEL JORGE MARMELO
 
O HOMEM DAS GAIVOTAS

Mesmo sem vê-las, o homem sabe que as gaivotas ali estão, velando no alto do prédio que há defronte, aprumadas, parecendo olhar o mar lá muito ao longe, em direcção ao qual o sol declina. Vêm pôr-se ali todas as tardes, perfeitamente alinhadas, levantando ocasionalmente os pescoços brancos para grasnarem, aparentando indiferença pela janela de onde o homem habitualmente as olha desconfiado desde que passou a reparar no chão quando caminha, encontrando aí, desenhados a sombra, os vultos de gaivotas que sempre parecem estar velando sobre a sua cabeça, planando com as asas abertas alguns metros acima do chão.

Embora o senso comum garanta que estas deambulações das gaivotas em terra são sinal de tempestades no mar, o homem sabe que as aves que lhe vêm guardar o horizonte não fogem à fúria de qualquer elemento, antes aqui são convocadas pela sua voz grossa, tonitroante, e pelos versos que recita enquanto traça no chão da casa um percurso já habitual, entre a janela de onde avista as gaivotas e a estante dos livros, de lá para cá, de cá para lá, uma e outra vez, enquanto mede com passos miúdos os silêncios que devem sublinhar as palavras, entre o momento em que o som de uma se extingue e o instante em que a seguinte deve ser dita. Nisto reside, crê o homem, o segredo da poesia, mais do que da arte da recitação. O silêncio não é um intervalo, antes a chave que transforma as palavras em música. Não. Música não é aquilo; as palavras que diz e as pausas que as preparam hão-de ser alguma coisa próxima do subtil sussurro que os astros produzem enquanto rodopiam no vácuo, uma linguagem que, sabe agora o homem, a própria natureza identifica como algo seu, que as plantas e os animais escutam e compreendem.

Por isso o homem não precisa de ir à janela para saber que as gaivotas lá estão fora, esperando a poesia que há-de dizer, cativas há muito do som que produz a sua voz escapando de casa após ricochetear nas paredes da sala exígua. De quando em vez, as aves grasnam como cães que regressam a casa e, do lado de fora da porta, arranham a madeira para sinalizar que já ali estão.

Entretanto, escurece. E, pela luz que vê pela fresta das cortinas, o homem sabe que vem aí uma dessas noites. O dia esteve quente como este ano ainda se não tinha visto e, agora que o crespúsculo se instalou, a chuva começou a cair em gotas hesitantes e grossas, libertando da terra o odor que dizem ser o perfume do chão de África. Cheiro a terra molhada, ainda que, por enquanto, as pérolas de água pareçam evaporar-se assim que tocam o chão.

Streptomyces, assim se chama, pensa o homem, a bactéria que produz este milagre do olfacto. Mas streptomyces não é um nome bonito. Ele prefere pensar no que sente apenas como o “cheiro da terra molhada”, agradando-lhe pensar que podia estar lá fora, recebendo as gotas escassas nas costas transpiradas enquanto revolvesse com as mãos os segredos do chão que assim cheira. Mas não o faz. Permanece em casa, caminhando de lá para cá, entre a janela e a estante dos livros, lendo sem voz os poemas de um livro que escolheu ao acaso. Ao longe, muito ao longe ainda, principiam a ouvir-se as primeiras rebentações de trovoada próxima, clareando o céu para o lado nascente, que é aquele que, com o cair da noite, se pôs escuro, embora o sol poente inflame ainda, com uma luz irreal, a fachada do edifício onde as gaivotas esperam, voltadas para o flanco do mar. Cada vez mais perto, os clarões vão abrindo caminho, os relâmpagos rasgando o escuro cada vez mais perto, encurtando-se os espaço entre o clarão breve e o ruído da rebentação, agora tão próxima que parece capaz de rachar a terra em duas metades. Já se ouve o crepitar eléctrico das raízes de luz quando a chuva, enfim, engrossa e se transforma numa cortina aquática e morna, molhando corpos e rostos que não buscam sequer abrigar-se da bátega forte que se instala.

Bela noite se pôs, uma dessas noites. E, todavia, as gaivotas não debandam. O homem continua o vai-e-vem lento, necessitando de esforçar os olhos para continuar a ver as letras impressas no livro que tem nas mãos. Acende, por isso, a lâmpada que pende do tecto que a humidade manchou há muito. Poisa o livro e abre as cortinas, inflando o peito para que o cheiro a terra molhada o invada, como se, deste modo, pudesse aspirar o perfume que há lá fora também para dentro da sala abafada. Olha o alto do prédio em frente e vê que lá estão ainda as gaivotas, quietas sob a chuva que cai, indiferentes à tempestade. Toma, de novo, o livro das mãos. Escolhe um poema ao acaso.

Pigarreia para clarear a voz e principia a dizer as palavras e os silêncios que entre elas há, misturando-os ao crepitar dos relâmpagos, ao murmúrio das gotas, ao ruído do trânsito da cidade. Caminhando de lá para cá, entre a janela e a estante dos livros, calculando o tempo que fica entre dois trovões, medindo com os pés o tempo que deve entremear cada palavra, o silêncio que não é silêncio algum, mas a música do mundo em forma de chuva grossa que cai no passeio e se evapora com cheiro de terra molhada. Lendo, o homem não olha o edifício defronte. Mas sabe que, tão certas como chuva e o ribombar da tempestade, as gaivotas lá estão fora, esticando os pescoços para grasnar quando a restante melodia as convoca.

Porto, 2002
 

 




 



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